abril 2019

A morte do ator

A rubrica diz que eles se vestem da roupa comum, que andam perambulando sem motivo, que buscam alguma razão e nada faz sentido. Falam rápido, depois lento, inventam vozes caricaturais, comem as palavras de boca cheia, despejam o pote, mastigam o bife, marcam os gestos e lutam por uma miserável luz, um som que preencha o vazio, o corpo deitado atrás da rotunda de fundo.

– Janilson você está errado. 

– Não estou.

– O menino podia melhorar, sei lá. 

– Melhorar.

– Sim, melhorar.

– Ele estava doente?

– Não é isso. É a vida dele, ninguém tem direito.

– E ele tem direito de entrar aqui, nesse lugar com aquela voz ruim, emoção grudada na garganta, sem pés nem mãos, dançando um passo para lá e para cá buscando o chão, enfiando a porra da mão sabe lá onde. 

– Engraçado você, parece que nunca começou nada.

– Não mesmo, não sou ator. Se fosse não participaria de uma companhia de improvisação como garantia segura de pleno analfabetismo.

– Você está defendendo o autor.

– Confunde. O ator é o autor encontrado. Autor não é quem autor-iza. A obra de teatro é um arcabouço com múltiplas determinações, agora, trabalho coletivo que mesmo só pode se o que é com o que tem, nada. Manipulados, essa gente de cena faz uma estética repetitiva. Já vi isso na rua, naquela terra velha que usa a juventude para um desejo secundário, de negócio, de uma fama, de um estado político, de um cargo, de qualquer bosta menos de ser ator. 

– Eles não têm culpa, eles não sabem disso. O que fez foi horrível. 

– Estamos livres daquilo.

– Não diga isso, qualaquer um merece a vida, mesmo uma vida ruim, idiota, merece viver, de ter o seu tempo, o seu momento.

– Um momento é eternidade. Público algum, na sua quietude inteligente de público não necessita suportar tal absurdo e ainda, por hábito ao mal, se acostumar e ainda aplaudir esses tipo conduzentes e conduzido.

– Mas isso é de uma crueldade sem fim.

– Com fim Dinaura, crueldade com fim, estamos livres desse idiota.

– Onde ele está?

– Fica quieta, o cortineiro.

– Boa noite.

– Boa noite para você também.

– Boa noite, esteja bem quanto puder.

– Ator é artista e ele nem chegou ainda ao grau de pessoa, menos ainda humana.

– Não fale assim. Conta, onde está o menino.

– Eu ofereci a ele aquele instante de emancipação da existência.

– Onde?

– Não grite.

– Grito quanto quizer, é uma vida, seja como uma barata, mas é.

– Você não entende.

– O quê?

– Não fale nada.

– O quê?

– O contra-regras com o iluminador.

– Oi.

– Tudo em cima.

– Está certo.

– Você acha que isso é suportável, isso atinge a dignidade do teatro.

– Não precisa cochichar desse jeito, assim, não precisa falar baixo.

– Fala quanto queira, trate de me dizer Janilson, por favor, onde você pôs aquela criatura.

– Deve estar, deixa eu ver, pelo tempo, ainda está bem.

– Então o salve.

– Para quê? Os pais, a família e a comunidade vão ficar felizes com sua ausência eterna.

– Merda!

– Merda-merda.

– Janilson.

– Dinaura.

– Quer dizer onde está o coiso do molequinho?

– Já te falei, ele está, espera.

– Espera o quê.

– O maquinista está ajustando.

– Não me venha com essa Janilson.

– O sonoplasta vai pôr a trilha.

– Não me puxe.

– Puxo sim.

– Não sei dançar.

– Você não é atriz?

– Não sei mais.

– Viu, agora está bem.

– Onde ele está?

– O contra-regra. O cortineiro veio?

– Responda ao sinal.

– Essa mesma ladainha irritante.

– Faça o sinal para ele.

– Depois que a luz volta eu ergo as mãos.

– Está certo.

– É assim a vida.

– Não me venha com essa, pode ter um menino morrendo aqui agora e a culpa é sua.

– Ele não sabe ler, não conhece dramaturgia, faz um teatrão de prima-dona na frente, no procênio.

– É a frente ampla, foda-se Janilson. Esquerda baixa, três quartos, a luz em mim.

– Onde?

– Sai do ponto de luz, e não amarrote o meu paletó.

– Onde? Eu perguntei!

– Voz de carroça, voz de movimento salteado, constante bater. Voz de travas de ferro. 

– Onde?

– O que quer saber?

– Disse onde.

– Vá para lá.

– Onde, cacete!

– Segunda perna, vai à direita, atrás do ciclorama.

– No refeitório de fundo.

– Impossível.

– O que é impossível?

– Deram o sinal.

– Você acha que é assim? Soa o terceiro e se prepara? Idiota.

– Acho.

– Ator.

– Ridículo.

– Fica na posição!

– Eu entro.

– Entra aí, certo.

– Dá tempo para repassar.

– Não, vai, vai.

– Vejo que estão felizes esta noite, vejo esse escuro pesado. Pensaram muito antes de virem, aguardam quietos, meio-riso alguma desgraça. Torcem que haja aqui um erro, uma merda qualquer para que se sintam além. Almas sem sentimento, sofrem e amam o carrasco, adoram o sádico, beijam o sofrimento, não se arrependem jamais de ferir – conquanto… O escuro guarda a sua face, a cara arrumada. Mantenham a luz apagada! Eu peço. A luz escondida, a sombra. Um risco de fundo; conseguem entender. E se aproxima, vem a coisa, o trabalho, a forma fria. Essa função. Essa dor sem camarim, sem maquiagem, sem ninguém a seu lado. Devo dizer o que devo dizer. Entra!

