Encontros

Contos curtos, Crônicas, coisas fora da hora e do exato instante

Lupércio, o esquecido


Esqueceu que estava na AL e pensou descansar um pouco à beira do lago de Jatobá, aqui perto. Foi cedo, levou linha, isca e lanches. Ia tomar o porre – ia pegar muitos peixes. Foi muito cedo. Ainda escuro. Viu a lua no lago e disse para si mesmo: Vou tomar o porre. Não demorou foi enchendo o samburá. Ouviu um assobio. 

Os peixes vinham e entravam no samburá. Ele estava tranquilo. A lua cheia estampada, um sol da madrugada. Super-cedo ele foi pescar. E o porre – que é pegar bastante peixe a enjoar (não de nojo, não enojar, mas que tanto que não mais, tipo chega). E a lanterna veio andando. Ficou de butuca em um canto perto da prainha, onde a lagoa começa. E veio mais um e outro peixe. E em volta dele as lanternas começaram a chegar. 

E viu a lua do dia, que é o sol mesmo, bem fresquinho ainda. Foi muitíssimo cedo, e aguentou até a nascença do sol. Comeu o sanduíche, tomou o café, ajuntou as tralhas para voltar para casa que já eram 8h e pico. Ouviu um som, uma gritaria, uns carros ajuntados um no outro, barcos de tudo que era jeito pronto para entrar na água.

As pessoas esqueceram o motor de popa em casa e trouxeram cada qual uma estação de rádio. Desafiavam entre si quem ouvia mais alto. E o fogo. Fumaça de um lado e do outro, ele tentando sair, pedindo licença o samburá até a boca, ele já estava com ânsia (tipo ia vomitar – não por causa dos peixes, mas porque era muita gente chegando e ele sabia que ia ficar mal – ele ficava mal no meio de tanta gente. 

As crianças corriam para a água, os pais atrás delas, as mães rindo e ao mesmo tempo nervosas, (elas ficavam nervosas mesmo, e gritavam mais alto que se pode imaginar). E o farolete do sol aumentando de intensidade.

A luz cor-de-rosa da manhã amarelou. E ele na jornada atravessando as churrasqueiras, entrando na neblina, pedindo licença e ouvindo palavras grandes (palavrões).

Até que ouviu uma voz amiga, uma voz conhecida. “Lupércio, é você?” “Sou”. Ele era o tal. “Vim cedinho, mas muito cedinho da manhã para não ficar com o sol na cara”. E a fumaça subindo, as crianças chorando, outras rindo, e os pais conversando e não gostando nada de falar certas palavras.

E os barcos foram entrando na água, os rádios felizes em cada estação, e o trem sonoro voando, e o amigo perguntando: “E como está lá?” “Tá tudo bem.” “E  o Gildo?” “Continua o mesmo”.  “Imagino, aquele para mudar somente na porrada”. “É” “Pois é, pegou algum?” “É, um e outro”. “E vai para casa?” “É. Vou.” ‘Esta cuidando da Larica?” “Ela parou de fumar maconha, o medico disse que não precisava mais.””Não diga!” “É. Pois é”. “A Larica era uma gata, uma pessoa maravilhosa”. “Arranhava um pouco.” “Ha!” Ele não se enganava pouco.

Lupércio fez lembrar que Larica havia estado de visitas na casa do amigo e acabou arranhando a blusa nova dele.

“E ela está contigo”.  “Ela?” “É”. “Ela quem?” “A Larica, homem de deuses!” “A que parou com a Mari Juana?” “Sim. Não é sua esposa?” “Não, ela é empresária” “Não diga, e o que ela faz, a gata?”

“Anda arranhando por aí.” “Sozinha?” (Ele vibrou).

“Não sei, a Bane, sabe como ela é…” “Um pouco esquecida.” “Doze juntos” “Cortei o 12”

“Verdade, cortou”.

A lua cresceu o sol mastigou a gritaria e empinou no céu a primeira nuvem.

“Tchau então Lupércio”

Avoado saiu aquela asa do sovaco interno: “É”.

Esquecido, pensava que estava em Antes Livre. Não lembrava o nome do ex-amante de sua ex.

Às Sete

A escola ganhou carne, não havendo geladeira, acabou por jogar o sangue nas valetas, as rãs receberam uma enxurrada e deixaram os rios e vieram para a cidade em busca de um reservatório limpo, infelizmente os animais das fazendas que buscaram beber águas estancadas acabaram bebendo sangue coagulado e ficaram doentes, os bichos morreram. Mas devido ao interesse de lucro, vendeu-se  mesmo doentes em todas as carniceiras da região. 

Surgiu feridas no corpo de toda a população carnívora, e, claro, com a impossibilidade de banho, morte de rãs, falta de higiene, carne podre na escola, veio a infestação com piolhos. Não havendo mais rãs, grassou terrivelmente gafanhotos que destruíram todas as plantações.

Com o falimento da comunidade, e de todas as terras, soçobrou pedras sobre pedras. Houve um desespero geral entre fome e sede, falta de dinheiro, negócios, e por muito tempo a escola ficou fechada e uma descrença imensa nos seres humanos cresceu.

Sofrimento, êxodo em meio  à ignorância e falta completa de fé. 

Guerra por fim, tragédia. Deu-se eclipse completo, com a falta de aula de astronomia, acreditavam que os deuses  exterminariam a humanidade se não reagissem através da mortificação. E se feriam uns aos outros. Muitos morriam por exagerar na punição.

Vendo que os mais velhos, os primeiros batiam com mais força pensaram que os céus teriam feito deles os escolhidos para a próxima geração. A autopunição, bem como as brigas de faca mostravam a destreza dos mais fortes. Imaginaram que os deuses queriam um torneio.

Treinaram então, de cada comunidade e em cada territórios os futuros competidores.

E o treino exigia impiedade, seja com que fosse a luta, pai, mãe, irmandade eles estocavam com força até a morte.

Perceberam que nem sempre os fortes venciam. Que havia em cada um uma marca. Era como se fossem os escolhidos. Fizeram uma trégua.

E resolveram sacrificar os bons, os melhores seja por força ou por esperteza.

Os deuses queriam o sacrifício.

Mataram, cortaram as cabeças e as penduraram em lugar alto.

Pouco o que comer.

Os conflitos continuaram, um pouco menos.

Pediam aos deuses piedade, proteção. Marcaram o tércio.

Eram três dias de total quietude. Ninguém falava, ninguém comia ou bebia.

As crianças morriam sufocadas e famintas.

No terceiro dia o sol surgiu novamente. Os terceiros, os últimos, os fracos filhos de cada nação que haviam sobrevivido se apresentaram.

Os menos prudentes, os menos preparados, os mais absurdos e fora de questão, lunáticos, doentes, feridos, deficientes, os que falavam coisas que ninguém entendia eram mortos e devorados.

Então se esperava que houvesse algum entre eles que não prestasse a atenção. Um só que tivesse alguma fala absurda, que rissem, que não estivesse concentrado, que chorasse.

E quando se manifestavam, as tribos cortavam no meio e compartiam em pedaços.

As crianças que tinham esse comportamento eram poupadas por serem crianças. Porém tinham um lugar onde ficavam. Passavam a maior parte brincando e viajando na maionese – que aliás odiavam -, surfando no patê – que para eles parecia mais vômito enlatado -, patinando na manteiga, – que para eles era escarro com gordura.

E eram cuidadas, controladas dia e noite. Se uma entre elas se destacasse entre os demais, o guardião teria o direito de lhe dar uma flechada zero no coração.

As outras crianças, quando isso acontecia, riam muito, e sem dar tempo de qualquer fuga elas pulavam em cima. Arrancavam os olhos e o coração e comia na frente da grande lousa da energia sagrada.

O regulamento das tribos de cobrir e de silêncio dizia:

Quem for completamente desatencioso e virado a breca.

Sem começo e sem fim.

Sem motivos.

Feitos de desprezo completo de tudo.

E de terem alegria absurda sem obedecer a hora do silêncio.

Quem não sentar e calar.

Os que não puderem tomar distância.

Esses não entendem dos deveres.

A moleza era punida.

O choro, punido.

A resposta, punida.

Desobediência, punida e punida.

A fome, punida.

A postura, punida.

Desejos, punidos.

Ir ao banheiro era duplamente punido, punido.

Os pais eram punidos.

Eles retrataram a realidade.

Experimentaram desde a morte dos primeiros lugares, os agressivos, os competitivos, os competentes, os espertos e ligeiros, e, mais que tudo, herdeiros.

E foram buscar caminhos para que, ao invés de sangue pudessem melhorar as relações entre as turmas.

Chega de deuses.

Puniram os deuses.

O mito acabava, os deuses descansavam.

E os abrigos não tinham mais o que fazer com os controladores.

O mundo não tinha mais esperanças, não necessitava mais de sacrifícios. 

O retiro das crianças terminou porque uma arqueologia do passado trouxe a escola novamente ao corpo do povos.

Vamos treinar.

Treinar e treinar eram as palavras descobertas.

Acreditavam piamente que o mercado de carne humana reagiria se tivessem melhores lutadores.

Teriam tempo para melhorar o capital rotativo. 

Os que morressem na batalha seriam imediatamente substituídos.

Para isso um único investimento: escola.

E já que todos tinham filhos de segunda mão, não mais os primeiros. Sabiam que os segundos não eram muito de escola e os últimos, menos ainda. 

Ganhos futuros era o nome básico, o primário do conhecimento.

Mudaram os caminhos.

Vamos deixar que a seleção natural promova.

Era o mercado de ações ganhas antecipadamente.

A escola significa juntar uma coisa com outra, colar uma forma em uma fórmula, cortar caminho, e se adiantar. Fazer um rabicho, aumentar, acrescentar, esticar, expandir, crescer, desenvolver, ampliar, aprender, conhecer mais, inovar, e, por fim, bem longe de copiar, criar.

Mas. Mas, mas, mas. Enfim. Mas, mas.

Os pais voltaram para a escuridão hierárquica de onde surgiram, então, os últimos serão os primeiros em nunca chegarem lá.  

Assim surgiram outras paixões, modos diferentes de rir, chorar, vestir, cantar, tocar um instrumento. A vida criativa os faziam sempre renovados, impulsionados por um momento único, a própria existência.

Mas nunca deixaram de olhar com interesse um erro, um vacilo, qualquer coisa que não fosse matematicamente válido.

Estratégia de sobrevivência, fingir calma e bondade.

Era tudo distante, longe e distante e longe era tudo.

Os governos deixaram de investir na educação, ao menos deixaram de confundir prédios com educação. De treinar pessoas como se fossem educadores. A educação era outra coisa, aliás, segundo os terceiros, não era coisa alguma. De fato, não era coisa. Mas alguma forma de compartilhar. 

Por isso ler era divertido. Deixou de ser obrigação, dever. Matemática era uma filosofia aplicada ao nível da abstração, e nela havia algo a mais. 

O sentimento, um bem estar, alegria de ser tanto quanto um poema, uma fórmula que qualquer criança poderia entender que se fazia para o bem. 

Por fim, houve um tempo final. Uma mulher traiu o seu amado, quando o amado traia a sua amada mulher. Ms por vingança construíram cruzes e penduraram os filhos.

Todos acharam isso legal. Até mesmo o chefe da tribo lavou as mãos e o sovaco na frente de todos, dando a entender que era uma questão de eugenia, melhor dizendo, de higiene.

As raças não podiam se misturar, as pessoas teriam que cumprir os ditames da lei e continuarem juntas e felizes para sempre.

E deliberou-se, a mando de um antigo burocrata o sacrifício dos misturados, dos mestiços.

Levados à morte.

Era um jeito eficaz de dizer quem eram os bons e que não eram.

Dava certo. Esse é daquele país, o outro de outro. Dessa tribo, e de outra.

Um sujeito crucificado gritou antes de morrer: pensar o bem, falar o bem e fazer o bem.

Ele, um mestiço, apontaram.

Blasfêmia, gritaram.

Mas, vê que coisa, desde a sua morte, e em busca de retornarem a um tempo em que esse cara brincava, muita gente escreveu sobre ele. Por que foram estranhas aquelas palavras.

Um novo tércio?

Aqui fofoca caminhou desertos, mares, montanhas, e outros lugares jamais vistos.

Tentaram entender o que pensar, falar e fazer ou era o contrário?

Qual bem? Um carro, uma moto, uma roupa de Zarathustra?

Não deu outra. Rapidamente a escola exigiu que todos falassem aquelas palavras sem-sentido antes de começar o treino educativo. Era diferente, um tanto.

Todos juntos:

Bem pensar,

Falar bem pensado

Pensado o bem

Fazer o falado

E juntos diziam: Ao bem!

E imaginavam castelos de ouro, e a natureza inteira sob controle.

E como acontecia de vez em quando organizaram tribos de palavras:

Os bem por bem

O pensados do pensar

O falado feito

Fazer o pensar

Falar pensante

E os universais do super-bem falado e pensado

Essas eram as mais conhecidas, mas haviam outras e outras e mais outras.

As palavras cresceram, deram cria:

Base final, vieram as novas sete pragas que enfileiraram os homens nos uniformes de suas mesmices. Para perderem a consciência de existência festiva marcharam em um tempo que lhes daria resultado, a garantia de comida.

Pensar, descobrir um jeito de passar a perna adiante

Falar o que as pessoas querem ouvir escondendo o sentido e significado

Fazer, pegar para si o que é dos outros e compartilhar o alimento como um ritual de vantagens ganhas sabendo, frente a todos quem distribui o bem

Bem, a meta única e final.

