Cenário

Teatro, cenas, gaga, performances, coisas assim

Menos palavras

É um conto curto de leiteiro, de retireiro em seu trabalho. Estábulo do que se chama inamovível, estável. Por ser estabelecido nas horas ocupadas.
Um final portentoso é sempre um início decoroso, carregado de sequencias. O final já se inicia na percepção do leitor, no caminho sem volta, e claro, na volta que se faz sobre sí mesmo na recomposição significativa, dos sentidos que constrói.

São sequencias que estão na pluridade das ações. Delas advém as partidas e retomadas, paradas obedientes ao animal. Se obedece até mesmo entre opções. De fazer ou de não isso e aquilo – o que está arraigado e culturalmente reconhecível – na ordenação progressiva dos acontecimentos. E são advindos ao estado interceptivo de um agora sempre possível – por causa disso, dessa memoria social que mais nos põe a caminho das permanências aconchegadas das ilusões da cultura.
Chamo o passado e ponho o nome do cavalo de Mirante.

Por isso Mirante de orelhas esticadas, de danças e vento, de esperas e seguimentos. Marchas com voláteis sonoridades. 

Menos Palavras – um conto. Curto e longo na intenção. Tem nele o memorial e o retorno. Fixado entre amanhecer e adormecer de tarde, vermelho ao fundo do insondável. Partida dos que nunca estiveram, dos que experimentaram estar – a personagem ainda incognoscível de eu mesmo, dos que lêem e do mínimo, esse quase rascunho que aponta a sua existência, sua carne e características. Ao mesmo desejo de reminiscências não encontradas a identidade aérea revela-se.

O fixo em sua imobilidade e o aparato descritivo dos processos. O que vê ao longe. Mirante de jornadas repetitivas. Retomadas de significados, reavivamento da clareza do leite, de sua espuma, da nata, e entorno, cair dentro ao entorno. Como se estivesse cumprindo uma passagem. Nem grito, nem dor, nem desamor, retomada sobre o umbral da existência.


O conto esperneia nas mãos que as palavras tecem, segue a dança do bicho, os desvios que se cumpre por nódoa. Veemente marca das ações alheias reificadas no bicho, no acaso segmentado das ordens caseiras. E se houvesse o desaviso como sinal, agenda de finalizações inconcebíveis, voltaria sobre si a ventura dos desajustes. Elas todas ordenadas das manhãs ou ao passo do abismo de sol poente.

E de início o apegado, alguém emerge e segue o fluxo externo, e interno o contrário caminho. E se pensa diferente cada qual às coisas finalizadas, como nessas estradas do leiteiro a chacolejar o tempo como que fosse o próprio animal a ruminar os espaços por onde anda, cavando a passagem, levando consigo a carga do ofício de Lazar, e de todos nós, como retireiros.

E em seu quadro estabilizado, de a surpresa descansar sobre a maestria, no domínio das voltas dadas e retomadas vai para outro lado, esse que veio, que o apego é mais exigencia que bondade, e bondade abstração no transcurso da rua, dessa via, de terrenos devorados no tempo que fazem a invisível linha cultural de randomizados procedimentos. A repetição em marcha come a passagem, o ciclo das coisas certas e ao mesmo tempo faz os traços das crenças, das devoções ao cotidiano, de linhas sem borda por onde o memorial inventa a si mesmo, de conhecimento, de liberdade atolada em sentimentos, a sua espessura. Faz assim, como se diz, a cultura.
E o que estava tão seguro nessas obrigações de cumprir dever, de não dar pano para manga, de aceitar aquela alma faz seguir o trote diário do ofício. E vai um dia embora. Vai porque se lhe define a ida como disfunção do que é proeminente, de ser devedor de bondade, de agregado. E segue o sol poente, o mesmo que esperar no caminhar, ao fim do dia, o amanhecer.

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Doença curável

Eliandro –  Sejamos relegados à doença, melhor. 

Otomilda – Não fale assim, você tem que mudar. Eu te ajudei, teu pai quando estava vivo ajudou, a gente é uma família. Você vai sair dessa, tenho certeza. Mude o seu pensamento para um pensamento militar, uniformizado, alegre, algo que dá tiros, algo que elimina a raiz do problema.

Eliandro –  É uma questão de psicologia.