(Entra)

– Onde?

– Aqui atrás, alguns passos para trás.

– A luz te ergue do esconderijo, mostra pouco a pouco cada uma de suas partes, os pedaços, as sobras. Onde esteve?

– Estive aqui o tempo todo. Sem luz.

– Não diga besteira, parece que perdeu o ensaio.

– O corpo que vê, a voz que houve nessas palavras.

– Não acredito que se apresenta desse jeito!

– Acredita, esse jeito de falar, essa roupa sem sentido, esse texto que trabalhamos em grupo porque não entendemos nada do que se passa, nem sei, eu mesmo, pouco digo do que poderia, do que seria dito. Talvez, amor, cortei meu coração.

– É pouco.

– Sinto em mim a vergonha desse tablado. Posso matá-lo, inventar que o meu desejo morre em sua boca, que minhas forças, tão poucos me fazem tremer. Veja quanto tremo, mantenho o corpo duro e vibro. Escuta, direi algo com ódio, com desgosto. Posso coçar o corpo para fingir arrependimento, incerteza. Que tal mão no queixo para exprimir triste pensamento? Posso pôr os pés em algum banquinho, eu tenho um no camarim para fotos. Se soubesse quanto é difícil dizer nada. E a alegria que agarro com força. Risada doce.

– Encara essa gente, fale algo de valor. 

– Voltarei para o camarim, encontrarei os medrosos arrogantes com olhares fulminantes, os nossos mentirosos e suas fúrias. A camareira e o camareiro me trarão a corda do enforcamento quando chegar o último instante, naquele ato. Vou rápido, a cortina acompanha aquela trilha copiada com retoques de estúdio, ouvirei o fim de um clássico, uma voz distante, algo assim, um efeito sonoro. Ele faz a dança das cortinas, afinada em toda a sua franja. A luz pousará em minhas costas, finjo desespero, vejo o sinal do contra-regra e olho para trás imediatamente e paraliso o eu olhar enquanto o pano se fecha para o último momento, o ilustrativo do último ato. O que acha?

– Teria de dizer: a tormenta passa, o vento leva as nuvens e o edredom perfumado de céu, desenho de estrela cai sobre mim. Diz, céu: Esqueça. 

– Tive um branco.

– É o texto, o que devia dizer.

– Não estou preparado. Sei nada disso não.

– Esqueça, voce deveria dizer: Esqueça os canhões o roubo noturno do larápios, o uniforme frio dos iguais, homogênio comum. Seguiria a dizer, deixa lembrar – não é meu esse pedaço.

– Morre infortúnio, diabo de vida besta, ordem na cabresta, chifre de cabra, remoinho de luz, desejos. Sai da vida, miserável.

– Não, não era isso. Era: sai da lida confortável, sobe no carro, vaga na espuma das verdades. Crueldade das horas que não passam, não marca a carne a idade. Ouve!

– Aqui vem o silêncio, nenhuma palavra. Depois eu digo: eles já terminaram a chacina. Sente a guerra, o cheiro dos corpos mortos. O fedor dos fracos.

– Não diga isso aos obedientes. Dóceis corações ultrajados, marcados.

– Assim é. Ninguém no teatro da vida, os atores esperando os filhos mortos, os personagens de vidas futuras. Tudo por eles, armas e munições, a fábrica e o comércio e no meio o governo dos honestos.

– Honestos?

– Sim, atores honestos!

– Eu morrerei antes que o amanhã se torne a manhã, noite. Amanhã estarei deitado na coxia.

– Estará vestido ou nu, estará lá como sempre, olhando o vazio dos iconoclastas. Desses que destroem o sagrado, os profanos aplaudirão você.

– A única verdade, o erro.

– Agora dá para repassar?

– Vem o terceiro sinal?

– Vem.

– Onde?

– Baixa o pano.

– Atrás da cortina, frente à cena.

– Onde? Na franja?

– Vamos entrar e agradecer.

– Vamos.

A última doença

NOTA:
"A última doença" compõe o livro
Contos Médicos
Publicado por - Pedro Moreira Nt - Copyright,2019

No almoço, fim de semana, onde estavam todos os seus parentes perdedores e fracassados, ele listava seus feitos com um pouco de vontade de vomitar. Era aquele jeito de quem comeu a pouco e fica entre cuspir e arrotar. Porém, continha-se emético nas doces palavras a respeito da comida, do tempo, da altura da sala de jantar, a importância da tomada, e a função ranhenta de guardanapos.

Sobre comida, atuava como um recém-formado:

 – Minha mãe, não deve oferecer tanta proteína e carboidrato a meus irmãos. Eles vão acabar se empanturrando, e por fim, saiba que serei eu quem vai de cuidar dos seus males, sou eu.

A mãe não entendia nada desses palavrórios, e sorria. Ainda mais quando dizia em sua ênfaze pianística de que “vai cuidar”.

Os irmãos, apesar de sempre serem colocados como miseráveis frente à sua gloriosa carreira, gostavam de ouvi-lo.

Gostavam de sua risadinha irônica quando o desconhecimento surgia com uma interrogação sobre dor, sobre o ventre, sobre as papadas na cara, sobre orelhas com pêlos.

– A falta de claridade faz com os homens de luz abram caminho, mas nem sempre é possível garantir que serão seguidos, uma pena.

Os irmãos com aquelas carinhas orgulhosas completavam:

– É verdade. Verdade verdadeira.

É que no interior, uma afronta tão cheia de recortes, de enfeites, não é ofensa e sim brincadeira. É um divertimento, mostra de argúcia, ainda mais vinda de um médico glamuroso como parente.