Para identificar quem eram Pessoas de Bem, foi fácil, chamaram um design e cobriram os corpos dos Abençoados, os que estavam cheios de bens.

Era o meio mais fácil de alimentar os demais sem que ninguém ficasse chateado.

Roupas, coisas, trecos,  insígnias e brasões, bandeiras de seus bandos melhor mostravam quem eram os Abençoados.

Os espertos e os temerários.

Graças à escola eles possuíam aquela cara passada, concentrada e atenciosa, tinham o corpo parafusado nos seus interesses e vantagens.

Assim, sabia-se que aqueles de um lado eram de um continente, e outros de outro, e dentro dos continentes cada gente de um território, e de cada território cada qual em sua geografia, e comunidades, grupos, turmas, até a individualidade totalmente repartida.

No entanto, havia a comunidade das Pessoas de Bens, as que tinham para si toda liberdade, toda igualdade de bens gerais e eram entrei si, fraternos como irmãos do bem.

Nesse tempo, os negócios prosperavam, e então, para que ficasse mais forte ainda, qualquer pessoa tinha o mesmo jeito.

Andavam parecidos, falavam choramingando quando tratavam com pessoas das quais tinham interesse, ou olhavam para uma paisagem quando encarava os olhos uma das outras.

Desfilavam, jamais andavam.

Era a igualdade, a imitação quase perfeita de gente de bem.

Quanto mais conseguiam fazer favores, mais vantagens recebiam.

Cargos, cargos em comissão – antecipadamente avaliada e controlada -, era o único jeito de pessoas sem bens tornarem-se do bem.

Ela é do bem.

Era diferentes, na função, mas eram homogêneos no interesse.

Dava a maior pauleira, às vezes um e outro cupincha caía.

Outros meganhas se entortavam e morriam por suicídio direto de terceiro.

Sempre havia um Terceiro.

Nenhum contrato podia ser validado sem a assinatura do Terceiro.

 Dentro e fora pensavam como todos: iniciar, lutar, guerrear, brigar, terminar, eliminar.

 E retornando aos tempos mais antigos, os pais acabaram sacrificando seus próprios filhos como causa de todos aqueles acontecimentos.

A fé Universal veio.

Os universais criaram a Universidade para acalmar os espertos:

– Podiam tornarem-se ajudantes qualificados de pessoas de bens.

– Podiam explorar os que não tinham bem algum a pensar e falar.

– Podiam falar o quanto quisessem sem serem admoestados.

– Podiam fazer qualquer coisa conquanto realizasse um bem.

– Podiam isso e aquilo para o pensar, falar e fazer para as pessoas de bem.

E continuaram a beneficiar, isso é fazer o bem sem pensar:

Esconderam os rios sujos de sangue.

Cavaram e filtraram e pegaram água a um preço que favorecia o bem de todos.

Aliás o bem de todos era a praça, a rua, mas como ninguém sabia muito bem quem passava, então cobravam pedágio para ajudar o bem de todos a continuar bem de todos e nunca bem de qualquer um.

Mas um dia descobriram que encheram o mundo de caixas. Eles que haviam cortado os filhos da luz, do Sol e se fizeram promessa.

Prometeu, tem de cumprir.

Em cada uma delas um diabo vivia. Era o dia cortado, Dia de corte Abolo aquela bola de fogo, o sol que não entrava mais por fresta alguma.

Estavam todos presos em suas caixas de sete lados: em cima, embaixo, de frente, de trás, de um lado direito e de outro lado esquerdo, e em si mesmos.

O cubo mais o bicho dentro:  O Seis lunar mais um da terra seca, do deserto, o Sete.

Eram esses caixotes, lugares povoados. Buracos que chamavam sobras dos bens.

Sobrados, apartamentos porque era proibido casa – de juntar, de casar e ter filhos, quintal e jardim (muito caro).

Era proibido porque era dispendioso, e muita gente queria um lugar no mundo do bem.

Mais adiante, o bem era tanto, mas tanto que ninguém mais queria bem algum.

Então a lua, a gata, desceu do céu.

Agarrou o seu único bem, o demônio, o Sete que vivia entre tantos bens.

E o devorou com todo amor e paixão.

Desse em dia em diante o gato, Lua, teve sete faces, sete caras.

As Sete Vidas que deram ao gato garras e flexibilidade, olhos rápidos.

E uma corda imensa surgiu no horizonte feita do mais profundo roxo de sangue transformado:

E todos os dias, a humanidade via o sinal e lembrava:

Pensar o bem, falar o bem e fazer o bem.

Preguiça

Outra vez a porta rangeu, pude ouvir da sala o que se dava na cozinha ao mesmo tempo revirava-me com aquelas frases:

“Os sonhos morrem amanhã” e respondi para a surda televisão “quem tem boca vai a Roma” e ao fluxo acudindo, um tanto inexperiente com essa vergonhosa máquina de publicidade, estúpida e de linguagem mecânica, sem alma e vazia de sentido.

É nesse momento em que me perco com Saadi, e rosas em um jardim, além disso a remexer os pés às escuras, digo que encontrei os chinelos que pertenceram ao meu avô, perdia-me nesse vai e vem com a flanela e graxa.

A noção dos tempos quando os polia em fins de semana tediosos, e, graças ao astuto dedão, os alcancei e os pus – o único par em sua duplicidade singular cujo sentido se perde no significado da pretensão de partir.

Disse-lhes: levam-me -, e elevei-me, ao solavanco devido a sorte de possuir o sofá antigo. Tem-se ao menos a vantagem da ergometria -, e a empunhar a bengala com aquele robusto encrostado de uma onça de prata, pronta a atacar.

E o que descobri faz poucos meses. Foi que a cabeça, muito bem feita aliás, é dobrável e esconde um isqueiro o do tipo lamparina.

E eu, eusinho, eu me levantei dessa forma. Fui amarrando o trágico cordão do albornoz – um roupão leve e quente com bolsos adequados onde guardo o cachimbo e aquelas cigarrilhas. Aquelas doçuras de fumo amarelado com ervas perfumadas, canela raspada que Clara enrola no lado inverso do marfim da caixa de fumo.

E, sabe-se bem, bem mesmo, que os filo. Ela sabe que vou arrastando alguns, na verdade aos punhados e os ponho como tesouro enterrado aos fundos do segundo bolso interno.

E posso dessa maneira chapinhar ao meu modo equilibrado de três pernas. Vou por aí, a conhecer afinal, que diabos se dá nessa casa. Segui nesse dia, entre apalpadelas cruzadas de um lado a outro da sala descoberta. Sei que um dia explico porque retirei o telhado da sala. Mas não dá, não tem jeito de abandonar o céu la fora. Já me disseram sobre Gulistão que alguém comeu nos dentes da leitura. Por causa da lua magra, da estrela dormida, de tudo que brilha, da manhã.

Mantendo-me ereto como um canivete corneta de cabo fino, nem nada demais, ele salta do bolso quando vou ao jardim depois da meia noite. Ia né, ia lá. De quando em quando. Ao me sentar no banco do caramanchão de Alá, arrasto a lâmina na pele da laranja. Descasco a pôr a volta ao mundo, rompendo o desenho da Via Láctea de casca dourada, penduro no arame de secar.

E a deixar ao vento para perfumar a minha ausência, um canivete que sai do bolso interno do colete em outros dias e mais noites incansáveis de estrelas na lâmina refletida. Tudo isso, sim senhor.

Digo que naquele momento, apenas para a função de equilíbrio e calma que deve ter quem possui um desses. Aço de primeira, o tipo clássico. É certo para quem descansa sob as bagagens do tempo.

Coisa fina, quase transparente com dois cravos e uma pequena alça de aço coberta. Nas duas faces em osso polido, a lâmina forjada na temperatura da verdade, adocicada por quem conhece. Perfeito, dobra bem.

Jamais tive necessidade de afiar na raspa da pedra ou raspar de riscar. Enfim, ele, sem porquês,  enlaçado a todos esses acontecimentos. Brilha em mim essa alma.

Lembro que cheguei na marcha lenta e a vi focinhando o lixo orgânico outra vez. Que preguiça!

Hora de ir para fora, e, para isso levar aquele pedaço de maçã enfiada no bolso, mas antes mexer na antena do roteador porque a coisa só anda se a estação conectar. É algo simplesmente. 

Mas é insuportável esse treco queimando cheio de barulhos irritantes. Como que pode alguém mexer naquilo. Que é isso? Diz de lá: É teclado.

E distante ouço. Feito instrumento de desafinar a alma de um sapo, e feito para pessoas sem piedade feito por impiedosos. Mas a sorte de ter uma bancada facilita esse processo de aporrinhação aos distantes e em distâncias. Melhor escrever, a cravar nada, amenamente para jogar ao ilusório às ilusões que realizo. E recomeça aquele trincar de ar.

O uso da ineficácia tem a besta competência de ser atividade e objetivo. Coisa mais burra construir sentidos. As panelas novas amassam, os dias longos são pouco demorados, ao empacar se põe na estupidez o arreio que a escola engraxa na botina didática.

Se diz, oi, tudo bem, e daí, o que vai fazer, que é o máximo da literatura da existência em sua prática fenomenal de conversar com o umbigo pedindo clemência ao outro que não se lhe ouve porque em dueto respondem em mesmas perguntas a indiferença de existirem.

É um desfiladeiro de nós. Corda enlaçada, amarração, despacho do mau uso. E sabe-se que nós é essa corda que une em um mesmo e latejante e pungente e sacana acordoamento de coração intangível. Aonde vão as palavras que não demoram em sentidos? Retém-se a um aceno de adeus. 

Como posso dizer: não vou ao quintal sem ao menos a merenda do jeito ceia. Não, e está acabado. 

Clara chega com o sol brotando dos pinheiros, atravessando com suas lâminas toda sombra, enfurecendo o ipê amarelo. A manhã de uma noite interminável torna-se clara. 

Entra na cozinha e dá um suspiro e depois começa o esporte de quebrar pratos, derrubar tigelas e lavar e varrer lavando e mexendo até se ouvir o estrondo fulgurante da porta rangedora. E a bater com os panos em tudo, e o desperto apito da leiteira que bordeja o leite, e aquele gosto de café que entra no ar e a fumaça que faz quando acende o vaso. Eu acendo vasos faz bom tempo, meu avô já o fazia. 

Põe a panela sobre o vaso de cerâmica e ceva um mate ou mesmo faz o café e aproveita para tirar as cascas secas e garantir o fogo da luminescência iluminada. 

Seu Nilo, seu Nilo. Soa senil, senil.

E se limpou os livros que trouxe da caixa. Era antiga; ficou contemporânea. Vou aonde interessa seguir os que tentam partir. Onde se beija o poste por crer ser o braço da luz. Esse pequeno baú de portas cegas e sem chave.

Marceneiro de encaixes e de tormentas, o tipo de sujeito de ofício demorado, custoso, vê-se nas reentrâncias a textura cuidada do acabamento. Sabe, taxas escondidas.

Havia nela algum tipo de cavilha que retirada por algum desajustado fez surgir aquele buraco que a atravessa. Passo por ali aquele magnífico ébano de bengala de serrilhas desgastada. Não fere os volumes, desce quase ao solo porque ponta as rodas que pude encaixar perfeitamente, – eram do carrinho de bebê de eixo retorcido -, os autores ficam dentro onde Pandora pôs o sétimo.

Enfio a alça da garrafa térmica, ela tem aquela coisa de lata imitando tecido axadrezado de tons vermelhos, azulados com aqueles traços finos que bloqueia o olhar e possui ainda a tampa de porcelana.

Meu pai que esteja jogando sinuca onde quer que esteja, e se diz: você é um velho, um velho, velho, ninguém escreve em parcimônia, economiza rapidez para nos enfiar em labirintos, isso é um saco.

O manacá há de florir, a aleluia também.

O caminho até o bosque onde posso esticar os costados no colchonete e ver um pedaço da lua faz demora do caminhar de cinqüenta e cinco passos e meio. Ao dia se ajunta algumas horas, úteis, de fato, e é isso que interessa. 

Faço a barba antes que ela grite. Mas já sei, sei tudo nessa minha idade, sei que Joelma está subindo no pé de jabuticaba. 

Ela não cai? Acho que ela vai cair. Senil!

É só pôr fruta no chão que desce. Soa estranho. Clara ri a dizer: O senhor é muito engraçado.

Às vezes se sacode lembrando trejeitos de Suzana. É uma ameaça, aponta os dedos e acompanha a mão. Ela vai dar aula ou está diante de um tribunal. Isto parece absolutamente. 

A preguiça cem-mil; ou sem nilo.

-Sal linho! Solinge!

Dá uma preguiça desgraçada responder.

http://cronicadaarte.blogspot.com.br
http://pedromoreiracuradoria.blogspot.com.br
http://abobledios.blogspot.com.br
http://cronicadacasa.blogspot.com.br
http://escrevoagora.blogspot.com.br
http://casasdoopedromoreira.blogspot.com.br
http://propedromoreira.blogspot.com.br

Claudinei e a “metidez”

Claudinei podia estar brincando de explodir o mundo. Até podia pensar coisas que são coisas impensáveis, como por exemplo, acreditar na luxúria ou ser hipérbolo, o tipo de sujeito que dorme na igreja. Ele só queria entrar naquela caixa, pentear o cabelo e subir de uma vez por todas.