Otomilda – Somos assim, fazer o quê? Nada. É só impressão. Você está de luto, querido.

Eliandro –  Psicologia da dívida.

Otomilda – Pense na psicologia da liberdade, tanto por fazer. Hein?

Eliandro –  E não à psicologia do domínio colonial.

Otomilda – Pare querido, pare. A gente ainda não foi todo explorado Eliandro. Olha o tamanho desse lugar! Ha-ha! Pense. Está no nosso sangue.

Eliandro – O DNA da miséria, da eleição do bandido, da prostituição do trabalho da carne, da estupidez conjuntural em que se escolhe ser, no grupo, individual.

Otomilda – Pois então. Não é assim. Tenha calma. Posso dizer que vai sair daqui logo.

Eliandro – As potências, os grandes estados (com letra maiúscula) possuem o direito de serem colonizadores eternos, por isso essa tecnologia de segunda ordem, da fruta mordida, do roubo.

Otomilda – Come-se o que tem; come-se a própria carne Eli.

Eliandro – Mas nunca o que precisamos comer. Comemos o resto tecnológico, não produzimos nada.

Otomilda – O doutor já vem, vai ficar melhor, vai se tratar. O encalhe nos é oferecido como uma dádiva. 

Eliandro – Não podemos ser nacionais?

Otomilda – Claro que não. Estamos aqui por demora do barco que há de nos levar embora – hahaha. Desculpa, brincadeira.

Eliandro – Eles são e podem ser nacionais com eles mesmos, podem ser patriotas com eles mesmos e para eles mesmos.

Otomilda – Aqui não. Sabe disso. Você não é formado em engenharia do direito? Pois então! É uma crise, precisa parar de estudar um pouco e descansar. Faça economia.

Eliandro – É a economia que ganha com a perda.

Otomilda – Vá comigo para a fazenda e a gente pode andar a cavalo, ver as pessoas que quer ajudar, e tudo o mais. 

Eliandro – Aqui o assaltante não usa outra máscara senão a da economia, uma economia ético-moral que funciona na falta, da mesma maneira de como funciona a economia, que se alimenta da escassez.

Otomilda – É tudo isso muito grande. Cuida da sua ferida. Ela não pode ser o país inteiro Eli! A ausência total e completa e integral de referências, de identidade não vai ser mudada do dia para noite.

Eliandro – A gente faz o movimento obediente para a capitalização do domínio.

Otomilda – Desculpe amor, minha vida, eu não. Eu cuido de mim mesma, da minha horta na fazenda, e pronto. Haha. Já imaginou eu tentando ajudar toda essa gente? Morro, simplesmente morro. Quem faria isso? Haha. Quem, Eli?

Eliandro – Sei. Quando surge alguém que mobilize o não à subsunção: somos populistas. Na falta desse que ousa: somos populistas. E nos alegramos com o show da fome do pensamento livre, intelectual, crítico, que fala. Otomilda, nada vai adiante.

Otomilda – Viu tudo acaba nisso. Tem gente que não sabe ler o manual do moedor de ração, amor! 

Eliandro – A luta contra a fome educacional necessita da carne do conhecimento desaparece com drops que os mutiladores do saber social-comunitário nos oferece.

Otomilda – E quem há de matar essa fome imensa de valores? Quem? A universidade? Por favor, tenha calma.

Eliandro –  E discutimos isso na academia – e em nenhum lugar mais -, discutimos como velhos mecânicos que querem consertar o carburador do motor elétrico e não podemos encontrar a entrada de combustível.

Otomilda – Está vendo Eliandro, uma coisa alimenta outra. É a ecologia do interesse que move o mundo.

Eliandro – Somos liberais, não queremos estado e muito menos nação. Somos da esquerda queremos uma nação vestida à esquerda com estado centralizado da esquerda.

Otomilda – Anda a pensar demais de coisas que não tem porquê.

Eliandro – Experimente-se tratar disso nos países dominantes. Vão apenas perguntar: de onde você é?

Otomilda – E você nunca, entende, nunca responda. Haha. Pode ser que eles acreditem e acabe numa dessas prisões que escravizam gente como nós. Haha.

Eliandro – Eles podem erguer suas bandeiras e defender a sua gente.

Otomilda – Qualquer um pode. O risco é grande, sabe disso.