Médico de roupa branca, mesmo em férias, para cima e para baixo ostentando seu uniforme de vencedor, um homem fiel na doença e na morte, uma pessoa dedicada a todos os males, a todos os furúnculos sociais onde possa transparecer sua dignidade.

Os irmãos, todos os sete, felizes em (re)apresentá-lo:

– Este é o Zé, nosso irmão, dava-se a pausa, e por fim, com olhos jogados a esbofetear quem quer que fosse, termina com uma voz lúgubre: médico.

O jeito de apresentar às vezes irritava, a impressão que dava é que estavam apresentando o dono da funerária.

– Não podia mudar o jeito de me apresentar?

– Uai, você não é médico?

Olhava a cara do mano, empalamado, aquelas olheiras fundas, o cigarrinho pendurado, o cabelo escovado parecendo ter deitado as costas no palanque e abandonado os eleitores. Coisa de dar pena.

– Sou, tá certo – terminava assim a tentativa.

Um homem simples, mesmo irmão de médico não pode excluir os demais, mesmo os ausentes. Seria uma temeridade pronunciar-se somente a si como irmão do vencedor, por isso dizia: nosso irmão.

E o Zé era deles todos. Sorria o Zé com sua alegria pensada, de racionalidade aritmética, medida por um cheque-mate difícil, um de seus jogos prediletos.

– Gosto de xadrez porque não necessito de companhia, faço as minhas jogadas, amplio meus horizontes e desenvolvo minha capacidade intelectual de atender a guerra e vencê-la quando desejar. O xadrez é um código, entendam, um código de postura para vencer.

– Oh!

– E a biblioteca? Tenho uma completa com mais de sete mil e duzentos e cinzenta e três.  Nenhum livro repetido. E, absolutamente, nenhum de vocês sabe o que é isso, tá entendendo?

Ninguém ousava perguntar: leu todos?

Estava na cara que comia palavras como traça. Bem seja que traça alguma é intelectual e muito menos da medicina.

Falar de milagres e doenças era com ele mesmo:

– A última doença que cuidei foi muito dura.

Pausava, fazia gestos, depois sustentava a respiração para dar a tudo isso um quê de ambivalência. 

– Foi, difícil. Consegui pouco.

– Coitado, diziam.

E coitado era uma das palavras que o bom Zé odiava ouvir devido a conatação etimológica.

– Mas eu não perdi tempo.

– Ele não perde tempo.

Havia um advogado no meio dos visitantes, dos que almoçavam com a família. Um querido que veio pegar uns lotes de um mau-pagador.

– E o que fêz.

– Descansei os olhos nos meus pensamentos.

– Nossa.

– Daí me arremecei.

– Meu irmão Zé não é fácil Dr. Advogado, ele é que nem pedra no estilingue.

O médico ficou a imaginar a trajetória do arremesso da pedra, ele. Daí falou:

– E quem era vivo-morto?

– A doença?

– É.

– A doença era um sujeito de barbas brancas, se é que me entendem, um tipo meio passado, estava condenado. Mas tive a surpresa.

O velhinho havia se apresentado em seu consultório.

– Foi um achado. Aquela doença era o que mais precisava.

Estava necessitando de colher dados, de pegar com as mãos algo realmente podre.

E consegui as informações sobre o processo metálico, – uma expressão ante-metástase que ocorre em pessoas idosas. E eis que me apresenta um ao pé da cova. Ele era um câncer magnífico, vivo, ali, feio. Ali na minha frente para eu ver como funcionava, e para saber detalhes; era algo muito bom, muito bom mesmo, agradeci a Deus a vinda daquela morte ainda viva. 

Tinha gente com vontade de vomitar, uns e outros disfarçavam. Mas ouviam, insistentes, em nome da ciência.

E prosseguia o Zé com aquela voz de padre com aquela roupa de pai de santo:

– E se caso conseguisse retirar aquilo dali, com permissão da família, – claro! – teria a glória no evento internacional, iam ver o que descobri, e o que poderia fazer para melhorar a vida de muita gente necessitada.

– Seria o Nobel da Paz.

– Por que da paz?

– Não sei, deu na telha.

O branco, o sapato, a meia e tudo mais no rinso.

Para garantir que poderia retirar o tumor maligno, sem necessitar de ir a hospital e jogar uma quantidade de radiação que poderia destruir o núcleo da doença, Zé contou à família o mal do velho.

Ele queria o cara para ele, queria a coisa, o sangue, a pústula, retirar aquela alma quase desencarnada do purgatório da dor para devolve-la á terra.

Os irmãos que conheciam a história contada pelo menos umas dez vezes, estavam emocionados frente aos amigos ouvintes:

– Conta Zé!

– Ele vai caprichar agora.

– Fica vendo.

A mãe sorria, distante, inabitada. As pessoas naquela festa de sofrimento não podiam mais encarar o médico.

– Contei imediatamente aos parentes o mal daquele homem.

– Contou como?

– Olhei para a cara da mulher. Ela estava tensa, duas lágrimas pareciam cair. Estava enternecida. Uma pausa, das grandes aquietou os curiosos.

Os presentes, incluindo o Dr. Advogado, por hábito da técnica, entendiam que a senhora estava de terno. Ficaram espantados, mas, se ela usa terno, que use.

– Olhei profundamente, fiz alguns rodeios e ela se precipitou a mim querendo que eu dissesse o que se passava com o marido.

– A mulher estava nervosa, lembra? Você ia contar Zé.

– Isso, não só ia como contei.

Houve um estremecimento na sala.

– A esposa do homem deve ter ficado muito mal.

– Quase morreu ali mesmo. Falei: é câncer. 

A platéia engoliu o ar.