Uma casa arejada na pilha de gato, uns sobre outros escondidos em cartórios, em um faz que vai de tribunais no labirinto de vantagens recompensadas por coisas e mais coisas. Ele, um milionário de camiseta heringsó se declarava no sapato feito à mão e meias macias. Aliás, as meais de Claudinei eram macias.

Plano de detalhe de meias stretches, outras para jogging, para um passeio, para o trabalho, e aquela meia feminina com a qual se apaixonou.

Era pequeno, meio alto na pose, e baixo no riso irrisório. Cínico e ridículo com palavras empoadas que o hábito de nada-a-fazer o levava a girar páginas eletrônicas de sua biblioteca portátil. Sentar para ler e anotar em fichas de leitura minúsculas sua obsessão.

Claudinei se prepara para dizer algo, todos aguardam:

– Absolutamente.

Alívio geral.

Alguns o apelidam de “C”, acham-no o cara.

Enquanto os mais famosos ladrões eleitos pela plebe fazia jardinetes para ganhar mais uma propriedade, Clau, como o chamavam mantinha-se na única intenção: vencer causas e causos.

Em meio à situação, aparece um jardim pequeno com flores raras, algum tipo político de fraque e cartola com uma pá prateada sorri.

Uma voz distante: Isso custou um milhão de dólares. Apenas.

“C” assina algo em uma prancheta enquanto vê aquele grupo em meio ao jardinete que é escondido com a passagem de carros, ônibus.

“C” olha para a moça à sua frente, ela, atenta para qualquer um de seus imprevisíveis movimentos. 

“C” olha para as meias dela, e volta-se sobre si mesmo e continua a caminhar.

A única vez que derrapou foi quando viu aquela micro-fibra carmim saltar aos olhos quando conheceu Eveline.

Ele imagina. Uma imagem recortada mostra uma mulher a se vestir. A única parte clara e brilhante é a meia vermelha.

Vários tipos de mais surgem em cascata.

Meia de cano baixo, 5/8, 3/4, curta, meio cano, meia esportiva, usual, clássica, peluda, de dançarina, sapatilha, meia de fantasia, de alta compressão, elástica, langerie, sarja, algodão rebatido, em fibra, de alça, com pregas, dobradas, com desenhos, dupla, de tênis, meião, até de papel, de poliamida, malha, e todas com o tom bórico, aquele de fim de tarde, de sol que acaba o dia escarlate.

Estava na cara que havia algo com esse desejo que o derribava.

Alguém diz: Pequeno, Pequeno.

O Pequeno, como também o chamavam estancou os olhos por baixo. 

Dentro do tribunal, aquela tensão absurda em meio a uma quantidade também absurda de pastas, livros, documentos abertos.

Isso de ficar duro, pasmo por causa das meias da juíza quase o fêz perder a causa.

Claudinei olhava para as meias dela.

O assistente lhe chamou a atenção sobre uma testemunha. Claudinei perdeu a direção do olhar e fixou sobre verdades prontas, aquelas, aquelas empacotadas, feitas em envelope.

Venceu a causa porque deixou de enfiar a cara na meia da juíza.

– Pequeno, como foi?

Claudinei parecia desamparado:

– Fiz a defesa praticamente em pé. E quando era obrigado sentar ficava em 3/4 com liga.

O amigo olhou ao redor procurando entende o que significava:

– Que isso quer dizer?

Rapidamente Claudinei desata:

– Grudado no almanaque.

– Pequeno, que idéia, ficou remexendo no código. Boa idéia mesmo. 

– Distribui.

O chefe da bancada de um dos escritórios pensou em silêncio, andou de um lado e outro.

Claudinei fixo à um anúncio de meias que podia adivinhar na janela do edifício em frente.

– Aquilo veste sozinho.

– Acho que tem razão Claudinei.

– É muita coisa, a gente tem que dobrar na liga, entende?

– Claro, claro, entendi sim.

– E mais a mais, sinceramente, uma soquete daquela derruba qualquer um.

– Então está certo, escolha a equipe e você dirige à distância.

– Se fosse de seda não corria fio daquele jeito.

– Muito bem. Combinado, as percentagens continuam as mesmas.

– Você acha que um pano bem colocado é o suficiente, a coisa toda tem de ter classe.

– Farei o seguinte, veste o que melhor lhe couber, eu acrescento quinze a mais se derrubar fora do prazo.

Daí nunca mais entrou num tribunal. O negócio dele era às escondidas. Sócio. Participava de uma infinidade de organizações civis. Era uma espécie de consultor, um prático que levava ao bom porto um navio de processos em tudo que era canto.

Naquela manhã, acompanhado por um grupo calafetado, entrou no Simes agarrado no computador de bolso, desses desdobráveis, daqueles que vem teclado, mouse, pads, com a única diferença que chamava de tablet, um que mandou fazer à sua media.

– Cabe como uma meia.

– Ovos mexidos?

Olhou para o grupo que se organizava para sentar.

– Sim.

– Meia dúzia?

– Meia.

Faz tempo, ninguém sabe o quê. Mas passou longos anos anotando no tablet todo o tipo de meia existente para calcanhares afoitos, para pés desejados, para corpos magníficos. Dali em diante, depois de pregar a cara na cara de bordados.

– Uma coisa que odeio é uma chaussete com marca, aquela coisa escrita, aquele emblema ridículo que tira toda a origem da beleza, e é um absurdo.

– O senhor tem razão, vamos aniquilar com o caso colocando as nossas meias à mostra, estou certa?

– Vamos pegar o caso no sapato polido.

– Professor – às vezes um e outro estagiário o chamava assim -, o que o senhor quer dizer é que devemos ir pé-ante-pé?

– Não, estou dizendo que temos que enfrentar o problema e mostrar quem somos, que temos verdade no que realizamos.

– Como então?

– Vamos de meias.

– Desviando?

– Pé de pano.

Todo mundo dizia que ele era chato, que media dos calcanhares até atrás da orelha e fazia um desdém do tipo: Esse não tem Jesus. Esse não descansa os pés. Esse não é da turma, não é do escritório.

Claudinei tinha um hábito de esteira, de caminhar, de seguir de bicicleta até a prefeitura, passar perto dos tribunais, cumprimentar os guardiões das varas mais importantes, descer perto da penitenciária, e muitas vezes perto das delegacias, dos distritos mais distantes. Fazia isso lá quando, em um dia que deveria resolver questões inquestionáveis.

Mas quando estava de bem com a vida, quando nada mais o impedia de pensar realmente na causa do bem, ele passava horas entorno das vitrinas.

Era o momento de suas risadas, de seu divertimento, algo que preenchia os pés para uma caminhada, para a pedalada.

O fato de sair a esconder o riso, e à distância, num abanar de cabeça quando começava a pedalar, virava-se e fazia aquele esgar. Boca aberta. A vitrina de meias.

Quase se debatia todo, mas olhava daquele jeito entre alegria e nojo voltando a balançar aquela careca cabeluda, aquele cérebro de castanha de nós no oceano de si mesmo, totalmente perdido e engolido pela derrota que sempre nos fazia provar. 

Desviava-se de problemas, quando uma mulher bonita o encarava escovando os cílios: Essa tem facebook.

Não punha os olhos afiados de lâminas de cristal em mulher alguma mais, não mais depois de Eveline.

Para fugir das belezes apaixonantes, de pessoas de verdades escranchadas, tocadas, de pele e osso, claro, pés magníficos que serviriam na sua meia alma. Uma alma que era meia esperando os pés certos. 

Viajava para Pontal do Paraná e se metia em alto mar, com certeza se enfiava num rancho na serra perto do Salto do Rosário ou se mandava para São Jorge d’Oeste e descia de caiaque inflável uma meia hora depois do portinho no Iguaçu. O resto dos dias mais sem porquê seguia para Dois Vizinhos ou para Nova York onde visitava alguns amigos e visitava lojas famosas de meias femininas.

– Que loucura, dizia. Meias com botões trançados eu nunca vi.

A merda toda começou naquele inverno em que as moças que gostavam de despedí-lo sorriam bestiais a imitá-lo.

Elas miravam os calcanhares, os sapatos, a presilhas, o contorno da meia, a meia propriamente.

 Era evidente que esse camarada, poucos sabiam, era um consultor internacional, um back-advogado, uma espécie de rábula que paga o sacerdócio e tem carteirinha de cretino. Para entender como é Claudinei é só fazer um traço, uma molinha, um círculo torto com depressão e, em seguida outra molinha e seguir o traço para enfim, completar a caricatura do sodomita e alagoano de Paranavaí.

– Claudinei, o Claudinei!

Pare de me enxer que sou um homem ocupado.

– O culpado, o culpado!

Que merda, falei ocupado cacete – dizia quando podia.

– Cacete, cacete.

O mais desafortunado recebia sempre palavras que não figuravam na lista do óbvio: Você é um imbróglio, um atestado de óbito mental, um parágrafo, um ato, decreto de aposentadoria.

– Meias palavras não atingem minha muralha.

Não dava outra, quem fosse, podia até ser uma coisa escarrada feita de vermes e sem vontade, uma gelatina, um cagão. Levantava-se e lhe dava uma porrada.

– Você está processado, pro-ces-sa-do.

Isso dava medo, ninguém sabe porque esse mal-estar. Ele conhecia, não a lei, coisa que nunca lhe interessou. Via a lei como uma peneira de buracos grandes. Passava pelos buracos a fechá-los.

– Não me venha com essa meia cara que sei bem o que está pensando, animal.

Jamais processou alguém, nem mesmo quando aquele idiota conhecido veio tirar as calcinhas da mulher do Luizão, dono da loja de meias, e no hotel Berlim. 

– Quer que eu lhe enfie a meia na cara?

Em outro momento, conversando com o problema:

Ela deixou, ele a quiz, respondia.

– Meias verdades.

– Mas é um caso a ser levado em consideração.

O cafageste, rico, mas cachorrão, bem, ele tem um antiquário que todo mundo sabe vende peças roubadas.

– Pelo amor dos deuses Seu Claudinei, foi tudo um engano, eu pago o que for.

– Quer que eu lhe dê meia justiça ou justiça e meia?

 – Claudinei! Não fale assim comigo, não lhe dou o direito. Ednéia tinha os seus motivos, e Luizão que choramingava disse então: aceito, pronto, acabou.

– Vendeu a liga e ficou sem meia.

– E mais a mais não se defende moralidades, honras e coisas do tipo. 

– Mas podia jogar areia no carburador, ia dar um estrago.

Processasse se houvesse porque. Não fez porque não devia e não o faria, a propósito de honra. Ela é da vara de família, mas mexe ali e aqui no administrativo e até comercial, entre ramos e sub-ramos da burocracia eletiva do direito, e do penal, nem se fale. Por isso não levou pras barras.

Mas não foi por isso, foi por ela, ele gostava dela, queria ela, ficar com ela, amava ela, e quem sabe até, apesar do cheirinho de rodoviária, ficar com ela.

Ednéia Paixão se preocupava mais em derramar a carne no tapete do que se submeter a uma vida em família tradicionalista como a do Lulu. Com mais de sete irmãos gabaritados em fazer desaparecer coelho da cartola, para não dizer enfiar a mão até virar chouriço, gostava de provocar, de causar espanto, de criar angústia em gerente de padaria.

Conversou com Ednéia e chegaram a um acordo. Ela mesma, uma doutora de altas barras públicas, ela jamais, nem que a vaca tossisse encararia um mal-entendido com sordidez. Era uma dama, de copas, mas uma dama.

– Clau, quero você lá em casa para discutirmos o ministério.

Ele foi, ela disse o que devia, ele ouviu, voltou na cara do tal e enfiou a meia, ele pagou, ele retornou, ela tirou a meia, ele desmaiou de emoção, e ele foi para casa com um retalho perfumado nos pés.

Voltar ao tribunal depois de tudo. Ter de ir porque as meias intenções seriam em par, conhecidas. Para tanto, para suportar o conforto do bem além de qualquer dúvida, vestiu a meia até meia canela para seguir com coerência. E ao seu cruel estado, à sua derrocada frente à ela, aquela que carregava o manto púrpura, na verdade o manto é preto com laços. Correria a alma por todo aquele sentimento de impossibilidade.

O caso seria levado à meia certeza, à uma meia-luz na caverna do diabo, o tribunal de Eveline.

Claudinei chorava pelos poros pensando nas meias vermelhas do tipo soquete que se encaixavam muito bem naqueles pés de anjo. Nada mais.

– Nada mais não, feitas para aquele pé. Feitas à mão. Trabalhadas com elastan e a mais fina seda carmim. Tintura especial, acho que tem coisa do Marrocos nisso.

Andou de um lado a outro frente ao edifício. Subiu as escadarias de seu cadafalso, sentou-se na cadeira de proteção do grande hall. Dirigiu-se à secretária, conversou com a agente, ela o introduziu em um vestibulo. Nesse lugar, nesse estranho espaço que dava para o recinto do juri. As portas magníficas. O meirinho passou e o cumprimentou com um gesto. Ele distante olhando o monumento da porta de alas fechadas, aquele trinco, aquele coisa toda.

O Pequeno pensava: se entrar ali saio carregado na maca.

Era assim que todos entendiam o pavor de tribunal do Clau.

– A demonia?

– Qual?

– A juíza da vara principal, aquela de vermelho.

– Qual?

– Você tem de baixar os olhos como que submetido e atacar as meias.

– A de meia vermelha?

– Ela.

– É juiza, não sabia?

– Não pode.

– Pode.

– Mas é maravilhosa, linda pra burro.

– Aquela ali casaria com aquele coiso.

– Com o Claudinei?

– Por isso que não processou.