Eliandro – Para eles, Otomilda, para eles é um direito assistido até mesmo por todos os bancos e todas as transnacionais e com apoio ferrenho para que continuem a agir assim de todas organizações laterais.

Otomilda – Meu Deus, está muito revolucionário ou conservador demais, não sei. O médico já vem e tudo vai ficar ótimo, acredite.

Eliandro – Acredito. O médico vem e me põe a dormir. Isso é cura? 

Otomilda – Claro que não.

Eliandro – É muita estupidez. A toda parte a estupidez.

Otomilda – Sabe, Eliandro, o que interessa a eles é apenas comodities. Nada mais que isso. Hahaha. Falei.

Eliandro – Liberalismo entreguista ou esquerda tapa-olho, essa é a dicotomia. O controle é maior, alimentado com a plena e total ignorância, uma ignorância com pós-doutorado e teses em livros traduzidos para o russo, com movimentos sindicais com as mesmas palavras traduzidas – por falta de outras -, dos anos 20, ou pior ainda, com a mesma simbologia de 1789 quando o movimento de igualdade, liberdade e fraternidade veio desde antes, ou a revolta da rosa vermelha que ainda discute a plena revolução ou em etapas, comendo pelas beiradas.

Otomilda – Olha, posso te dizer que de qualquer maneira estamos à espera de alguma caravela que nos leve a um lugar manso. Haha. Já imaginou a gente saindo daqui e indo para a Europa. Haha. Vai ser divertido.

Eliandro – Aqui não. Não há onde atracar os novos colonizadores.

Otomilda – Eles virão do espaço, Eli. Vai ver.

Eliandro – Já vi.

Otomilda – Eu já chamei a mocinha de uniforme, ela vem e te dá um remédio. Nada de alucinações agora.

(Entra o médico)

Otomilda – Eli, querido, o doutor chegou.

Eliandro – Ele vai me dar adrenalina, não deixe Otomilda, não deixe.

Otomilda – Pare de bobagem, ele não vai fazer isso. Você não é doente terminal que vai usar UTI, e mais a mais, a gente tem dinheiro, pronto. (Eliandro mostra-se nervoso) Acabou, acabou, fica calmo.

(O médico aplica uma injeção)

Otomilda – Ele morreu doutor?

(O médico sinaliza que sim)

Otomilda – Graças a Deus, prefiro que esteja em paz. Assim não dá despesa.

Paisagem distante de perto demais

Desenhos em grafite, carvão e aquarelas de Fernando Augusto, artista.

Vi marcas sobre o papel shoel, riscos feitos durante o dia que parece noite, uma noite de entradas profundas. Há entre essas árvores ajuntadas portais de poucas passagens. Longe uma casa se acende em meio à flores, penso assim. O céu quase aparece como uma lava de refresco em duas cores nesses traços que organiza o que o barco perde, parece que se está balançando em um braco, numa pequena praia de desequilíbrio, em uma mesa cansada onde o artista devasta.

O que lhe pega, uma porrada de sentimentos que invade e se perde no porão do desnivelamento. Depois joga esses riscos morosos, uns brancos cálidos que parecem insistir, dizer outra vez, estou aqui, aqui desse lado.

Levaria para casa, mostraria que ainda sinto, que há amor em mim. Que apesar de saber que come bem a estupidez, tenho fome. Enfiaria nos olhos turbados de cotidiano, a todos que viessem para esse discurso. Daria a elas o que escondem no limo de suas cotidianas empreitadas vis. E não me importaria com suas tenazes, a mordida nos lábios de quem aperta os intestinos, a única e real produção sensível fruto da carne, trava da constipação de suas mentes.

Vejam, diria a essas entidades laminares, essa produção do acaso, esse encontro sublevado a qualquer proteção, está aqui o que não está, o que é e o que não existe mais.

Poria na parede e entraria nesses vão que a visão nos dá e oferece arrependimento.

E sou eu quem vê que o artista não se esconde, aparece ali meia sombra, meio borrado estribilho de uma música de vento conhecida, de areias levantadas de força de alma queimada. Fica o carvão, essa tinta que nem sei, e pequeno se vê o imenso. Uma parte é mesmo o todo. Depois, eu não me cansei em me cansar, pude me aproximar de um ritual de olhar e olhar.