– Ela, naturalmente teve um suspiro e despencou, aí eu a juntei com fúria e gritei: água!, – e  dei um sinal à enfermeira.

– Piscou?

– Não, só fiz um gesto leve sem pronunciar uma palavra. Rosa, acho que era esse o nome da enfermeira, entendeu, viu que estava ali a coisa do que eu tanto precisava, viu que que aquilo estaria a salvo comigo e correu pegar os papéis.

– Não trouxe água para acalmar a esposa?

– A velha estava nervosa, melhor deixar assim. As pessoas precisam superar suas angústias, senão como vão viver? Cada um no seu quadrado. 

– É mesmo.

– E eu precisava que assinasse a permissão.

– Verdade, isso é verdade.

– Então, a enfermeira trouxe os papéis, a mulher em sua comoção logo assinou e eu…

– Você fez o quê?

– Rapidamente entrei no consultório segurei o velho na boca, entortei o pescoço e ataquei o alojamento. 

– Puxa vida.

– Eu resolvi o caso com uma só tocada de bisturi.

Na verdade era estocada. Ele enfiou uma ponta e segurou no alicate a pele, deu uma 

colherada, rascou por baixo da carne sangrenta e sacou o invólucro. Com tanto florete, dava impressão que conhecia de esgrima.

– Foi sangue para tudo que é lado. Caiu até num gobelin que tinha no chão, um de camelo e deserto, novinho. Coisa delicada, linda. Feito por crianças. 

Os presentes ficaram no vácuo, olharam camelos caminhando no jardim.

– E como era a doença?

– O velho?

– Ah! Era assim – mostrava com as mãos espalmadas. Coisa grudenta, escura com o monstro dentro, uma espécie capsula com um amontoado de raízes. Era um tipo repolho de gosmento, uma Couve de Bruxelas apodrecida, um nojo.

Ninguém sabia o que era Couve de Bruxelas, mas sabiam que não iam comer nunca.

– O homem ainda viveu bastante tempo, e não sei porque vieram os filhos armados querendo saber o motivo de eu ter tirado o câncer do pai deles ali no consultório e daquele jeito. Achavam que foi culpa minha, que fui eu que piorei a vida deles, não entendem que graças ao mal que tirei, pude, não só aprender sobre a doença como cuidar de muitas doenças por aí.

Um dos irmãos socorreu: e ele ganhou prêmios, um carro de um laboratório, viajou para várias lugares.

– Viajei o mundo, viagem grátis.

– Os filhos do velho queriam matar nosso irmão Zé; ele que ainda salvou o homem da doença.

– Doença salva, e o velho durou.

– Isso é completamente. 

O advogado tinha mania de usar advérbios como substantivo em frases de efeito com ponto final.

– Extirpei o câncer do velhinho com uma  só de bisturi.

– Absolutamente!

– Foi, disse o médico.

– Não é o Geraldo, o de Barbacena?

– Não lembro o nome completo.

O médico pensou um pouco, deu uma olhada disfarçada nas anotações que correntemente trazia em uma caderneta branco-sujo. Deu uma geral e disse:

– Esse, esse mesmo!

– Queriam te matar a porrada, eu que não deixei.

– Mesmo?

– Era uma tal herança. Coisa boa, de encher o cofre.

– Sério?

O médico ficou atordoado.

– Os filhos, sabe como é, queriam, coitados, o pai no céu.

– Que gente egoísta, não sabem dividir. Pensam só neles.

Havia fumaça no ar frio, uma densa neblina enviesava os sentimentos escondidos. Naquela época as verdades dormiam no colchão dos interesses.

– E eu não cobrei nada.

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Conheça o autor:

Pedro Moreira Nt

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O menino feliz

Para Pedro Felipe com seu vôo de alegria flamejante.

Ele queria ser estrela, mas vivia com a vovó que gostava do jardim e que não compreendia muito de céu.

–               Quero ser estrela!

–                É mesmo!

–                Lá no céu entre milhares de outras crianças iguais a mim.

Papai pediu que ficasse sempre perto.

–               Mas eu volto, todo dia, toda hora. 

–               E como fará isso?

–               Uma estrela que voa.

–               Com asas?

–               Estrela passarinho.

–               E super-herói.    

–                Super-herói, estrela e passarinho. Podia voar de vez em quando.

–                Só de vez em quando?

–               Quanto quiser ser pode. 

–               Posso?

–               Claro, mas tem algo que costura e tece, faz bordado e dança, canta e tem segredos, fala de mistérios e inventa que voa.

–               A vovó.

–               Bem, meu querido sabiá, você já entende e sabe voar. Obedeça quando eu chamar. 

O menino feliz sorriu porque é o melhor que meninos felizes podem fazer, e voou para o jardim, foi falar com o vovô. 

–               Por que você quer ser estrela, menino? Perguntou o vovô.

–               Para ser passarinho.

–               Passarinho?

–               Sabiá e voar.

–               Voar.

–               Serei super-herói.

–               Então vai ser se você quer.

O avô tirou a capa do armário e o vestiu de mago.

–               Quer  voar?

–               Eu quero, disse ele de asas novas, feito estrela de sorriso iluminado

A vovó costurava, sentada no banco do jardim.

Ela fez um sinal de mistério. Ele entendeu que não podia correr e gritar, pular e voar.

Era aquela cara que deixa curioso, uma cara daquelas que parece diferente de outras quando conta histórias. Seguindo o olhar da vovó ele entendeu e foi como um mago que anda sem fazer barulho.

Escondido atrás de sua capa ele se aproximou da vovó.

Então ele viu o sabiá carregando palha no bico. 

–               Ela come isso?

–               Querido, os sabiás estão construindo ninho.

–               Mas por que carrega no bico?