– Imagina, aquele mirrado sem pele do lado daquela grelha.

– Não seja sanguinária, ela o deixou não, vírgula e exclamação com apóstrofe. 

– Ela nunca manchou suas meias vermelhas naquele sabugo.

– É.

Antes de tudo, ele foi direto para a banca do Grande. O Grande era um sujeito largo, nada mais.

Chegou no consultório e trouxe a defesa do advogado.

– Ele não vai?

– Tá mal, a mulher o deixou por um desses.

Levantou-se, deu dois passos. Chegou à janela pronto para se jogar, para virar e sumir.

– O assunto está aí. Apresente.

– Porra Claudinei, vou ter de ler tudo isso?

– Se quiser ganhar a causa.

– Eu não acompanhei isso, o menino está doente, o Negocinho disse que não vem tá gripado, o Clarão foi ver uns negócios com a turma, sabe. Os pequenos, esses que estão de estágio não conhecem nada. Os novos foram para a biblioteca pesquisar. O Nico, aquele nanico, saiu com a Garota para ver a entrada no cartório. Não tem ninguém.

– Você.

– Eu não li nada disso.

– Leia.

– É muito, não tenho mais prática, a questão é que sou o chefe do negócio, você é o advogado.

– Ganhará se ler. 

– Vou chamar o formando.

Formando, o nome, na verdade era Fernando. Era diplomado de última hora. E como se sabe. Os pouco que sabem sabem.

– Formando!

Mas em geral, a maioria dos formados só liam napoleões e outros cacarecos, além da lei, nada conheciam dos buracos, da peneira.

Nenhuma lei é humana porque não se reduz o homem a conceitos doutrinários como uma defeza qual seja, em síntese, discriminatória. 

– Formando do cacete!

Entrou. Um homenzarrão de dois costados com uma voz macia.

– Oi, doutor.

O homem é a ventosa no tubarão, parece mais a rua de casa cheia de buracos. 

Tem um olhar de ar-condicionado, frio, ventoso com movimento de abanador. Era tão subalterno que se necessitacem de um tapete ele se jogava ao chão.

– Formando, é o seguinte.

Claudinei ficou ouvindo todo aquele horror. A humanidade tem cara de governo, falta papel higiênico, toalha, café. 

Grandão pegou firme, continou na tentativa de fazer aquele cérebro funcionar. 

– Claudinei, esse menino é uma escultura.

Claundinei olhava de soslaio entre janela e a cara esburacada de Fernando.

O menino rio com os olhos.

– Oi Dr. Pequeno.

– Meu Deus – pensou Claudinei falando. Muitas vezes ele cochichava para si mesmo: Isso é de morte, mais vale um pão no chão do que nenhum na padaria, ninguém aguenta isso, e outras coisas como se falasse sozinho em um lugar que fosse permitido falar sozinho: O bicho gruda na obsessão; uns querem continuar colonizadores, outros escravocratas; esse tem complexo de areia de deserto; a cara muda, quieta, só muda com o vento. Coisas sem porquês: Pare de ser esquecido! Pare de constantemente. De talvez quem sabe. Meça as palavras, tem um metro ali na mesa.

Eveline o esperava. Ela o comeria vivo. Ela o derreteria no vinagre. Ela o poria pendurado no último andar e sem meias.

Era um inferno a vida do Claudinei, detestava imaginar-se em qualquer vara. Naqueles cubículos com banca alta, mesa baixa, microfone e imprecações técnicas com sinais, olhares, mexidas, risinhos escamoteados de velhos dulcinéios vendedores de coxinha na rodoviária de Curitiba.

– Claudinei, não.

– Claudinei, sim. Gran – apelido do Grandão (ninguém mais sabe o verdadeiro nome) -, olha, você mesmo disse o menino é uma estátua. O que vou fazer com ele?

– Leve de adorno.

– E depois?

– Claudinei, tá bem, vou pedir para a Marilda dar uma olhada.

A Marilda era de letras, um curso para pessoas ficarem atentas na sordidez do design das palavras e suas inflexões.

– Claudinei, responda.

– Se ela ler com acento.

No acento da sala, TV ligada, crianças brincando de qualquer coisa em si. Um dia antes de tudo, ante de entrar no buraco da onça.

– Marilda, faça ele falar.

– Fale.

– Não é por menos?

Então pegou o Formando e levou para um canto. Ela dava ação ao movimento, fazia sentido em quase tudo. Ouvia-se o estertor da estátua quando ela jogava ácido, quando punha no sal, quando queimava com suas palavras duras.

Claudinei lembrava. Ouvia Marilda amassando o pão frio.

– Fale com a boca aberta, não sabe o que é uma boca aberta, seu boca aberta?

Aquele grito da Jenifer quando o Zé do Patrocino disse que comprou aliança.

– Deus me livre, não dá.

Foi um caso, a Jenifer era uma estagiária adiantada, já muito além, apenas pagavam pouco, ela decupava todos os processos e passava para o Clau que lhe dava por baixo do pano meias e um bom dinheiro adiantado, ninguém sabia. O Zé do Patrocino era um fazendeiro que ganhou uma causa contra adubos químicos, que vinham com larvas. Casaram.

Geralmente o Claudinei montava a peça. Abertura do primeiro ato, entrada das  personagens, o que significa aquilo que devia significar – ele explicava para a anta do advogado como devia proceder no ritual maçonico a fim de ele saber como se comportar na sala do juri, cacete. E depois? Depois ele mostrava uma retórica que desafiava o Venâncio, o V nunca passou da Mônica. Aquilo fazia o V ficar vermelho como as meias da ex-mulher do Claudinei, muito conhecidas. Sabia que ela foi encontrada no Berlim só de meia?

– Uma meia só ou o par?

– Uma.

Tudo bem, isso já passou. Caso resolvido.

– Ela esteve aqui ontem, disse que quer ter contigo uma espécie de revanche.

– Sei.

Era admirável, podemos dizer, se assim o é, é. 

O problema era aquela mulher. Não conseguiria mover a língua nem que engolisse Marilda pelas pernas e ela ensinasse tudo o que deveria fazer.

Vermelha, cor do sol se pondo, cor do sol nascendo, cor da luz na noite veronese quando acontece aquele enxame de pavor na praia e todo mundo diz baixinho que o mundo vai acabar.

– Justo nesse momento! – era uma das expressões mais fortes que Claudinei usava quando a água batia na bunda. Outras dele, outras que ocorriam quando terminava a Catilinária:

Puxa, mas é tanta gente dizendo que se ouve longe. E é isso, e é alguém, para estragar os mistérios dos deuses, e para acalmar os espíritos de porcos. 

Nesse momentos ele se enfurecia e entrava em meio ao clarim:

Alguém não, o próprio lazarento do Claudinei surge.

Olha aquele puritano imbecilizado que lê livro com folha de bíblia e diz: Joel.

– Claudinei, quer levar uma pancada, não põe o meu nome no meio dessa bosta. Dr. Joel do Espirito Santo, sem mestrado.

Está na bíblia, seu cachorro, diz uma senhora da sociedade:

Joel diz:  o Sol feito sombra e a Lua vermelha que logo chegará o dia pior, do Senhor.

– É a morte Claudinei.

– Falei, tamo fodido.

Se o Clau fala é claro que é verdade, ele não perde uma na jursiprudência.

– Puta que pariu.

– Ele disse?

– Disque disse.

– Se ele disse vou sair com a Meire do Carlão.

– Tá louco, o tranca rua?

– O mundo vai acabar mesmo, que se arrebente.

Enfim, Claudinei apazígua: Hermógenes, silencio.

– Por que eu? Diz um tal Hermógenes.

– Não é com você babaca, é coisa escrita por Vespasiano ou outro mais das antigas que ele escarra de vez em quando.

– Não é.

– Foda-se, quero sair daqui, tá entendendo, pago você e os outros para sumir e não para ter que aguentar calado essa merda.

– O assunto é outro.

– E o que é então, cacete.

– No mito o encontro furtivo de apaixonados.

– Tá brincando.

– O céu feito janela de motel? Vai pro inferno.

– Cala a boca que o mundo vai acabar.

De repente alguém toma conhecimento de que se tratava o Pequeno.

– Deixa o Claudinei falar

– Fala Claudinei.

Claudinei diz de uma vez: Eclipse.

– Aquele carro japonês?

– Você tá louco? Quer ouvir o Claudinei!

– É isso, entendi: União, consórcio e comunicação.

– O Estado, o esquema e contar vantagem, em detalhes, sobre a lide.

– Cala a boca.

Na verdade Claudinei era insuportável. Ia de bicicleta para a maior banca do país.

O nome estampado e enterrado em famosos escritórios de advogados. Se não tava na sigla tava em algum lugar. Todo mundo sabe, mas ninguém diz nada.

Banca com sigla assim: CLAUROS – Claudinei, Rosinha, Orlando e Sirlei; CLAUFROMTE – Claudinei, Francisco, Roberto, Osvaldo, Maria Tessália, Elisa – LACLAU – Larissa Andressa e Claudinei, e apor aí vai. Ande pelo país e até fora – tá lá o Clau de Claudinei enfiado na sigla. Ninguém repara, mas eu sim, sei bem quem é esse. Conluio. Sujeira das mais baixas.

Claudinei saía de Vila Doriana, tambem conhecida como familiar e cheia de gordura, ia para o pacífico sul, para o nortão e para os éstetodos do país. Ele pesquisava todos os casos em todas as bancas que carregava. 

O seu Clau e fazia a prévia, a prática, a plena, e as específicas conforme o tipinho de sujeito que fosse atuar. A coisa vinha pronta, mastigada. Aí era pegar a Marilda, a de letras e enfiar na garganta de um recém qualquer coisa para dizer o que devia dizer.

– Ele vai chamar a Marilda, a louca?

– Espero que não.

– E agora, que será de nós?

– Será não, já é uma merda.

– Já imaginou a gente entrando numa biblioteca.

– Eu nem sei nem por onde começar.

Uma outra do Claudinei, essa ele usa pomposamente em público batendo um processo na quina da mesa, batia para marcar: Como é que isso aconteceu, bem no meu nariz?

Algumas pessoas acharam que, na verdade, verdadeira, claro – acharam que. Engasgaram porque eles sabiam que nada sabiam daquilo que realmente sabiam.

– Vamos acabar com essa históra, dizia Clau.

E Grandão que o conhecia muito:

– Não diga!

– Como vou encarar. É um roubo de energia elétrica durante 30 anos, e não dois.

– A tal Eva Line vai pegar.

 – Eveline, a juíza, corno.

Um dos réus se levantou estupefato:

– A Neneca! Era uma afirmação, não era pergunta alguma.

Eo Grandão:

– Ela.

– A ex do Clau.

– Nunca foi de direito, talvez de fato.

– É uma questão tipológica se somenos.

São meias atuações. Meias, entende?

– Mas a Neneca, aquela gostosona é louca!

Grandão interrompeu o réu:

– E é de bater o martelo na sua cara.

– Veja, Hotel Berlim!

– É, não dá.

– Só sei que a apoplética não suporta a réplica, mas segura a tréplica.

Mas a foto, mostra. Ela de troxinha, aquelas meias vermelhas saindo da banheira do tipo caipira no Moulin Rouge. 

– Estava completamente de meias vermelhas, uma em cada pé.

– Eu falei, eu falei.

– E o dono da fábrica agora vai pôr os empregados embora porque a patroa resolveu dar com as línguas nos dentes e contar tudo para o cão.

– Mas Eveline é uma mulher sensata.

– Essa mulher é do diabo, acabou com o Claudinei.

É um caso dúbio, família que põe a fábrica no prego por causa de uma bosta de trepada.

– Por isso não pego caso de família, esse negócio só dá enrosco. Se a Neneca tiver na mesa, tô fora.

Ela é quase uma esposa minha, eu falei o que todo mundo fala na conversa de cobertor, contei que pegava da rede direto a energia, que ninguém sabia, e que era por isso que podia comrar o que podia comprar, mas agora eu não sei o que vai ser. 

Grandão deu uma cantada, pegou o sujeitinho, o Paulo Urso para dar uma volta. O Urso contou para aquela senhora amável como ele enganava os esquemas continuando a produzir sem pagar impostos, atravessando as mercadoria em bote salva-vidas para o outro lado do Paranazão.

Grandão tentou acalmar o Urso com pouco sucesso, ele ia e vinha com aquela fúria de ex-milionário.

Marilda explicava na sala dos fundos ao Formando o que aconteceu em linhas gerais para que ele pudesse gravar: ela o enfiou na traseira do mustangue, esbarrou no shopping como quem não quer nada e repentinamente estava na berlineta, enfiada na cama, carcomida e meia vermelha.

– Quem foi o fotógrafo?

– Selfie, seu idiota.

– Quem é ele, não está no processo.

O Clau, claro, ouvindo aquilo pensou nos anos de comodities, nos esquemas dessa gente, na beleza estonteante de Ednéia, uma mulher verdadeiramente doce, e que meias! 

– Olha, ela sabia que o vampiro, esse tal era pau mandado da concorrência. Ela sabia mas gostou dele, uai. 

– Filho da puta.

– Cachorrão, ouça primeiro. 

– Urso.

– Seu Uros, . Ela ia engolir ele. Engolir-lo-ia. Ela ia engolir. Agora, que ela lho engolisse, não o fêz, o selfie caiu na mão da concorrência, e por fim ela se lascou: escândalo.

– Mas eu não estou escandalizado, a única coisa que me faz ficar puto da cara é essa situação, essas descobertas do leva-traz e tal, a passagem de um lado a outro, a mão molhada do fiscal, e o esquema no transporte para fora do país, só isso.