O pacote que é a caixa que se desembulha na lágrima. Via por dentro o que acontecia no instate fora dessas imagens carregadas de luz. Voltei a ver as aquarelas, veio uma vontade de praia, de fogo no ar, de energia, não sei quê.

Tão difícil esses escorregadios molhes de brilho, essas misturas que se casam e querem se perder, e, bem sei que são encastelados, que no papel há essa árvore, essa dor que tem o que se usa e mancha e utiliza e ocupa.

Mas é a tristeza risonha, inteira de fibras que seguram essa química, esse irrisório que a cor bate na cara de quem olha.

detalhe

Meio que à toa, tudo vão nas almas vazias, imagino assim que me apego ao que me faz despender da última fímbria dessa árvore que sou também, desse rascunho humano que pede todos dias ser bom, ser melhor e me contentar com pouco que é tanto o mundo cheio que me deságuo.

Posso inventar que não vi. A sensação de que o perdido apareceu. O que vai ser eliminado manda avisar que as sombras ganharam vida e passeiam com os humanos. O lado obscuro achata qualquer variação, arrasa os volumes, esmaga a ordem das coisas, arranha o chão – onde andaria a vontade -, derruba as certezas com seu manto insólito.

A floresta acaba. Extirpada frente aos olhos. Lágrimas leitosas. Inteferências lácteas. Tudo contra a comedida narrativa de relatório, de ata. A alma manchada com a falta, buraco móvel de sentimentos arrestados na marca de passos engolidos pela supressão da luz, da emoção de viver.

Não sei desse cara, vejo apenas a incerteza, coisa correta é represa de amontoados, peso de rio abandonado, essas desenhos, essas escalavradas, essas onomatopéias de pássaros em algum lugar, o pouco de tudo.

Desordem arrumada, entalpia do que ganha a perda, o abandono, única certeza da beleza, a memória grudada nos rebordos dos suportes. Tanto descontentamento em mim que desejo ajuntar o que esqueço rápido.

E se repete o que ali não está repetidas vezes. Uma fornalha de escolas que se foram. E retoma outra maneira, um gesto de escritura que arranha o ar onde a paisagem fica.

Quero me distanciar, me esquecer dessas lembranças, mas elas moram comigo, e as encontro através da janela, daquele vidro, a sombra, a marca escura, e os vãos claros que se tingem não sei como, voltam em mim o lugar onde estive e nunca fui.

Atravesso o bosque aqui perto, as copas, ameaçadas pela feiura da máquina, e ninguém faz delas o que elas são de sonho e alegria, e é assim que revejo o esquecido e aglutino o passado presente, coisa de bem, paz de desenho que me aparece de relampejo para eu me inventar.

Se tivesse dito que anda por um lugar sem esse nome, caminhante de tantos espaços, rabiscos densamentos densos, e além disso, se diz que tem de onde veio em si, como um reconhecimento vivo. O artista Fernando Augusto deu em mim o que havia, faz tempo essa maranha que a política corta, e diz política (legra grande) sem lugar, sem onde estar e aonde partir o que aonde se vai.

Exposição:

A paisagem como Política

Artista:

Fernando Augusto

Galeria Ybakatu

Maio/2019

A morte do ator

A rubrica diz que eles se vestem da roupa comum, que andam perambulando sem motivo, que buscam alguma razão e nada faz sentido. Falam rápido, depois lento, inventam vozes caricaturais, comem as palavras de boca cheia, despejam o pote, mastigam o bife, marcam os gestos e lutam por uma miserável luz, um som que preencha o vazio, o corpo deitado atrás da rotunda de fundo.

– Janilson você está errado. 

– Não estou.

– O menino podia melhorar, sei lá. 

– Melhorar.

– Sim, melhorar.

– Ele estava doente?

– Não é isso. É a vida dele, ninguém tem direito.

– E ele tem direito de entrar aqui, nesse lugar com aquela voz ruim, emoção grudada na garganta, sem pés nem mãos, dançando um passo para lá e para cá buscando o chão, enfiando a porra da mão sabe lá onde. 

– Engraçado você, parece que nunca começou nada.

– Não mesmo, não sou ator. Se fosse não participaria de uma companhia de improvisação como garantia segura de pleno analfabetismo.

– Você está defendendo o autor.