–               Os sabiás fazem ninho com o bico. É melhor, mais fácil de carregar, além disso o bico do sabiá ajuda a costurar.

Ele pensou: os sabiás são como a vovó, costuram no jardim.

–               Onde será que estão costurando?

A vovó, paciente, explicou que para saber deve-se ficar a ver aonde voam. 

E ficaram a ver as idas e vindas do passarinho. 

–               O ninho está no manacá.

–               Você sabia que o sabiá sabia assobiar?

O menino ria enquanto a vovó procurava o ninho.

–               Sabiá me ensina a voar.

O jardim ficou quieto. A vovó cochichou:

–               Está ouvindo algo diferente?

–               Sim, plic-plic-plic. O que é?

–               Estão costurando.

Descobriu-se no alto do pé de manacá ainda florido, o ninho do sabiá.

–               Veja, está ali onde costuram.

A vovó chegou perto. Abraçou o menino.

–               Onde?

–               Naquele galho.

Ele ficou muito empolgado e desejou ver de mais perto ainda. A vovó explicou que era muito alto, e estavam trabalhando na construção do ninho. 

–               A concentração dos sabiás no trabalho de fazer ninho costurado. 

–               Ainda mais que se espantariam, poderiam até partir, no momento que vissem um menino.

–               Por quê?

–               Os sabiás temem que sejam capturados e levados presos para uma gaiola.

–               Mas eu não vou prender, quero só ver como fazem o ninho, vó!

–               Sei disso, meu bem, acontece que faz muito tempo que as crianças, e os homens prendiam sabiás em gaiolas. 

–               Aprenderam a ter medo.

–               Sim, ensinou-se o medo. 

–               Devido a isso, não podemos nos aproximar muito, arriscamos que se mudem, que nunca mais façam ninho por aqui, que se transformem em super-heróis no planeta dos sabiás que é o manacá.

–               Bem, isso mesmo.

–               Eles têm medo das pessoas e é por isso que canta daquele jeito cansado e alegre e forte e fraquinho. 

–               É que o canto do sabiá é muito sentimental, ele canta com uma alegria tão grande, depois com aquela voz de saudades. 

O menino feliz deu aquela risada cheia de felicidades.

–               Voz de saudades não existe. Quer dizer, não existia, eu acho. 

–               A gente ouve a canção da tristeza e da alegria. quando o sabiá canta?

–               E saudades… Hein?

–               É bem assim, você falava com o papai, e ele acenou. Depois desejava vê-lo de novo, e ele não estava lá, saiu.

O menino ficou com aquela cara de mago que voa e é passarinho com jeito de estrela brilhante.

–               Cadê o papai, disse com aquela voz.

–               Veja só, essa é a voz de saudades.

O menino abriu as asas rindo.

–               Vó, não vale, você me pegou. Eu vi o papai na cozinha.

O vovô chegou, o papai também e sentaram-se os quatro no grande banco do caramanchão de Alá-manda.

Ficaram estáticos, quietos, ouvindo. Era a canção do fim de tarde.

–               E porque prendem os sabiás? 

Começou o papai:

–               Talvez por isso.

E o vovô continuou:

–               Quem sabe por aquilo.

E conversaram, e riram, tomaram café, e contaram histórias, sentados à mesa do jardim, e provaram o pão quente o leite.

Imitaram o  passarinho, e o menino, de repente, era um sabiá.

–               Sabe de uma coisa? Você é o menino sabiá, o menino que não tem medo de cantar sua alegria.

–               Eu sou assim, o papai deixou, e depois, fiquei mago, super-herói e estrela.

Deu um salto e saiu voando pelo jardim, assobiando.

E o avô o reconheceu quando passou por cima do telhado, quando desceu sobre um galho gordo do pinheiro, e, depois plantou bananeira no ar.  Foi tão incrível que todos lá de baixo não resistiram, gritaram: muito bem, e aplaudiram quando passou rasante sobre a horta.

– É um menino feliz esse meu neto.

Então, com sua risada de passarinho super-herói girou feito parafuso.

Desceu junto à mesa com sua capa de mago flamejante de vento do céu para provar o bolo, dizendo que estava cansado.

– Estava lindo o meu sabiá!

E novamente saiu voando no céu azul e dourado com sua capa de mago.

Enquanto voava, papai correu buscar o binóculos. E cada um olhava o céu imenso com aquele menino feliz com sua capa de mago flamejante de vento e de céu.

Quando a Estrela Vespertina apareceu pousou lentamente perto do manacá.

Voa de novo, disse o papai.

– Não posso, agora sou estrela.

E todos compreenderam.

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Publicado por

Pedro Moreira Nt

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Leia PÃO a história de compartilhar e afetividade.

Pedro Moreira Nt -PAO

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Sua Ausência

El candidato Taquito

– Sua Ausência, ele está aí.

– O Omisso

– Não.

– Quem?

– O Taquinho do Teco.

Ele se tornou vereador quando quis atirar com um 32 enferrujado num adversário político que o candidato anterior apoiava, aí o teco explodiu acertando um taquinho no condicionado. O apelido pegou.

O desconsiderado, um dos mais destacados na invisibilidade marginal do comum ficou à primeira vista indignado, como se pudesse ficar, permanecer. Seguiu o caminho obrigatório batendo os tacos e os tarecos.

Passado um tempo ele mudou o nome no registro das coisas válidas e se tornou Taquinho do Teco, ganhou a eleição.

Vez e outra ele apresenta seus cupinchas, todos com o risinho canino – que os deuses abençam – e mostra, impune o revolvinho quebrado.

Daí todo mundo ri, acha graça de tanta estupidez e aprova as leis que beneficiam o seu bolso.