Claudinei pensava alto: Que desgrama faz esse pequeno insensato.

Claudinei ainda estava na porta, amortecido, o processo na mão quando entrou a escultura, Marilda, o Grandão, os difuntos réus, e, por fim, Ednéia. Ela o olhou como café doce, fumegante, olho com marcas de baton na xícara. Claudinei deu uma olhadinha sutil nas meias e apertou os dedos.

Claudinei abriu o tablete para ver a sua coleção de meias. 

Começaram a fofocar. Ele mando calar a boca sem deixar de estar entretido. Falou para a estátua, o tal Formando Fernando: tire essa cara de riso e imagine a sua mãe trepando com o verdureiro no meio da rua e sem, sem meias.

O menino ficou duro, parecia que jorraria sangue dos olhos. 

Um dia antes, depois de Claudinei voltar de Nova Iorque e vir do aeroporto até o centro de bike elétrica, o Grandão mandou:

– Vem logo que tem salto alto pisando no meu calo.

Só pode expressar: Pequeno poste mal iluminado.

Umas horas depois ele chegou no escritório.

– Solta.

– A juíza, doutora Evelise, a Neneca, veio aqui ontem com uma cara de cachorro americano cheirando tudo.

Claudinei voltou para a cidade, pegou a sua bicicleta na Vai-Motos e entrou no edifício.

Ele disse daquele modo arrogante e cusparento: Chame o elevador.

Despachada, enlouquecida por esse pequeno monstro de ninguém, a Neneca respondeu na cara: Elevador! Elevador!

Clau não cumpre brincadeira, derreteu a bicicleta no estacionamento do Velório, apelido do edifício paranavaívano.

E ela disse, disse sim: Vai apertar o botão.

Da meia, outra meia e um beijo nela, na Nene.

Ela sorriu e mostrou o fundo da meia e fez uns trejeitos à granfina, do tipo: comprei um fusca, tá na moda.

– Foi aí.

– Foi Clau.

Apertou o botão do elevador que tava contaminado. Morreu de luz elétrica.

– Morreu de Copel?

– Nem tanto,  ficou lá duro, enferrujado que nem a cara do Natalício depois da briga com o Bira.

– Foi um estrondo.

– Caiu tudo e Neneca levou o cadavérico para o hospital.

– No fusca?

– Que fusca, pegou um desse pré-moldado de qualquer etiqueta, e foi, ué.

– Morreu.

– Morreu nada, ficou comendo sopinha e dizendo aquelas coisas: orbis tal, data não sei quê. 

– Ele disse na minha cara: Vou torcer para o Realengo. Que diabo e isso?

O olhar irrisório ganha dos pedantes ilusórios. Ser monge é colocar deuses no vazio. Troca o pão sagrado por CD. Não podiam ficar juntos. Ela bonita e tudo mais, ele um frango de cravos e espinhas. Ela, da família, ele, do mundo. Ela a juíza e ele, um causístico sem causa. Ela real, ele um fantasma. Ela com suas intermináveis meias vermelhas a pino, ele um amarrotado de sapato seco.

Entrar para as alturas, cerrar as portas, uma a uma, mão na meia, olhos na cara, um gosto de mel no suporte, um não sei quê se erguendo do fogaréu de evelítico com um ar de rodoviária interestadual, odor da fórmula jasmim e pinho, presença do satanás. Mas o que acontece com esses olhos de formiga cansada de carregar folha a vida toda:  medir a vermelhinha Evelise. Fixar no doce soquete. Claudinei é tão minucioso que, com certeza viu as micro rendinhas que a juíza estagnou ali, em horas noturnas despejadas no crochê.

Ele, aquela cara de cadela, dentões para fora, muco, um olhar desmedido grudando em tudo como se fosse pasta de dente na pia depois do escarro. O pior de Claudinei é o pomo de adão, parece que engoliu uma garrafa ou tem um ente de outro planeta que está preso na garganta e empurra com cotovelo. São ventosas, com certeza.

A questão era pôr os libertos na cadeia, ou liberar a Ednéia, ou ainda, passar a empresa para os empregados. Como fazer isso? Dizia.

O réu, um da trupe dizia:

– Cara, eu vou continuar aguentando o Clau se sair dessa.

– Vai, dívida eterna.

– Pode ser vingança.

– A besta sabe demais e ninguém aguenta, Geraldo, ninguém pode aguentar com um enchedor de saco desses.

– Enche o saco de dinheiro de todas as bancas com defesa pronta e procedimentos. O que você quer, disse o Grandão, ficar livre depois da merda?

– Isso é verdade.

– Ele já saiu daquele treco?

– O obituário?

– É.

– Ele continua no hospital ainda doutor.

Neneca não sai mais do obituário, fica lá beijando, apertando a meia, erguendo, abaixando, tirando-a na frente dele.

Bonita que nem é, ele vai voltar, e enlouquecido.

Botão do Velório dando choque? Os maiores bandidos de Paranaguá estão em Paranavaí, que se acha?

E o Clau sabe e Neneca não sai da cidade. Ela tá grudada no caso.

Veio uns office aqui rapaz, e as bancadas de Niterói, outra do Mato Grosso, a gente tem que baixar os olhos senão leva tiro, entende. Olha, tem de tudo aqui nesse amontoado de doutores da lei. Ontem o Zeferino Medina chegou com aquela cara.

– Alguém peidou no tribunal.

Esse era o sinal de que a coisa ia feder para o lado  dos fortes.

– Sem o Claudinei estamos fritos e com os gases amargos do empanturrado  Zeferino.

– Por que ele não cala a boca?

– Porque ele foi no esquema do justus, entende, o saia justus, aquele. E o cartório tá com assinatura até o teto, entendeu? 

– Claudinei com Neneca, o mundo tá arrumado.

– Gente, vamos ver por onde começar.

– O Bastião Rosa foi contratado para esfaquear qualquer um que chegue perto do Clau.

– Aí a dúvida: manter o chato ou se livrar da putaria?

– Aí que tá.

A verdade de Claudinei e Neneca é fazer de conta que estão destrancados. Mas Oxum não gosta disso não. E é claro que é chave de cadeia.

– Perdeu a Neneca ou ganhou?

– Olha, noves fora, ele anda faturando.

– Neneca e Clau é um caso perfeito.

– Será que enganou todo mundo?

– A Nene tava com ele! Vigi.

– Tava.

– Esses assuntos escorriam feito catarro em elevador de justiça federal, parecia mais uma lazanha de fezes que servem no intervalo. Não se pode falar nada, nem conluio – Jesus meu, vosso também.

– Também.

– É amém, seu idiota.

A Escultura, o Formando Fernando ficava pálido, cinza, esmaltado.

A verdade de Claudinei e Neneca é fazer de conta que estão destrancados. Mas Oxum não gosta disso não. E é claro que é chave de cadeia.

– Perdeu a Neneca ou ganhou?

– Olha, noves fora, ele anda faturando.

– Neneca e Clau é um caso perfeito.

– Será que enganou todo mundo?

– A Nene tava com ele! Vigi.

– Tava.

– Leva os processos para lá, faz sopa de letrinhas e manda a Marilda enfiar nele.

– No Formando?

– No Pequeno.

– Você é louco, sabem quem é o Bastião Rosa? Você não tem idéia.

– E sabe quem é a Neneca?

– De uma e duas, ficamos ricos e suportamos ametidez.

No hospital, Neneca começa a tirar as meias. Aquelas vermelhas.

A verdade custe o que custar

Fico muito grato com o convite, e quero dizer hoje para todos vocês o que não posso dizer. É uma tortura que compõem essas palavras tripartidas como fosse, para o agrado ao erro, um caduco proferir. Há em mim uma crença de descrente que a escola, a universidade, o ensino em sua totalização educativa revelada nas ciências da Educação seja uma tecnologia. Uma estrutura tecnificada, pensada tecnicamente como um método bastante e suficiente, e em uma suficiência tal que alcançaria a todos de uma só vez em sua aplicabilidade da qual o humano, como ente secundário do processo – já finalizado em conceitos – esteja de alguma forma acoplado.

Sinceramente, ao bem da verdade, e que assim o seja, o irrefutável só podendo ser com a lógica, a que a linguagem produz, e, não havendo outro caminho, chegamos ao início, no momento de utiliza-la, e ao fim antecipadamente previsto. E se nos põe um preço. O mais comum com o infernal abstrato, do número que insiste ter algum significado, em ter algum sentido, mas não passa de um amontoado de quantidade em que, por fim e de início – já antes esplanado -, se diz resultar.

Resultado sem resposta, sem a mínima revolta, sem outra coisa de sujeição ao abstrato. A verdade verdadeira dança. Assim, que a dúvida, que se nos dá a incerteza é ao menos a categoria que prevista, remonta a um esquema elucubrado dessa logicidade em que os parâmetros morrem nela mesma e renascem como que nada. A incerteza da verdade em sua reviravolta, quando se debate, e quer que se diga, verdadeiramente.

Partindo de um subjetivo, e chegando nele, se pensa. A fala, a escrita, o interno do pensar em que as palavras pressionam a dar sentido aos significados tão vividos de mundo, de tantas variantes variações relacionais em que o interagir a cunha, a modela. O abstrato é alcançado em uma linguagem da linguagem. Há beleza nisso tudo. Só e somente quando infere-se na vida humana como que útil, enquanto que se sabe desde o início e em seu fim, de certa cognoscência humana a que se pode dizer que terá ou tem, enfim, alguma aplicabilidade por princípio.

E que se tenha a abstração desse ponto de vista tão subjetivo possa engendrar. Esse tanto que perto e presente e, ao mesmo tempo, distante e fora do caminho, a manifestar como verdade verdadeira o que se lhe condiz. O ser abstrato sem ser – sem ser nada -, funcional no tempo, vazio e cheio, invisível e presente a ser revelado na coisa, no uso. no tempo relacional e interacional que a história humana conta, como que algo extremo, fantasmagórico. É de todo teoria subjetivada e em sua abstração calculada de linguagem própria, permanece e não dura, e não permanece e é tão constante em sua linguage. É uma coisa sem sê-la sem conotar uma razão última, a denotar sim, a trasformação da aplicação. Mas não humana em que se reveste a possibilidade, como acontecimento ético, sem tornar-se por isso escolha, mas um dado. 

Parece até que o abstrato é uma opção optativa. Parte de algo existente e se reduz, aumenta em probabilidade. O abstrato é mais inovador, o subjetivo mais criativo. Penso que somos de alguma maneira, na desatenção recorrente ao que o pleonasmo indica, de uma sinceridade verdadeira. Em um acaso que findado em seu ocaso, por isso reflexivo, de um algoritmo que mostra o feito, e do feito a quantos caminhos mais. E é por isso que reduzo aqui a intenção de levar o tema adiante com todas as suas peripécias. Fujo disso.

Quero algo que se apresente de uma vez por todas como evidência de comprovação do que seja uma verdade custosa que porém se pode pagar, afinal, com a outra verdade aparente, material e, ao mesmo tempo subjetiva de valor, e, também, abstrata quanto ao seu tecido impermeável. Em tudo que se pode revestir, a revelar, e a dizer algo como: é assim que as coisas acontecem.

Essa vontade, um tanto melodramática de reduzir ao mínimo possível, que possa oferecer-se. A dizer algo como: veja, sou eu a verdade, estou aqui. 

A verdade nua. A verdade, ela mesma. Nua e crua. Está por aí, vestida em toda a sua abstração. Talvez o abstrato não revista verdade alguma, nem a desnude. É como que se alcançasse o que liga os pontos, um a um até a conformação trágica da figura. É uma imitação ou um recondiconamento do motor da linguagem, usando os significados e a cultura neles que a história produz e dar-lhes um sentido esperado, ou desesperado porque ocupa disso, desse rés do chão do que se expressa a indicar das estéticas o aparvalhado significado carregado à coisa, e a se dizer, esse amontoado mecânico, essas co-relações fragmentadas, como punição à palavra. E se pode dizer, para chatear de vez o abstrato: eu bem que nada deveria ter dito. Mas em solilóquio, não, no subjetivo mais densificado. Mas, se sabe que o abstrato reprodutor dilacera a carne das palavras, disforma, conforma.

Entrópico, Entalpico, realiza ao bem fazer, o tropismo que vai feito foice a rasgar a carne do caminho em uma totalidade humana que quer reduzir e reduz, faz minguar arrestar o significado. Que pudesse se dar em exemplo, e que não nos custasse os olhos da cara. E que, por assim dizer, solucionasse o que poderia dizer, seja, enfim, verdade.

Hoje, se pode dizer, o pássaro imita o avião. O intestino do abstrato, aquele tubo neural faz a produção das tralhas: ah! – diz o subjetivo -, se existisse uma coisa assim! Pronto, acabou, lá se vai ao tempo de construir a fórmula, encontrar medidas, realizar cálculos e produzir o pensado. 

O existir de descartianos tantas vezes descartado é uma verdade sem pensamento. O que não existe realmente é a totalidade expressiva, na tentativa de minimizar o ferimento da ferida terrena da verdade verdadeira. Claro que, se pudermos ponderar à balança de uma justiça que se proponha a alcançar justiça por uma balança de medidas, materialmente não presente, que no entanto, simbólica, produziria, por assim, o desequilíbrio, e que de forma proeminente ao se mostrar em sua tortuosidade, isto é, torta, como uma madeira pensa, e pensada. Portanto, a se apresentar essa variação do que é variante – de alma humana -, de tal forma contundente que se proponha através dessa percepção, – aqui como significado e eficácia legal custeada e custodiada à tipologia -, em se apresentar ao que está de direito.