– Confunde. O ator é o autor encontrado. Autor não é quem autor-iza. A obra de teatro é um arcabouço com múltiplas determinações, agora, trabalho coletivo que mesmo só pode se o que é com o que tem, nada. Manipulados, essa gente de cena faz uma estética repetitiva. Já vi isso na rua, naquela terra velha que usa a juventude para um desejo secundário, de negócio, de uma fama, de um estado político, de um cargo, de qualquer bosta menos de ser ator. 

– Eles não têm culpa, eles não sabem disso. O que fez foi horrível. 

– Estamos livres daquilo.

– Não diga isso, qualaquer um merece a vida, mesmo uma vida ruim, idiota, merece viver, de ter o seu tempo, o seu momento.

– Um momento é eternidade. Público algum, na sua quietude inteligente de público não necessita suportar tal absurdo e ainda, por hábito ao mal, se acostumar e ainda aplaudir esses tipo conduzentes e conduzido.

– Mas isso é de uma crueldade sem fim.

– Com fim Dinaura, crueldade com fim, estamos livres desse idiota.

– Onde ele está?

– Fica quieta, o cortineiro.

– Boa noite.

– Boa noite para você também.

– Boa noite, esteja bem quanto puder.

– Ator é artista e ele nem chegou ainda ao grau de pessoa, menos ainda humana.

– Não fale assim. Conta, onde está o menino.

– Eu ofereci a ele aquele instante de emancipação da existência.

– Onde?

– Não grite.

– Grito quanto quizer, é uma vida, seja como uma barata, mas é.

– Você não entende.

– O quê?

– Não fale nada.

– O quê?

– O contra-regras com o iluminador.

– Oi.

– Tudo em cima.

– Está certo.

– Você acha que isso é suportável, isso atinge a dignidade do teatro.

– Não precisa cochichar desse jeito, assim, não precisa falar baixo.

– Fala quanto queira, trate de me dizer Janilson, por favor, onde você pôs aquela criatura.

– Deve estar, deixa eu ver, pelo tempo, ainda está bem.

– Então o salve.

– Para quê? Os pais, a família e a comunidade vão ficar felizes com sua ausência eterna.

– Merda!

– Merda-merda.

– Janilson.

– Dinaura.

– Quer dizer onde está o coiso do molequinho?

– Já te falei, ele está, espera.

– Espera o quê.

– O maquinista está ajustando.

– Não me venha com essa Janilson.

– O sonoplasta vai pôr a trilha.

– Não me puxe.

– Puxo sim.

– Não sei dançar.

– Você não é atriz?

– Não sei mais.

– Viu, agora está bem.

– Onde ele está?

– O contra-regra. O cortineiro veio?

– Responda ao sinal.

– Essa mesma ladainha irritante.

– Faça o sinal para ele.

– Depois que a luz volta eu ergo as mãos.

– Está certo.

– É assim a vida.

– Não me venha com essa, pode ter um menino morrendo aqui agora e a culpa é sua.

– Ele não sabe ler, não conhece dramaturgia, faz um teatrão de prima-dona na frente, no procênio.

– É a frente ampla, foda-se Janilson. Esquerda baixa, três quartos, a luz em mim.

– Onde?

– Sai do ponto de luz, e não amarrote o meu paletó.

– Onde? Eu perguntei!

– Voz de carroça, voz de movimento salteado, constante bater. Voz de travas de ferro. 

– Onde?

– O que quer saber?

– Disse onde.

– Vá para lá.

– Onde, cacete!

– Segunda perna, vai à direita, atrás do ciclorama.

– No refeitório de fundo.

– Impossível.

– O que é impossível?

– Deram o sinal.

– Você acha que é assim? Soa o terceiro e se prepara? Idiota.

– Acho.

– Ator.

– Ridículo.

– Fica na posição!

– Eu entro.

– Entra aí, certo.

– Dá tempo para repassar.

– Não, vai, vai.

– Vejo que estão felizes esta noite, vejo esse escuro pesado. Pensaram muito antes de virem, aguardam quietos, meio-riso alguma desgraça. Torcem que haja aqui um erro, uma merda qualquer para que se sintam além. Almas sem sentimento, sofrem e amam o carrasco, adoram o sádico, beijam o sofrimento, não se arrependem jamais de ferir – conquanto… O escuro guarda a sua face, a cara arrumada. Mantenham a luz apagada! Eu peço. A luz escondida, a sombra. Um risco de fundo; conseguem entender. E se aproxima, vem a coisa, o trabalho, a forma fria. Essa função. Essa dor sem camarim, sem maquiagem, sem ninguém a seu lado. Devo dizer o que devo dizer. Entra!