O Taquinho do Teco é um dos mais eminentes ausentes da Câmara de Bernardo Ayres um dos caudilhos valorosos que eliminou os pobres a tijolada e mandou queimar as choças dos caboclos.

Às vezes é difícil mostrar ao público internacional qual a razão de tanta valoração de salários de tais e quais que se apresentam, não só na magistratura de campo de futebol quanto a dos informes políticos da onda.

Como vamos dizer aos que querem saber sobre a vida de Taquinho do Teco, eleito magistralmente na toga dos interesses?

-Sua Ausência, Sua Ausência!

-Quem em chama?

Alguém diz nada e se ausenta.

Impossível. Podemos dizer que trocaram os anúncios de entrada da biblioteca, que a escola fechou por falta de pagamento aos zeladores, e aos do giz, e também aos que recolhem papéis para guardar na cumbuca dos papéis. É difícil.

Mais a mais, deus ajuda quem cedo Madrugada indica. Madrugada é outro que foi convencido a ganhar a eleição outra vez, em outras paragens, porque ele acordava cedo para assaltar casas de vizinhos. Foi pego. O apelido pegou, depois de um mês de cana tentando se explicar. Madrugada, eleito.

Uma das mais importantes parentes de gente de bens da cidade foi eleita para o reinado eterno do inamovível ganho extra. Ela não ia às reuniões para não ser delatada por um caso que Omisso tentou explicar, mas que, por fim, se omitiu devido a um ganho extra que surgiu repentinamente. O Taquinho do Teco fez um escândalo porque, Coitado, recebeu e ele não.

Coitado, um nome bem pronunciado entre os que amam a lealdade continua no governo, ele é líder do governo na Câmara. Chamam-no assim porque os lobistas, que desejam apoios financeiros de valor enchem-no de cartas, anúncios, e reuniões sem-fim para que ele consiga demover os parceiros, pares, a mudar uma lei, sancionar outra, ajustar um decreto para que o povo tire os olhos de outro, o coitado do Coitado recebe esses embrulhos e vai catando voto até conseguir.

Vote em Coitado. Não da outra, até mesmo quem é contra ele vota nele porque, afinal, o sujeito não faz nada, é um coitado. Votam por pena e ele devolve na pena beneficiando uns correligionários que vasculham a vida da redondeza onde está o seu canil eleitoral, – antes era trincheira, depois bairro, em seguida era piquete eleitoral ( quando foi da esquerda), conhecido como curral eleitoral. 

E sempre dizia entre amigos, inclusive amigos amigos da imprensa, antes de se tornar jornal virtual.

– Voto para mim tem de ser na amarração, no cabresto.

Um que se saiu bem como cabo eleitoral chegou a tenente eleitoral designando uma tropa imensa de coitadinhos a votar em Coitado. Venceu.

Mas o Taquinho do Teco, um dos pro-eminentes a Deputado Federal está a caminho do tapete vermelho. E se faltar quem não lhe dê atenção ele mostra o seu brinquedo.

Como diz o Omisso: O misão impossível de impedir.

Impedimento perdeu a candidatura porque foi mau juiz no jogo de futebol quando, sabe-se lá qual razão, resolveu fazer um time só de Assessores Parlamentares. Foi uma pauleira desgranhada. Saiu da vereança para tocar um bar que funciona no apito. Abre, toca o apito; fecha, toca o apito. Bar do Apito – Impedimento mudou de nome.

O Taquinho do Teco sempre passa lá apenas para averiguar se anda tudo bem, se necessita fechar a rua, abrir um estacionamento, fazer uma reforma estrutural, coisa assim. Entra brandindo o prateado e todo mundo fica calado, o Taquinho do Teco, um sujeito extremamente baixo nas coronárias sempre o visita. O motivo é que Apito – ex Impedimento -, sempre lhe apontava quem era quem e quem não era ninguém.

Amizade é para isso.

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Conheça Diferença

A história de encontro entre uma dama e mendiga.

Leia um pouco, começa assim: 

https://read.barnesandnoble.com/book/diferenca/diferenca#3

Prolixo e Letal

Para Caio Antunes

Velho Estirge de minhas tempestades

Velho Estirge de minhas tempestades cavando a vau, arrastando Odisseu. Se soubesse quanto tece Penélope os traços de sua passagem. Se ao menos houvesse nele o que o Lete lhe entrega de rugido e esquecimento. Não sofreria um instante de sua loucura cômica, nem diria o que disse a Polifemo, nem embalaria Circe em sua memória, e jamais entraria no mundo de Hades de seus pensamentos, nem mesmo entregaria ao toque a sua pele manchada de sangue à Calipso, por ser em si a beleza e o terror de sete anos. E em tudo navega e Minemosine o apresenta exaltado. A fúria que vem da paixão e desejo. Fecha os teus ouvidos, abre os teus olhos e grita. Passa adiante do impossível. Trabalha o mar, arrebenta o óbvio, joga à areia as perdidas horas, os fracassos dos que permanecem, dos que retornam em destroços.

Vem ao Lete e bebe de sua água, o claustro amigo dos habitantes de si mesmos. É o seu trabalho de escravo, segue a ordem dos desmandos, correnteza abaixo, de si esquecimento, desmedida fonte de eterna perda.

Lete, o rio do esquecimento pode nos levar ao estuário do eterno esquecimento. Esquecer como a dizer que segue no esquecimento. Não lembrar, no logos ou no movimento do rio parece denotar um processo contínuo de impossível vida. Difere do rio Estirge, de morte totalmente explícita como passagem ao outro lado. É todo contrário à loucura da eterna lembrança de Minemosine. 