Bem, seria claro que a veracidade do que se apresenta, em sua tortura, no estado contrário do que seria previsto de normal, no evidente desequilíbrio da forma orgânica para que enfim se possa ponderar em outro prato da balança o alimento que produzirá à medida correta, a se dar o equilíbrio. Trocando em miúdos, se o dinheiro nos der as condições, o subjetivo causa isso. Ele se enfia nessa prolixidade e vai cavando novos significados quanto mais se vai ao mundo, e o mundo inteiro se joga de uma vez. E é pesado demais. O subjetivo não tem a leveza do abstrato enquanto abstrato. A verdade verdadeira se enterra quanto mais se cava.

É bastante engraçado que a doutrina que tantas vezes parece maquiar o estado, a dar-lhe outra representação psicológica do que o aparente se toma como ponto de partida, como algo verdadeiro. E, somente verdadeiro em consonância a uma legalidade prevista, porém, se nota, uma legalidade imponente que faz sua aparição fantasmagórica sob essa dúvida punitiva ou assertiva. Vem nadando, sabe lá de onde, em uma estrutura conceitualizada, isto é, represada de tantas variações a se tornar, coisa concreta em que se parte a interpretar e a confirmar, sim, e a negar, não, o que pode ser no que poderia ter sido, no que se mostra e no que é modificado com a situação dada em um ‘que se aplica’ sem muito considerar que essa conotação também é, e de todas as maneiras variantes, ao que, por evidência se implica. Vamos às moedas menores que o troco é muito.

Não se pode aplicar a tudo, de tal forma que pratos vazios em uma balança tratam de ser o equilíbrio abstrato da forma em seu conjunto. Conflitante a isso, se entende como verdade de direito o desequilíbrio, e no desequilíbrio só há justiça nos tipos que estruturam a lei, isto é a linguagem. Pode-se proclamar que a interpretação do desequilíbrio pode alcançar a verdade. A única verdade. A doutrina quer ser uma fórmula matemática, ou uma física, trocar de posição, quer virar ciência. Mas parte do conceitualizado, do aparente estruturado, doutrinário para se realizar como um valor que das medidas dadas constrói as suas. Quer produzir eficácia ou quer produzir o reprodutivo do abstrato, usando o homem como ente de direito. Quer se nomear, uma panaceia que muda de cara para dar na cara. O legislado, na ordem legislativa que se estruturou, o doutrinário que aporta como conceitual que prenha a interpretação, e a resposta julgada de uma verdade sugerida como resultado.

Mas há um modo suspeito de que o abstrato, traduzido em uma linguagem conferente se realiza, a técnica. Mas falemos disso logo mais. Enquanto isso podemos mastigar o chicletes de justiça à verdade que a cada mordida ganha outra forma, e que o maxilar das palavras cansadas, agora dispensam.

A verdade de que nem todos têm o que ponderar nos seus pratos. E que se escamoteia o interpretar em uma técnica que introjeta um processo. O método metodicamente metodolizado. Tal procedimento que é como recortar pedaços estruturados do código da linguagem para enfim promover a resposta, na luta por ela. Claro que nem todos vão entender que trato aqui da justiça da verdade, o estado real de sua dilação uma vez e porque o contraditório impõe o pensar, o torto, o incompleto.

E isso tem um custo. Custear a justiça que deseja buscar a verdade é uma técnica dispensável porque, – a bem da justiça que se faça -,  teríamos que compor dessa balança abstrata a crença do irrevogável torto, do que fica penso, de que se propõe, como em Descartes, o logo existo que é, nos fins das contas, muito caro. E a se constituir de metáfora, de uma palavra que percorre o mapa feudal, por ser tão subdividido e por ter apenas aqueles que se arroguem ou tenha habilitação para o realizar, segue em uma sinonímia infrutuosa.

Há nisso um previsível. O suserano justiceiro, constituirá por verdade, até mesmo o que por falta dela se espelha. Todos os demais dessa relação, se diz, que aos servos os direitos de servo, e ninguém mais estaria acima da lei. Tal lei impregnada, evidentemente, das verdades que a estruturam, do suseranato historicamente presente na cabeça conceitual estruturada. É uma forma, por isso formativa, formal da verdade que se quer verdadeira.

Parte-se de uma crença de que o suserano legislador se põe à mesma medida da lei que realiza. Então tal crença tem por valia a nudez que ora e outra hora no processo do desenvolvimento dessa humanidade, a um tal criador de leis tem seu prato cheio na mesma equivalência de quaquer outro, de um qualquer, de um singular presente na sociedade, a dos servos de todas as glebas, de todas as sesmarias, de todos os feudos. Dessa forma, e assim seguindo, descartaríamos essa dialética, essa hermenêutica que como mesmo se diz, desde os mistérios de Hermes se esconde à sombra do comércio das técnicas em troca de bens materiais que não se mantém intactos.

Eles, por serem objetivação do objetal, do dado presente tornam-se facilitadores de um uso objetivo. Isto quer dizer, faz do usuário o próprio instrumento que se acopla ao mecanismo criado. Tecnicamente estabilizada, lotada de processos, a fazer justiça, de verdades integradas em uma única, feita de tantas dúvidas e de tantos tortuosos pensamentos. É assim a tecnologia, consistente de pensares que se cristalizam, ao menos momentaneamente, à coisa funcional, utilitária. Mas e antes disso, o homem cheio de pensamentos que entre correspondências lógicas, estrutura processos sistematizados.

A tecnologia que usa de tantas técnicas para ser o que se apresenta. E é tão rara em sua meretíssima verdade que pode julgar as outras técnicas e dizer a elas: vocês aí, suas técnicas que falharam, vocês estão erradas.

A técnica pela técnica, aos mistérios de Hermes, não subiria uma jarda, um milímetro acima do que pisa. É o que é. E mais ainda, uma verdade que não se basta, necessita de outras, as de outrora, as presentes e as que ainda estão para nascer. Mas está prenhe de significados, no entanto, não possui em si sentido algum, necessitando do homem para integrá-la e dar a ela, uma razão qualquer no sistema. 

Hermes que nos avulta e nos avilta por três caminhos feitos em um só. A reta diretiva dos três movimentos. O que está acima está no que está embaixo, no meio caminho, em algum lugar lógico, físico-matemático de sua incerteza, de sua existência provisória. Realizar a justiça da verdade como verdade verdadeira como prova substancial na aplicação casada do abstrato ao subjetivo, apenas através da técnica que como uma doutrina, um sistema operante realiza a tecnologia.

E o que fazer, voltarmos à empiria ou ao fenômeno, ao possível de uma prática social discutível, ao conformismo resignado de que partimos da luz de Palas que esmiuça a escuridão para enfim cairmos ao baixo, à terra do comum? O que, acima de tudo é necessário, e ao abaixo de tudo, de lavrarmos o campo ingrato? E em se considerar que temos a semente que tem chances de produzir a resposta? Palavras, conjugações relacionais, as que nos levam a interagir, para confirmar ao menos suas existências. E a infundir delas todo um pensar que se torna conhecimento? Que possam, portanto verdejar ao serem expressadas, ditas, ousadas, interlocutadas, apresentadas? Onde, no mundo da técnica. A não ser que toda a lavratura desse processo não passe de tecnificação diabólica do caduceu.

Palavras. Imagina-se que ao serem reconhecidas, conectadas ao entendimento, apreendidas desde um processo gradual de aprendizado se lhes faça, a custar ao preço que se lhes dá, na ventura de um saber. O estranhamento subjetivo, em que se faz assim, como que perceptível. E se pode lhes dar sentidos. 

E é o que, ao menos por agora, ao se repetirem, – em se determinarem em sentidos -, permite que o momento, um tempo exíguo, seja tal composto, de tudo que se lhe permite caber, como se houvesse capacidade, e de estrutura tão sem tamanho, em tantas vezes feito e refeito de instantes, que aí está, disponibilizado. 

O momento como que um infinito pensado em tantos instantes que se constitui de uma vez em palavras. E se fosse assim. E se assim o fosse, o momento seria como a tecnologia. Seria apropriada, e a se dar a existência por perda simbólica, por uma economia, que por viver da falta, que sem nenhum outro custo, pudesse ser compartilhada. A se compartilhar a falta, essa economia, que se determina em um custe o que custar. E se realizaria o pensar como técnica, a linguagem como técnica. E se poderia amar tecnicamente, poderíamos, pensem, dar beijos técnicos, e tecnicamente poderíamos desobedecer aos técnicos, nos utilizando de nossas técnicas e marcando gols contrários. Ele nos substituiria facilmente por outra coisa técnica parecida a nós.

Seríamos a tecnologia integrada em tantas técnicas já prontas, e teríamos em nós nenhuma criação, sem criatividade alguma, seríamos a infelicidade humana feliz. Viveríamos de inovação. Novidade da reprodutividade, a maquiagem, conversaríamos de forma dialógica, todo o mundo ouviria a nossa voz a dizer o que se quer ouvir. E visitaríamos outros planetas, e se houvesse neles, quem quer que seja que viva lá, nós os quebrávamos ao meio produziríamos coisas para que eles seguissem como uma fé que a custa da verdade verdadeira não suportaria a subjetividade, mas viveria afogueada, felicidade constante da abstração aplicada.

É uma pena. Infelizmente, Palas, a deusa que lavra verdes verdades percorre ainda o antro humano em sua pequenez histórica, ainda tão jovem, feita de submissões de verdades construídas na formalidade simbólica em que se pensa, por se realizar muros, separações, feudos, classificações, possa se dizer que até o momento são bastantes em si mesmas.

Dirão, claro: o custo do saber transformado em conhecimento por ser amplamente reconhecido em seu compartilhamento no mundo dos que andam torto, dos que pensam é justamente o preço da verdade. A nos custar, irrevogavelmente nada mais que a mísera e esfomeada técnica que existe por futilidade facilitadora em se alcançar, e ao que não mais se enseja, todo o conjunto da balança que se julga existente na cabeça peremptória das gentes que crêem tecnicamente, na justiça dos homens, tendo às suas frentes a injustiça dos pratos vazios.

A verdade que se realiza na falta dela, verdadeiramente enquanto seja o seu contrário, seja a sua dissonância, o desequilíbrio abstrato e tão linguajeira, humanamente defectivo. A verdadeira verdadeira e um erro que faz sua aparição no cemitério das verdades por onde ainda anda perdida Palas com seu lindo bordado, a cabeça de Medusa renascida.

O que fica fora dessa discussão é a ciência que se utiliza da técnica para construir suas verdades, e a generaliza para retomá-la e a prevê-la como que informes de calendários. A dizer assim que incrementa a esses poucos reis, a sociedade vassala de pratos cheios para as gentes de pratos vazios. 

E a se achar intérprete sã do deus Hermes, usa da técnica, da fórmula, do algoritmo. A ciência banhada nas águas de Minemosine, descansa no Estige desses tempos. A ciência cristalizada, formal é como o momento feito de instantes. E ela toda feita linguagens, feita da linguagem humana a custar a vida dos homens, a eliminar a humanidade humana. Generalização da técnica, que não cabe na doutrina mas que se pretende usar delas como tecnologia de suas verdades, as que se conformam à sua funcionalidade, tão útil na manutenção de suas crenças.

A verdade disforme que anda sem caminhos porque está pensa e ninguém pode restituir-lhe à sua inteireza. É a técnica, tecnologia da reprodução em sua metodologia, desejosa de aglutinar todo o sangue histórico, cultural e social humano, pegar de uma vez todos os culpados de ousarem desobedcer à lógica dedutiva das coisas dadas, de transformá-la em lógica condutiva do porvir, de medir através de seu metro, de sua metodologia o devir. E dizer que é assim e assado, que não vale de nada os fenômenos akráticos, e nem a mais ralenta e pobre empiria, porque não vale em nada a vida humana, em nada as contradições da existência. 

E é por isso que a tecnificação do conhecimento, da universidade, de toda a Educação quer atacar a singularidade humana. Deseja muito grudá-lo ao pensamento estruturante-estruturado, tirar toda a linfa, todo o plasma sensível, qualquer estúpida lágria, espremer o ser humano e secá-lo como que pudesse dar-lhe, em nome da vazia técnica, a vida. Quando não mais que a reprodutibilidade em seu constante descarte, a técnica pluga o pensamento pensado, prensa esse pensar como que conceito.

É a estupidez inteligente em processo. O autoritarismo da forma. O conceito feito uma represa de águas a matar a maioria da vida para produzir a energia. Conceito que cerca as galinhas e se nomeia galinheiro, escraviza os eres em sua brutalidade. A ditadura do conceitual: você tem de ter competência para falar isso que está falando. A técnica como persuasão sistematizada na tecnologia a coisificar o homem.

Mas a tríade de Hermes Trimegistus ressurge. A subjetividade humana que nos presenteou a ciência, e ela, grande Palas nos oferece ao menos, a certeza gratificante do incerto. Entre o que está em cima e o que está em baixo, a incerteza do meio caminho. Keife de felicidade onde está o sujeito humano. Feita de aplicabilidade ou pragmaticidade, de técnica, de método ativo a ciencia se relaciona com o homem, a totalidade integral, a tecnologia que é tão clara por ser tão provisória é levada a caminho por quem está vivo, presente no inominável paraíso, em sua terra, no magnífico incerto.

