outubro 2019

Menos palavras

É um conto curto de leiteiro, de retireiro em seu trabalho. Estábulo do que se chama inamovível, estável. Por ser estabelecido nas horas ocupadas.
Um final portentoso é sempre um início decoroso, carregado de sequencias. O final já se inicia na percepção do leitor, no caminho sem volta, e claro, na volta que se faz sobre sí mesmo na recomposição significativa, dos sentidos que constrói.

São sequencias que estão na pluridade das ações. Delas advém as partidas e retomadas, paradas obedientes ao animal. Se obedece até mesmo entre opções. De fazer ou de não isso e aquilo – o que está arraigado e culturalmente reconhecível – na ordenação progressiva dos acontecimentos. E são advindos ao estado interceptivo de um agora sempre possível – por causa disso, dessa memoria social que mais nos põe a caminho das permanências aconchegadas das ilusões da cultura.
Chamo o passado e ponho o nome do cavalo de Mirante.

Por isso Mirante de orelhas esticadas, de danças e vento, de esperas e seguimentos. Marchas com voláteis sonoridades. 

Menos Palavras – um conto. Curto e longo na intenção. Tem nele o memorial e o retorno. Fixado entre amanhecer e adormecer de tarde, vermelho ao fundo do insondável. Partida dos que nunca estiveram, dos que experimentaram estar – a personagem ainda incognoscível de eu mesmo, dos que lêem e do mínimo, esse quase rascunho que aponta a sua existência, sua carne e características. Ao mesmo desejo de reminiscências não encontradas a identidade aérea revela-se.

O fixo em sua imobilidade e o aparato descritivo dos processos. O que vê ao longe. Mirante de jornadas repetitivas. Retomadas de significados, reavivamento da clareza do leite, de sua espuma, da nata, e entorno, cair dentro ao entorno. Como se estivesse cumprindo uma passagem. Nem grito, nem dor, nem desamor, retomada sobre o umbral da existência.


O conto esperneia nas mãos que as palavras tecem, segue a dança do bicho, os desvios que se cumpre por nódoa. Veemente marca das ações alheias reificadas no bicho, no acaso segmentado das ordens caseiras. E se houvesse o desaviso como sinal, agenda de finalizações inconcebíveis, voltaria sobre si a ventura dos desajustes. Elas todas ordenadas das manhãs ou ao passo do abismo de sol poente.

E de início o apegado, alguém emerge e segue o fluxo externo, e interno o contrário caminho. E se pensa diferente cada qual às coisas finalizadas, como nessas estradas do leiteiro a chacolejar o tempo como que fosse o próprio animal a ruminar os espaços por onde anda, cavando a passagem, levando consigo a carga do ofício de Lazar, e de todos nós, como retireiros.

E em seu quadro estabilizado, de a surpresa descansar sobre a maestria, no domínio das voltas dadas e retomadas vai para outro lado, esse que veio, que o apego é mais exigencia que bondade, e bondade abstração no transcurso da rua, dessa via, de terrenos devorados no tempo que fazem a invisível linha cultural de randomizados procedimentos. A repetição em marcha come a passagem, o ciclo das coisas certas e ao mesmo tempo faz os traços das crenças, das devoções ao cotidiano, de linhas sem borda por onde o memorial inventa a si mesmo, de conhecimento, de liberdade atolada em sentimentos, a sua espessura. Faz assim, como se diz, a cultura.
E o que estava tão seguro nessas obrigações de cumprir dever, de não dar pano para manga, de aceitar aquela alma faz seguir o trote diário do ofício. E vai um dia embora. Vai porque se lhe define a ida como disfunção do que é proeminente, de ser devedor de bondade, de agregado. E segue o sol poente, o mesmo que esperar no caminhar, ao fim do dia, o amanhecer.

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Andraja: o absurdo de existir

Andraja é disforme, tem nome, nomeia e pouco tem em palavra. Vocifera como o bicho que protege e ladra o umbigo de suas tronchas calamidades. É piegas, egoísta e bem sabida. É homem, masculino de crueldade, e mulher com pouca liberdade, mas é sempre humana caveira vestida. Morta consciência, em tudo desmedida é Andraja, resumo do limo, humano sanguinário, Vil de valor Andraja, desprovida.

Veste a roupa, a casca, e semeia inimigos, arranca os olhos de alegres, corta pernas, tira pulso, puxa com força as cordas, veias e artérias, esfola o coração.
Passo a passo, na máquina do uso e utilidade, no ganho e vantagem a sentar no colo, ser filme conhecido, imagem adulterada, voz de grito estilhaçado, riso de gozo pueril, fotografia de Andraja, a sua identidade. Coisa, função, utilitária é Andraja. Mulher e homem, homem de humanidade perdida. Andraja, veste a casca da ferida.


Eu ouço e quem mais a conhece sabe que tudo foi partido, tudo foi administrado. Temor ao transcendental e em tudo faz mal.
Andraja é homem. Também grunhe. Grunhe como objetos em atrito, como porta a ranger, quando rezam um conceito. E fala o despeito. Também é mulher. Transideral qualidade. Andraja é tudo. A coisa que fala, a que rosna.
É mais analfabeta que leitora, e é melhor por isso. Pior é quando letrada e explicadora, essa pessoa, essa humanidade Andraja.
Síntese de tudo que se apresenta, Andraja. Salamandra de palavras conhecidas, significados que à força do fogo faz algum sentido, Andraja.

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