No caso desse esquecer é diferente. Suavemente vai se esquecendo, retirando de todos nós o significado da vida. Não é gradual porque como rio, se faz fluente. Corrente encadeada do que se perde a todo tempo. Perder sem meta, perder sem concorrer ou competir.

É a perda da consistência do pensar, um pensar que se desmembra que tecnifica, que é de alguma maneira modificada para a repetição, retorna sobre si mesmo. Hábito de fazer e refazer, de atuar até a perda completa do sentido que se possa dar um pensamento retomado.

Não volta, desce o rio Lete, levando consigo os entulhos do conhecimento que atrapalham a técnica, e que constituem o conjunto intrincado da tecnologia.

Repetição é algo randomizado em que o esquecer é a ordem. Esquecer do quê? Da moral, dos valores humanos, das decisões que a palavra doma, que o pensar se materializa, que ajusta a uma unidade, de singularidade que se expressa, de singular de existência social. Não há ética quando o processo do esquecimento se realiza. Desmancha-se nas águas do Lete.

Esse Lete retomado aqui é um Lete diferente do tradicional mítico, ele está mais afortunado, mais ampliado. Suas margens conferem barrancos imensos, e é profundo em sua rasura de saberes, o rio não recupera nada perdido. Constituíído de forma maquinal o Lete segue corporificado os que desaparecem. Ele mói, arrasta, retira da pele do significado o couro dos sentidos possíveis, retira a possibilidade enquanto mudança de trajetória. 

Engole as almas das palavras jamais pronunciadas, constrói ausências em perdições. Por isso é letal, fere a vida, atua no torvelinho da moenda das águas. Não se sabe o que se faz, mas se realiza o tempo todo no caminho da insanidade completa.

O belíssimo e intangível Lete é imemorial. Morre quando nasce e vive no morticínio, uma morte em vida, recomeçada no ato.

O Lete se espraia, arrasa as reminiscências, desagua sobre si mesmo as vidas aquosas, e freme, e se levanta em ondas terríveis onde o mundo ordinário se constitui, em duplicidade. Tira tudo, lava, enxágua a inteireza do singular, desmonta a identidade dos que mergulham nele para seguirem à nudez ultrajante da história jamais contada, dos que desaparecem, dos que somem no sumidouro.

O grande fator amoroso do Lete é justamente provocar o insondável. Tudo nele é de pura verdade letal. De morte grandiloquente e indigna, mas jamais percebida. E depois de molhar, afogar, em seu debater constante, o Lete ainda faz mais, e com mais precisão cirúrgica, tira dos seus nadadores, dos que bóiam em seu leito, não apenas as lembranças de humanidade, retira a incerteza, a dúvida, o questionamento e a vontade que é a cola da integridade. Por isso é amor, naquele sentido exato de quem ama, que se esquece tudo o mais para o amor amado.

Lete maravilhoso que faz com que todos se reproduzam, aumente a prole, aumente os números dos mais belos mortos-vivos, isso quando entram em suas águas, quando são levados à benção que diz, que o passado vivido, as vivências de toda memória está agora nas ondas dessas águas extremas, agulhas doces, mansas e deletérias. Cravando no ser o que é impossível. Mais e mais corpos flutuam na calma sensível do Lete que corrói como ácido açucarado toda a dignidade. E se pode dançar de um lado a outro como se estivesse em uma festa em que tudo o mais não interessa.

Sabe, sinto que é emocionante ver o trabalho de Lete. Ele nos abraça com o calor úmido de sua eterna vaga, distensiona as nossas angústias, retira de nós a ansiedade, e come o medo e todas as mais trágicas incertezas. Podemos mais gostar dele, sentir que logo mais não sentiremos nada, e que tudo que pensamos ser se desata, submerge, desanda em suas águas.

Vamos aos poucos vencendo a vergonha de sermos tantos. Sai de nós aquelas gentes, aquelas coisas falantes, aqueles momentos eletrizantes, as dores que nos cobria a tristeza, o sofrimento, e assim o Lete faz a individuação. Lete lento e constante mata a alegria, porém, que interessante é, nos dá a quietude de sábios, e voltamos de suas profundezas limpos de dúvidas, e nos tornamos integralmente nós mesmos feitos de si-mesmos. E nos manifestamos e nos expressamos com indiferença.

Esquece tudo e vamos, siga o manual: “Let’s go!”

Em prol de Lete que tanto produz em sua constante reprodutibilidade o certo coeso do óbvio, do que é e está à frente, e em todos os lados. O Lete nos faz únicos, focados e definitivos. Pro-lete, a favor de sua única verdade de criador magnífico da individualidade. O

Lete amassou a massa, escavou o íntimo. Sem pensar, sem ponderar e sem mais nada. O lixo das misérias humanas ele acolhe com o carinho necessário, retirando qualquer dubiedade e ninguém nele sofre. Em prol de retirar o lixo, prolixo, para o Lete aplicado no sistema de lavação.

A imundície trágica do interrogar, de perquirir, do buscar Qualquer resposta é completamente filtrada.

A técnica e a tecnologia do Lete é insuperável, a ciência que atua direto no objeto, e toma dela toda a falácia, e completo sofismo, e faz alguém íntegro de vazios, sem erros, obediente, medido, capacitado.

Ele nos banha tirando as arestas, perfeito design de perfil, instrumentais e apostilados, totalmente em pedaços válidos e úteis, de utilidade preenchida com a função inscrita desde o original pecado cravado na testa.

A marca, o desenho da dança, o traço, o risco que planifica a peça que cabe, correta engrenagem.

A prole que será higienizada aguarda o seu momento. Será homogeneizada, uniformizada, numerada e ajustada. Proletário sonho de verdades, realidade de águas do tempo, sem história, sem sociedade, e, sem dúvida, com a benção letal do esquecimento. É realmente prolixo.