Nós aqui, nós que somos esse laço fortificado, – materialidade plural e diversa do  nó, mesmo -, que somos presentes nesse lugar algum, no hermético absurdo de humanidade humana a se humanizar, carregamos essa vida histórica, cultural e social como princípio e fim. A Educação a promover essa totalidade de torto que somos de uma única vez feitos de verdade verdadeira.

A última doença

NOTA:
"A última doença" compõe o livro
Contos Médicos
Publicado por - Pedro Moreira Nt - Copyright,2019

No almoço, fim de semana, onde estavam todos os seus parentes perdedores e fracassados, ele listava seus feitos com um pouco de vontade de vomitar. Era aquele jeito de quem comeu a pouco e fica entre cuspir e arrotar. Porém, continha-se emético nas doces palavras a respeito da comida, do tempo, da altura da sala de jantar, a importância da tomada, e a função ranhenta de guardanapos.

Sobre comida, atuava como um recém-formado:

 – Minha mãe, não deve oferecer tanta proteína e carboidrato a meus irmãos. Eles vão acabar se empanturrando, e por fim, saiba que serei eu quem vai de cuidar dos seus males, sou eu.

A mãe não entendia nada desses palavrórios, e sorria. Ainda mais quando dizia em sua ênfaze pianística de que “vai cuidar”.

Os irmãos, apesar de sempre serem colocados como miseráveis frente à sua gloriosa carreira, gostavam de ouvi-lo.

Gostavam de sua risadinha irônica quando o desconhecimento surgia com uma interrogação sobre dor, sobre o ventre, sobre as papadas na cara, sobre orelhas com pêlos.

– A falta de claridade faz com os homens de luz abram caminho, mas nem sempre é possível garantir que serão seguidos, uma pena.

Os irmãos com aquelas carinhas orgulhosas completavam:

– É verdade. Verdade verdadeira.

É que no interior, uma afronta tão cheia de recortes, de enfeites, não é ofensa e sim brincadeira. É um divertimento, mostra de argúcia, ainda mais vinda de um médico glamuroso como parente.

Médico de roupa branca, mesmo em férias, para cima e para baixo ostentando seu uniforme de vencedor, um homem fiel na doença e na morte, uma pessoa dedicada a todos os males, a todos os furúnculos sociais onde possa transparecer sua dignidade.

Os irmãos, todos os sete, felizes em (re)apresentá-lo:

– Este é o Zé, nosso irmão, dava-se a pausa, e por fim, com olhos jogados a esbofetear quem quer que fosse, termina com uma voz lúgubre: médico.

O jeito de apresentar às vezes irritava, a impressão que dava é que estavam apresentando o dono da funerária.

– Não podia mudar o jeito de me apresentar?

– Uai, você não é médico?

Olhava a cara do mano, empalamado, aquelas olheiras fundas, o cigarrinho pendurado, o cabelo escovado parecendo ter deitado as costas no palanque e abandonado os eleitores. Coisa de dar pena.

– Sou, tá certo – terminava assim a tentativa.

Um homem simples, mesmo irmão de médico não pode excluir os demais, mesmo os ausentes. Seria uma temeridade pronunciar-se somente a si como irmão do vencedor, por isso dizia: nosso irmão.

E o Zé era deles todos. Sorria o Zé com sua alegria pensada, de racionalidade aritmética, medida por um cheque-mate difícil, um de seus jogos prediletos.

– Gosto de xadrez porque não necessito de companhia, faço as minhas jogadas, amplio meus horizontes e desenvolvo minha capacidade intelectual de atender a guerra e vencê-la quando desejar. O xadrez é um código, entendam, um código de postura para vencer.

– Oh!

– E a biblioteca? Tenho uma completa com mais de sete mil e duzentos e cinzenta e três.  Nenhum livro repetido. E, absolutamente, nenhum de vocês sabe o que é isso, tá entendendo?

Ninguém ousava perguntar: leu todos?

Estava na cara que comia palavras como traça. Bem seja que traça alguma é intelectual e muito menos da medicina.

Falar de milagres e doenças era com ele mesmo:

– A última doença que cuidei foi muito dura.

Pausava, fazia gestos, depois sustentava a respiração para dar a tudo isso um quê de ambivalência. 

– Foi, difícil. Consegui pouco.

– Coitado, diziam.

E coitado era uma das palavras que o bom Zé odiava ouvir devido a conatação etimológica.

– Mas eu não perdi tempo.

– Ele não perde tempo.

Havia um advogado no meio dos visitantes, dos que almoçavam com a família. Um querido que veio pegar uns lotes de um mau-pagador.

– E o que fêz.

– Descansei os olhos nos meus pensamentos.

– Nossa.

– Daí me arremecei.

– Meu irmão Zé não é fácil Dr. Advogado, ele é que nem pedra no estilingue.

O médico ficou a imaginar a trajetória do arremesso da pedra, ele. Daí falou:

– E quem era vivo-morto?

– A doença?

– É.

– A doença era um sujeito de barbas brancas, se é que me entendem, um tipo meio passado, estava condenado. Mas tive a surpresa.

O velhinho havia se apresentado em seu consultório.

– Foi um achado. Aquela doença era o que mais precisava.

Estava necessitando de colher dados, de pegar com as mãos algo realmente podre.

E consegui as informações sobre o processo metálico, – uma expressão ante-metástase que ocorre em pessoas idosas. E eis que me apresenta um ao pé da cova. Ele era um câncer magnífico, vivo, ali, feio. Ali na minha frente para eu ver como funcionava, e para saber detalhes; era algo muito bom, muito bom mesmo, agradeci a Deus a vinda daquela morte ainda viva. 

Tinha gente com vontade de vomitar, uns e outros disfarçavam. Mas ouviam, insistentes, em nome da ciência.

E prosseguia o Zé com aquela voz de padre com aquela roupa de pai de santo:

– E se caso conseguisse retirar aquilo dali, com permissão da família, – claro! – teria a glória no evento internacional, iam ver o que descobri, e o que poderia fazer para melhorar a vida de muita gente necessitada.

– Seria o Nobel da Paz.

– Por que da paz?

– Não sei, deu na telha.

O branco, o sapato, a meia e tudo mais no rinso.

Para garantir que poderia retirar o tumor maligno, sem necessitar de ir a hospital e jogar uma quantidade de radiação que poderia destruir o núcleo da doença, Zé contou à família o mal do velho.

Ele queria o cara para ele, queria a coisa, o sangue, a pústula, retirar aquela alma quase desencarnada do purgatório da dor para devolve-la á terra.

Os irmãos que conheciam a história contada pelo menos umas dez vezes, estavam emocionados frente aos amigos ouvintes:

– Conta Zé!

– Ele vai caprichar agora.

– Fica vendo.

A mãe sorria, distante, inabitada. As pessoas naquela festa de sofrimento não podiam mais encarar o médico.

– Contei imediatamente aos parentes o mal daquele homem.

– Contou como?

– Olhei para a cara da mulher. Ela estava tensa, duas lágrimas pareciam cair. Estava enternecida. Uma pausa, das grandes aquietou os curiosos.

Os presentes, incluindo o Dr. Advogado, por hábito da técnica, entendiam que a senhora estava de terno. Ficaram espantados, mas, se ela usa terno, que use.

– Olhei profundamente, fiz alguns rodeios e ela se precipitou a mim querendo que eu dissesse o que se passava com o marido.

– A mulher estava nervosa, lembra? Você ia contar Zé.

– Isso, não só ia como contei.

Houve um estremecimento na sala.

– A esposa do homem deve ter ficado muito mal.

– Quase morreu ali mesmo. Falei: é câncer. 

A platéia engoliu o ar.

– Ela, naturalmente teve um suspiro e despencou, aí eu a juntei com fúria e gritei: água!, – e  dei um sinal à enfermeira.

– Piscou?

– Não, só fiz um gesto leve sem pronunciar uma palavra. Rosa, acho que era esse o nome da enfermeira, entendeu, viu que estava ali a coisa do que eu tanto precisava, viu que que aquilo estaria a salvo comigo e correu pegar os papéis.

– Não trouxe água para acalmar a esposa?

– A velha estava nervosa, melhor deixar assim. As pessoas precisam superar suas angústias, senão como vão viver? Cada um no seu quadrado. 

– É mesmo.

– E eu precisava que assinasse a permissão.

– Verdade, isso é verdade.

– Então, a enfermeira trouxe os papéis, a mulher em sua comoção logo assinou e eu…

– Você fez o quê?

– Rapidamente entrei no consultório segurei o velho na boca, entortei o pescoço e ataquei o alojamento. 

– Puxa vida.

– Eu resolvi o caso com uma só tocada de bisturi.

Na verdade era estocada. Ele enfiou uma ponta e segurou no alicate a pele, deu uma 

colherada, rascou por baixo da carne sangrenta e sacou o invólucro. Com tanto florete, dava impressão que conhecia de esgrima.

– Foi sangue para tudo que é lado. Caiu até num gobelin que tinha no chão, um de camelo e deserto, novinho. Coisa delicada, linda. Feito por crianças. 

Os presentes ficaram no vácuo, olharam camelos caminhando no jardim.

– E como era a doença?

– O velho?

– Ah! Era assim – mostrava com as mãos espalmadas. Coisa grudenta, escura com o monstro dentro, uma espécie capsula com um amontoado de raízes. Era um tipo repolho de gosmento, uma Couve de Bruxelas apodrecida, um nojo.

Ninguém sabia o que era Couve de Bruxelas, mas sabiam que não iam comer nunca.

– O homem ainda viveu bastante tempo, e não sei porque vieram os filhos armados querendo saber o motivo de eu ter tirado o câncer do pai deles ali no consultório e daquele jeito. Achavam que foi culpa minha, que fui eu que piorei a vida deles, não entendem que graças ao mal que tirei, pude, não só aprender sobre a doença como cuidar de muitas doenças por aí.

Um dos irmãos socorreu: e ele ganhou prêmios, um carro de um laboratório, viajou para várias lugares.

– Viajei o mundo, viagem grátis.

– Os filhos do velho queriam matar nosso irmão Zé; ele que ainda salvou o homem da doença.

– Doença salva, e o velho durou.

– Isso é completamente. 

O advogado tinha mania de usar advérbios como substantivo em frases de efeito com ponto final.

– Extirpei o câncer do velhinho com uma  só de bisturi.

– Absolutamente!

– Foi, disse o médico.

– Não é o Geraldo, o de Barbacena?

– Não lembro o nome completo.

O médico pensou um pouco, deu uma olhada disfarçada nas anotações que correntemente trazia em uma caderneta branco-sujo. Deu uma geral e disse:

– Esse, esse mesmo!

– Queriam te matar a porrada, eu que não deixei.

– Mesmo?

– Era uma tal herança. Coisa boa, de encher o cofre.

– Sério?

O médico ficou atordoado.

– Os filhos, sabe como é, queriam, coitados, o pai no céu.

– Que gente egoísta, não sabem dividir. Pensam só neles.

Havia fumaça no ar frio, uma densa neblina enviesava os sentimentos escondidos. Naquela época as verdades dormiam no colchão dos interesses.

– E eu não cobrei nada.

#######

Conheça o autor:

Pedro Moreira Nt

https://www.livrariacultura.com.br/p/ebooks/humor-e-entretenimento/nivaldo-contos-heteronomicos-2010535101

O menino feliz

Para Pedro Felipe com seu vôo de alegria flamejante.

Ele queria ser estrela, mas vivia com a vovó que gostava do jardim e que não compreendia muito de céu.

–               Quero ser estrela!

–                É mesmo!

–                Lá no céu entre milhares de outras crianças iguais a mim.

Papai pediu que ficasse sempre perto.

–               Mas eu volto, todo dia, toda hora. 

–               E como fará isso?

–               Uma estrela que voa.

–               Com asas?

–               Estrela passarinho.

–               E super-herói.    

–                Super-herói, estrela e passarinho. Podia voar de vez em quando.

–                Só de vez em quando?

–               Quanto quiser ser pode. 

–               Posso?

–               Claro, mas tem algo que costura e tece, faz bordado e dança, canta e tem segredos, fala de mistérios e inventa que voa.

–               A vovó.

–               Bem, meu querido sabiá, você já entende e sabe voar. Obedeça quando eu chamar. 

O menino feliz sorriu porque é o melhor que meninos felizes podem fazer, e voou para o jardim, foi falar com o vovô. 

–               Por que você quer ser estrela, menino? Perguntou o vovô.

–               Para ser passarinho.

–               Passarinho?

–               Sabiá e voar.

–               Voar.

–               Serei super-herói.

–               Então vai ser se você quer.

O avô tirou a capa do armário e o vestiu de mago.

–               Quer  voar?

–               Eu quero, disse ele de asas novas, feito estrela de sorriso iluminado

A vovó costurava, sentada no banco do jardim.

Ela fez um sinal de mistério. Ele entendeu que não podia correr e gritar, pular e voar.

Era aquela cara que deixa curioso, uma cara daquelas que parece diferente de outras quando conta histórias. Seguindo o olhar da vovó ele entendeu e foi como um mago que anda sem fazer barulho.

Escondido atrás de sua capa ele se aproximou da vovó.

Então ele viu o sabiá carregando palha no bico. 

–               Ela come isso?

–               Querido, os sabiás estão construindo ninho.

–               Mas por que carrega no bico?

–               Os sabiás fazem ninho com o bico. É melhor, mais fácil de carregar, além disso o bico do sabiá ajuda a costurar.

Ele pensou: os sabiás são como a vovó, costuram no jardim.

–               Onde será que estão costurando?