(Entra)

– Onde?

– Aqui atrás, alguns passos para trás.

– A luz te ergue do esconderijo, mostra pouco a pouco cada uma de suas partes, os pedaços, as sobras. Onde esteve?

– Estive aqui o tempo todo. Sem luz.

– Não diga besteira, parece que perdeu o ensaio.

– O corpo que vê, a voz que houve nessas palavras.

– Não acredito que se apresenta desse jeito!

– Acredita, esse jeito de falar, essa roupa sem sentido, esse texto que trabalhamos em grupo porque não entendemos nada do que se passa, nem sei, eu mesmo, pouco digo do que poderia, do que seria dito. Talvez, amor, cortei meu coração.

– É pouco.

– Sinto em mim a vergonha desse tablado. Posso matá-lo, inventar que o meu desejo morre em sua boca, que minhas forças, tão poucos me fazem tremer. Veja quanto tremo, mantenho o corpo duro e vibro. Escuta, direi algo com ódio, com desgosto. Posso coçar o corpo para fingir arrependimento, incerteza. Que tal mão no queixo para exprimir triste pensamento? Posso pôr os pés em algum banquinho, eu tenho um no camarim para fotos. Se soubesse quanto é difícil dizer nada. E a alegria que agarro com força. Risada doce.

– Encara essa gente, fale algo de valor. 

– Voltarei para o camarim, encontrarei os medrosos arrogantes com olhares fulminantes, os nossos mentirosos e suas fúrias. A camareira e o camareiro me trarão a corda do enforcamento quando chegar o último instante, naquele ato. Vou rápido, a cortina acompanha aquela trilha copiada com retoques de estúdio, ouvirei o fim de um clássico, uma voz distante, algo assim, um efeito sonoro. Ele faz a dança das cortinas, afinada em toda a sua franja. A luz pousará em minhas costas, finjo desespero, vejo o sinal do contra-regra e olho para trás imediatamente e paraliso o eu olhar enquanto o pano se fecha para o último momento, o ilustrativo do último ato. O que acha?

– Teria de dizer: a tormenta passa, o vento leva as nuvens e o edredom perfumado de céu, desenho de estrela cai sobre mim. Diz, céu: Esqueça. 

– Tive um branco.

– É o texto, o que devia dizer.

– Não estou preparado. Sei nada disso não.

– Esqueça, voce deveria dizer: Esqueça os canhões o roubo noturno do larápios, o uniforme frio dos iguais, homogênio comum. Seguiria a dizer, deixa lembrar – não é meu esse pedaço.

– Morre infortúnio, diabo de vida besta, ordem na cabresta, chifre de cabra, remoinho de luz, desejos. Sai da vida, miserável.

– Não, não era isso. Era: sai da lida confortável, sobe no carro, vaga na espuma das verdades. Crueldade das horas que não passam, não marca a carne a idade. Ouve!

– Aqui vem o silêncio, nenhuma palavra. Depois eu digo: eles já terminaram a chacina. Sente a guerra, o cheiro dos corpos mortos. O fedor dos fracos.

– Não diga isso aos obedientes. Dóceis corações ultrajados, marcados.

– Assim é. Ninguém no teatro da vida, os atores esperando os filhos mortos, os personagens de vidas futuras. Tudo por eles, armas e munições, a fábrica e o comércio e no meio o governo dos honestos.

– Honestos?

– Sim, atores honestos!

– Eu morrerei antes que o amanhã se torne a manhã, noite. Amanhã estarei deitado na coxia.

– Estará vestido ou nu, estará lá como sempre, olhando o vazio dos iconoclastas. Desses que destroem o sagrado, os profanos aplaudirão você.

– A única verdade, o erro.

– Agora dá para repassar?

– Vem o terceiro sinal?

– Vem.

– Onde?

– Baixa o pano.

– Atrás da cortina, frente à cena.

– Onde? Na franja?

– Vamos entrar e agradecer.

– Vamos.