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Conheça o autor:

https://read.barnesandnoble.com/book

/frente-ao-espelho/titlepage#1

Um bife:

“Serei um desencanto, um lixo vulgar, aquela  mendiga, aquela pessoa que não ama porque não se possui. Riquíssima, e andarei como na tradição, desviarei das merdas no caminho (anda) ao modo de dama inglesa, desviando do coco, caminhando sobre o fio elétrico no descampado da existência sem esperanças. […]

[…] Mas sou velha como esse vestíbulo. Esse vidro sem alma. Há uma fresta, um buraco no aço (toca o espelho) ausente de todo ausente. Não há crença e alento, mal se vê a lua, o céu, e nem se acredita em estrelas.

O tempo uma distância que cai sobre o passado. Pouco sabe o que são as passagens tristes das nuvens e suas esculturas, não se joga no azul infinito. Piso a terra firme desse mar de vermes que sinto que me devoram.”

Pedro Moreira Nt

Https://bit.ly/2rj8zki

Mar de vida alena


Mar de vida alena

bate em mim espumas de perdidas almas

vai em mim o que jamais perdido

Vaga silencio

pensar a partida

risco das incertezas

canta o mar

dentro o sal das horas

Jamais olhar para trás

águas em rebuliços areias movidas

profundidades e lidas

embala e traz ao peito

espumas serenas

longe de vidas amenas

Jejene

Casa que o cão cuida, o ladrão entrou e jejene , antes de morrer rasgou a carne deste bandido e encheu de larvas.
Casa que o cão cuida, o ladrão entrou e jejene , antes de morrer rasgou a carne deste bandido e encheu de larvas.

O cão deu a volta. Jejene tocou a vidraça, e os olhos duvidosos de um susto antecipado, o cão seguia jejene a se debater na transparência. Atenção desejada. Raspou um ganido de dentes guardados. Abriu, a criança triste, a porta pesada vibrando a cola. Entrou atenta, despachada, seguiu Jejene até a cozinha feito da vontade. A criança manchada de luz, um cometa incansável a ouvir a melodia alada de jejeje.

Nada a desperdiçar, seguia o zumbido de jejene. A mosca bailava sobre pratos. Os olhos escondendo furtiva estratégia. Ninguém perceberia a má vontade, descaso, o gosto que não possuía. O cão desistiu da caçada. Cheiro forte de suor oleoso. Encontrou um tipo estragado dentro de casa. Jejene apresentou o pegajoso, aquela febre.

Atento ao rejeito, abaixou as patas e se afastou do demônio em busca de ar.

O estranho arrastou a garrafa térmica onde jejene pousava. Ela enterrou ovos da larva na fria pele. Ele arrastou o copo sujo e bebeu frio com olhos inclinados, ainda enguiçados. Jejene festejava a picada, os ovos de tapuru, o berne. Fugiu das palmas venenosas e se despachou à mesa. Inseto exausto no banquete.

Os dentes se puseram fora, o cão se mexeu para a caça. Antes de rasgar os veios do batente, o diabo conseguiu fechar a entrada.

Fora, o cão avisava o ladrão, esticava as orelhas, eriçava os pelos. O germe sem nenhuma verdade no corpo, era nada, sempre o mesmo, enfiando os dedos no pudim guardado, empurrava o que não brilhava, cuspia uma nódoa escura. Seguia a querer qualquer coisa.

Coçava a ferida onde viviam os ovos de jejene. A magreza da carne corrompida, a bicheira arrumava um volume, enfiava o que achava. Tinha hálito de lixo guardado.

Algo reciclável, fedendo a rótulos e plásticos de falsos tambores desafinados. Alma sem pulso. E dizia o silêncio da carne apodrecida: Vim aqui para te enganar, para te enterrar.

Era empresário de organização de governo a limitar a bondade, impedir a criatividade. Amigo de chefe. Obediente no arreio, marcada a boca no freio. Vendia miséria, repetição. Sem voz, gemia. Roubava por militância, para não perder o crime, o seu emprego.

O jeitinho do esperto, o truque, esquema, a malandragem. A fagocitose da ameba envolvendo a geladeira, as coisas, engasgando o salgado catarro de enganosas intenções com as fezes de amistosos ardis. É a trama, o tecido.

A casa aberta do mau governo. Um veio, outro, e mais aquele sem nome que deu na cica.

Gentilezas impossíveis. Desconhecidas palavras, mortas para os que não sonham.

Fogo nas cinzas da bondade, descansada voz silábica. Ele abanou o rosto manchado com a unha fina e suja do dedo mindinho. A risada sádica do invasor desejo enlouquecido de ser ferido, de sentir ao menos o amor no medo, vida dilacerada.

Antraz de pus suculento, amargo olor, doce ácido viral escorre a baba risonha de muco transparente.

Castigado, amarrado; o surrado e usado muito. Segue ao mando. Alguma carne esponjosa atrás de si. Calada miséria. Abre gavetas, levanta papéis, furta uma caneta senta à beira aquela alma sem eira.Vomita o riso encardido, balança a sobra, raspa o prato. Faz tanto carnaval jenene, morre na pata do cão machucado.

A eumida, a varejeira da cocheira. Voeja azulada, esverdeada e prata amarelada, jejene planta o verme, beija a cara do bandido.
O cão foge da carniça azeda. Vai fora, e se prepara. Entra lento e pesado.
O cão mata a bicha, rompem as asas. Acua o mau-tratado. Grunhe e ataca com os dentes de estaca. Um grito; um riso.
A casa está quieta, a larva viva permanece, tece a morte.
Ladra o cão.