A vovó, paciente, explicou que para saber deve-se ficar a ver aonde voam. 

E ficaram a ver as idas e vindas do passarinho. 

–               O ninho está no manacá.

–               Você sabia que o sabiá sabia assobiar?

O menino ria enquanto a vovó procurava o ninho.

–               Sabiá me ensina a voar.

O jardim ficou quieto. A vovó cochichou:

–               Está ouvindo algo diferente?

–               Sim, plic-plic-plic. O que é?

–               Estão costurando.

Descobriu-se no alto do pé de manacá ainda florido, o ninho do sabiá.

–               Veja, está ali onde costuram.

A vovó chegou perto. Abraçou o menino.

–               Onde?

–               Naquele galho.

Ele ficou muito empolgado e desejou ver de mais perto ainda. A vovó explicou que era muito alto, e estavam trabalhando na construção do ninho. 

–               A concentração dos sabiás no trabalho de fazer ninho costurado. 

–               Ainda mais que se espantariam, poderiam até partir, no momento que vissem um menino.

–               Por quê?

–               Os sabiás temem que sejam capturados e levados presos para uma gaiola.

–               Mas eu não vou prender, quero só ver como fazem o ninho, vó!

–               Sei disso, meu bem, acontece que faz muito tempo que as crianças, e os homens prendiam sabiás em gaiolas. 

–               Aprenderam a ter medo.

–               Sim, ensinou-se o medo. 

–               Devido a isso, não podemos nos aproximar muito, arriscamos que se mudem, que nunca mais façam ninho por aqui, que se transformem em super-heróis no planeta dos sabiás que é o manacá.

–               Bem, isso mesmo.

–               Eles têm medo das pessoas e é por isso que canta daquele jeito cansado e alegre e forte e fraquinho. 

–               É que o canto do sabiá é muito sentimental, ele canta com uma alegria tão grande, depois com aquela voz de saudades. 

O menino feliz deu aquela risada cheia de felicidades.

–               Voz de saudades não existe. Quer dizer, não existia, eu acho. 

–               A gente ouve a canção da tristeza e da alegria. quando o sabiá canta?

–               E saudades… Hein?

–               É bem assim, você falava com o papai, e ele acenou. Depois desejava vê-lo de novo, e ele não estava lá, saiu.

O menino ficou com aquela cara de mago que voa e é passarinho com jeito de estrela brilhante.

–               Cadê o papai, disse com aquela voz.

–               Veja só, essa é a voz de saudades.

O menino abriu as asas rindo.

–               Vó, não vale, você me pegou. Eu vi o papai na cozinha.

O vovô chegou, o papai também e sentaram-se os quatro no grande banco do caramanchão de Alá-manda.

Ficaram estáticos, quietos, ouvindo. Era a canção do fim de tarde.

–               E porque prendem os sabiás? 

Começou o papai:

–               Talvez por isso.

E o vovô continuou:

–               Quem sabe por aquilo.

E conversaram, e riram, tomaram café, e contaram histórias, sentados à mesa do jardim, e provaram o pão quente o leite.

Imitaram o  passarinho, e o menino, de repente, era um sabiá.

–               Sabe de uma coisa? Você é o menino sabiá, o menino que não tem medo de cantar sua alegria.

–               Eu sou assim, o papai deixou, e depois, fiquei mago, super-herói e estrela.

Deu um salto e saiu voando pelo jardim, assobiando.

E o avô o reconheceu quando passou por cima do telhado, quando desceu sobre um galho gordo do pinheiro, e, depois plantou bananeira no ar.  Foi tão incrível que todos lá de baixo não resistiram, gritaram: muito bem, e aplaudiram quando passou rasante sobre a horta.

– É um menino feliz esse meu neto.

Então, com sua risada de passarinho super-herói girou feito parafuso.

Desceu junto à mesa com sua capa de mago flamejante de vento do céu para provar o bolo, dizendo que estava cansado.

– Estava lindo o meu sabiá!

E novamente saiu voando no céu azul e dourado com sua capa de mago.

Enquanto voava, papai correu buscar o binóculos. E cada um olhava o céu imenso com aquele menino feliz com sua capa de mago flamejante de vento e de céu.

Quando a Estrela Vespertina apareceu pousou lentamente perto do manacá.

Voa de novo, disse o papai.

– Não posso, agora sou estrela.

E todos compreenderam.

#######

Publicado por

Pedro Moreira Nt

Copyright,2019by

“*******”

Leia PÃO a história de compartilhar e afetividade.

Pedro Moreira Nt -PAO

Conheça mais sobre o autor

Pedro Moreira Nt

Sua Ausência

El candidato Taquito

– Sua Ausência, ele está aí.

– O Omisso

– Não.

– Quem?

– O Taquinho do Teco.

Ele se tornou vereador quando quis atirar com um 32 enferrujado num adversário político que o candidato anterior apoiava, aí o teco explodiu acertando um taquinho no condicionado. O apelido pegou.

O desconsiderado, um dos mais destacados na invisibilidade marginal do comum ficou à primeira vista indignado, como se pudesse ficar, permanecer. Seguiu o caminho obrigatório batendo os tacos e os tarecos.

Passado um tempo ele mudou o nome no registro das coisas válidas e se tornou Taquinho do Teco, ganhou a eleição.

Vez e outra ele apresenta seus cupinchas, todos com o risinho canino – que os deuses abençam – e mostra, impune o revolvinho quebrado.

Daí todo mundo ri, acha graça de tanta estupidez e aprova as leis que beneficiam o seu bolso.

O Taquinho do Teco é um dos mais eminentes ausentes da Câmara de Bernardo Ayres um dos caudilhos valorosos que eliminou os pobres a tijolada e mandou queimar as choças dos caboclos.

Às vezes é difícil mostrar ao público internacional qual a razão de tanta valoração de salários de tais e quais que se apresentam, não só na magistratura de campo de futebol quanto a dos informes políticos da onda.

Como vamos dizer aos que querem saber sobre a vida de Taquinho do Teco, eleito magistralmente na toga dos interesses?

-Sua Ausência, Sua Ausência!

-Quem em chama?

Alguém diz nada e se ausenta.

Impossível. Podemos dizer que trocaram os anúncios de entrada da biblioteca, que a escola fechou por falta de pagamento aos zeladores, e aos do giz, e também aos que recolhem papéis para guardar na cumbuca dos papéis. É difícil.

Mais a mais, deus ajuda quem cedo Madrugada indica. Madrugada é outro que foi convencido a ganhar a eleição outra vez, em outras paragens, porque ele acordava cedo para assaltar casas de vizinhos. Foi pego. O apelido pegou, depois de um mês de cana tentando se explicar. Madrugada, eleito.

Uma das mais importantes parentes de gente de bens da cidade foi eleita para o reinado eterno do inamovível ganho extra. Ela não ia às reuniões para não ser delatada por um caso que Omisso tentou explicar, mas que, por fim, se omitiu devido a um ganho extra que surgiu repentinamente. O Taquinho do Teco fez um escândalo porque, Coitado, recebeu e ele não.

Coitado, um nome bem pronunciado entre os que amam a lealdade continua no governo, ele é líder do governo na Câmara. Chamam-no assim porque os lobistas, que desejam apoios financeiros de valor enchem-no de cartas, anúncios, e reuniões sem-fim para que ele consiga demover os parceiros, pares, a mudar uma lei, sancionar outra, ajustar um decreto para que o povo tire os olhos de outro, o coitado do Coitado recebe esses embrulhos e vai catando voto até conseguir.

Vote em Coitado. Não da outra, até mesmo quem é contra ele vota nele porque, afinal, o sujeito não faz nada, é um coitado. Votam por pena e ele devolve na pena beneficiando uns correligionários que vasculham a vida da redondeza onde está o seu canil eleitoral, – antes era trincheira, depois bairro, em seguida era piquete eleitoral ( quando foi da esquerda), conhecido como curral eleitoral. 

E sempre dizia entre amigos, inclusive amigos amigos da imprensa, antes de se tornar jornal virtual.

– Voto para mim tem de ser na amarração, no cabresto.

Um que se saiu bem como cabo eleitoral chegou a tenente eleitoral designando uma tropa imensa de coitadinhos a votar em Coitado. Venceu.

Mas o Taquinho do Teco, um dos pro-eminentes a Deputado Federal está a caminho do tapete vermelho. E se faltar quem não lhe dê atenção ele mostra o seu brinquedo.

Como diz o Omisso: O misão impossível de impedir.

Impedimento perdeu a candidatura porque foi mau juiz no jogo de futebol quando, sabe-se lá qual razão, resolveu fazer um time só de Assessores Parlamentares. Foi uma pauleira desgranhada. Saiu da vereança para tocar um bar que funciona no apito. Abre, toca o apito; fecha, toca o apito. Bar do Apito – Impedimento mudou de nome.

O Taquinho do Teco sempre passa lá apenas para averiguar se anda tudo bem, se necessita fechar a rua, abrir um estacionamento, fazer uma reforma estrutural, coisa assim. Entra brandindo o prateado e todo mundo fica calado, o Taquinho do Teco, um sujeito extremamente baixo nas coronárias sempre o visita. O motivo é que Apito – ex Impedimento -, sempre lhe apontava quem era quem e quem não era ninguém.

Amizade é para isso.

#######

Conheça Diferença

A história de encontro entre uma dama e mendiga.

Leia um pouco, começa assim: 

https://read.barnesandnoble.com/book/diferenca/diferenca#3

Jejene

Casa que o cão cuida, o ladrão entrou e jejene , antes de morrer rasgou a carne deste bandido e encheu de larvas.
Casa que o cão cuida, o ladrão entrou e jejene , antes de morrer rasgou a carne deste bandido e encheu de larvas.

O cão deu a volta. Jejene tocou a vidraça, e os olhos duvidosos de um susto antecipado, o cão seguia jejene a se debater na transparência. Atenção desejada. Raspou um ganido de dentes guardados. Abriu, a criança triste, a porta pesada vibrando a cola. Entrou atenta, despachada, seguiu Jejene até a cozinha feito da vontade. A criança manchada de luz, um cometa incansável a ouvir a melodia alada de jejeje.

Nada a desperdiçar, seguia o zumbido de jejene. A mosca bailava sobre pratos. Os olhos escondendo furtiva estratégia. Ninguém perceberia a má vontade, descaso, o gosto que não possuía. O cão desistiu da caçada. Cheiro forte de suor oleoso. Encontrou um tipo estragado dentro de casa. Jejene apresentou o pegajoso, aquela febre.

Atento ao rejeito, abaixou as patas e se afastou do demônio em busca de ar.

O estranho arrastou a garrafa térmica onde jejene pousava. Ela enterrou ovos da larva na fria pele. Ele arrastou o copo sujo e bebeu frio com olhos inclinados, ainda enguiçados. Jejene festejava a picada, os ovos de tapuru, o berne. Fugiu das palmas venenosas e se despachou à mesa. Inseto exausto no banquete.

Os dentes se puseram fora, o cão se mexeu para a caça. Antes de rasgar os veios do batente, o diabo conseguiu fechar a entrada.

Fora, o cão avisava o ladrão, esticava as orelhas, eriçava os pelos. O germe sem nenhuma verdade no corpo, era nada, sempre o mesmo, enfiando os dedos no pudim guardado, empurrava o que não brilhava, cuspia uma nódoa escura. Seguia a querer qualquer coisa.

Coçava a ferida onde viviam os ovos de jejene. A magreza da carne corrompida, a bicheira arrumava um volume, enfiava o que achava. Tinha hálito de lixo guardado.

Algo reciclável, fedendo a rótulos e plásticos de falsos tambores desafinados. Alma sem pulso. E dizia o silêncio da carne apodrecida: Vim aqui para te enganar, para te enterrar.

Era empresário de organização de governo a limitar a bondade, impedir a criatividade. Amigo de chefe. Obediente no arreio, marcada a boca no freio. Vendia miséria, repetição. Sem voz, gemia. Roubava por militância, para não perder o crime, o seu emprego.

O jeitinho do esperto, o truque, esquema, a malandragem. A fagocitose da ameba envolvendo a geladeira, as coisas, engasgando o salgado catarro de enganosas intenções com as fezes de amistosos ardis. É a trama, o tecido.

A casa aberta do mau governo. Um veio, outro, e mais aquele sem nome que deu na cica.

Gentilezas impossíveis. Desconhecidas palavras, mortas para os que não sonham.

Fogo nas cinzas da bondade, descansada voz silábica. Ele abanou o rosto manchado com a unha fina e suja do dedo mindinho. A risada sádica do invasor desejo enlouquecido de ser ferido, de sentir ao menos o amor no medo, vida dilacerada.

Antraz de pus suculento, amargo olor, doce ácido viral escorre a baba risonha de muco transparente.

Castigado, amarrado; o surrado e usado muito. Segue ao mando. Alguma carne esponjosa atrás de si. Calada miséria. Abre gavetas, levanta papéis, furta uma caneta senta à beira aquela alma sem eira.Vomita o riso encardido, balança a sobra, raspa o prato. Faz tanto carnaval jenene, morre na pata do cão machucado.

A eumida, a varejeira da cocheira. Voeja azulada, esverdeada e prata amarelada, jejene planta o verme, beija a cara do bandido.
O cão foge da carniça azeda. Vai fora, e se prepara. Entra lento e pesado.
O cão mata a bicha, rompem as asas. Acua o mau-tratado. Grunhe e ataca com os dentes de estaca. Um grito; um riso.
A casa está quieta, a larva viva permanece, tece a morte.
Ladra o cão.