Brinquedoteca

Infantil, para cuidar, brincar, contos curtos, temas rápidos para a família e amigos, também para aquelas pessoas.

O menino feliz

Para Pedro Felipe com seu vôo de alegria flamejante.

Ele queria ser estrela, mas vivia com a vovó que gostava do jardim e que não compreendia muito de céu.

–               Quero ser estrela!

–                É mesmo!

–                Lá no céu entre milhares de outras crianças iguais a mim.

Papai pediu que ficasse sempre perto.

–               Mas eu volto, todo dia, toda hora. 

–               E como fará isso?

–               Uma estrela que voa.

–               Com asas?

–               Estrela passarinho.

–               E super-herói.    

–                Super-herói, estrela e passarinho. Podia voar de vez em quando.

–                Só de vez em quando?

–               Quanto quiser ser pode. 

–               Posso?

–               Claro, mas tem algo que costura e tece, faz bordado e dança, canta e tem segredos, fala de mistérios e inventa que voa.

–               A vovó.

–               Bem, meu querido sabiá, você já entende e sabe voar. Obedeça quando eu chamar. 

O menino feliz sorriu porque é o melhor que meninos felizes podem fazer, e voou para o jardim, foi falar com o vovô. 

–               Por que você quer ser estrela, menino? Perguntou o vovô.

–               Para ser passarinho.

–               Passarinho?

–               Sabiá e voar.

–               Voar.

–               Serei super-herói.

–               Então vai ser se você quer.

O avô tirou a capa do armário e o vestiu de mago.

–               Quer  voar?

–               Eu quero, disse ele de asas novas, feito estrela de sorriso iluminado

A vovó costurava, sentada no banco do jardim.

Ela fez um sinal de mistério. Ele entendeu que não podia correr e gritar, pular e voar.

Era aquela cara que deixa curioso, uma cara daquelas que parece diferente de outras quando conta histórias. Seguindo o olhar da vovó ele entendeu e foi como um mago que anda sem fazer barulho.

Escondido atrás de sua capa ele se aproximou da vovó.

Então ele viu o sabiá carregando palha no bico. 

–               Ela come isso?

–               Querido, os sabiás estão construindo ninho.

–               Mas por que carrega no bico?

–               Os sabiás fazem ninho com o bico. É melhor, mais fácil de carregar, além disso o bico do sabiá ajuda a costurar.

Ele pensou: os sabiás são como a vovó, costuram no jardim.

–               Onde será que estão costurando?

A vovó, paciente, explicou que para saber deve-se ficar a ver aonde voam. 

E ficaram a ver as idas e vindas do passarinho. 

–               O ninho está no manacá.

–               Você sabia que o sabiá sabia assobiar?

O menino ria enquanto a vovó procurava o ninho.

–               Sabiá me ensina a voar.

O jardim ficou quieto. A vovó cochichou:

–               Está ouvindo algo diferente?

–               Sim, plic-plic-plic. O que é?

–               Estão costurando.

Descobriu-se no alto do pé de manacá ainda florido, o ninho do sabiá.

–               Veja, está ali onde costuram.

A vovó chegou perto. Abraçou o menino.

–               Onde?

–               Naquele galho.

Ele ficou muito empolgado e desejou ver de mais perto ainda. A vovó explicou que era muito alto, e estavam trabalhando na construção do ninho. 

–               A concentração dos sabiás no trabalho de fazer ninho costurado. 

–               Ainda mais que se espantariam, poderiam até partir, no momento que vissem um menino.

–               Por quê?

–               Os sabiás temem que sejam capturados e levados presos para uma gaiola.

–               Mas eu não vou prender, quero só ver como fazem o ninho, vó!

–               Sei disso, meu bem, acontece que faz muito tempo que as crianças, e os homens prendiam sabiás em gaiolas. 

–               Aprenderam a ter medo.

–               Sim, ensinou-se o medo. 

–               Devido a isso, não podemos nos aproximar muito, arriscamos que se mudem, que nunca mais façam ninho por aqui, que se transformem em super-heróis no planeta dos sabiás que é o manacá.

–               Bem, isso mesmo.

–               Eles têm medo das pessoas e é por isso que canta daquele jeito cansado e alegre e forte e fraquinho. 

–               É que o canto do sabiá é muito sentimental, ele canta com uma alegria tão grande, depois com aquela voz de saudades. 

O menino feliz deu aquela risada cheia de felicidades.

–               Voz de saudades não existe. Quer dizer, não existia, eu acho. 

–               A gente ouve a canção da tristeza e da alegria. quando o sabiá canta?

–               E saudades… Hein?

–               É bem assim, você falava com o papai, e ele acenou. Depois desejava vê-lo de novo, e ele não estava lá, saiu.

O menino ficou com aquela cara de mago que voa e é passarinho com jeito de estrela brilhante.

–               Cadê o papai, disse com aquela voz.

–               Veja só, essa é a voz de saudades.

O menino abriu as asas rindo.

–               Vó, não vale, você me pegou. Eu vi o papai na cozinha.

O vovô chegou, o papai também e sentaram-se os quatro no grande banco do caramanchão de Alá-manda.

Ficaram estáticos, quietos, ouvindo. Era a canção do fim de tarde.

–               E porque prendem os sabiás? 

Começou o papai:

–               Talvez por isso.

E o vovô continuou:

–               Quem sabe por aquilo.

E conversaram, e riram, tomaram café, e contaram histórias, sentados à mesa do jardim, e provaram o pão quente o leite.

Imitaram o  passarinho, e o menino, de repente, era um sabiá.

–               Sabe de uma coisa? Você é o menino sabiá, o menino que não tem medo de cantar sua alegria.

–               Eu sou assim, o papai deixou, e depois, fiquei mago, super-herói e estrela.

Deu um salto e saiu voando pelo jardim, assobiando.

E o avô o reconheceu quando passou por cima do telhado, quando desceu sobre um galho gordo do pinheiro, e, depois plantou bananeira no ar.  Foi tão incrível que todos lá de baixo não resistiram, gritaram: muito bem, e aplaudiram quando passou rasante sobre a horta.

– É um menino feliz esse meu neto.

Então, com sua risada de passarinho super-herói girou feito parafuso.

Desceu junto à mesa com sua capa de mago flamejante de vento do céu para provar o bolo, dizendo que estava cansado.

– Estava lindo o meu sabiá!

E novamente saiu voando no céu azul e dourado com sua capa de mago.

Enquanto voava, papai correu buscar o binóculos. E cada um olhava o céu imenso com aquele menino feliz com sua capa de mago flamejante de vento e de céu.

Quando a Estrela Vespertina apareceu pousou lentamente perto do manacá.

Voa de novo, disse o papai.

– Não posso, agora sou estrela.

E todos compreenderam.

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Pedro Moreira Nt

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Leia PÃO a história de compartilhar e afetividade.

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