Entro de saída

Jacutinga no quintal

À janela aberta

o vulto caminha dentro da tarde

eu vejo o que lá não está

e é por isso que está lá o não visto

o que não se encontra é bem razoável

E se há horizontes após a fornalha das horas

eu o toco junto à parede

Sinto capaz de entender que não construo nada

encerrado nos quatros espaços distantes

-as linhas que demarcam o território da existência

Pego com as mãos o ar feito pipoca

mastigo o vazio preenchido de si mesmo

Como uma tela que o filme cansa de rodar e resolve existir naturalmente

não imagino nada em absoluto

como a inventar o tempo escondido entre as árvores

Dorme a balançar na rede o seu pesado corpo inexistente

o jardim detrás tem a profundidade que o infinito não ousa manifestar

no gramado estrelado de céu noturno

as sete sangrias se fecham

o dente-de-leão solta seus para-quedas

cai uma folha

chamada a impossível

única e pesada como um tombo

desce vertiginosa e se estatela na pedra da calçada

Ninguém entre o acaso sintomático dessa espiral

pediu que se jogasse

e veio repentino estrago desnudando o dia

ouço o baque como um estalo

aviso da aroeira

Peço licença para olhar

Sei que a nudez noturna não tem sombra

O jacarandá mimoso caminha

A vizinhança de olhos duros

pregados no açoite das vontades interditas

Um rabo de vista sussurra sobre o muro

o limoeiro joga o seu perfume e fogem os fantasmas

Entro em meio aos galhos

ouço o espírito

a coruja risca o alto e o baixo corre

ri como que chutasse algum sentido

A serra-serra entupida de trepadeiras chacoalha as preguiças

enterradas no tronco

o jacu me olha com desfeita

É longo isso tudo e perto demais que dá medo

vi asas de anjos e também estrelas vagando

rasga o vento as pronúncias

as ditas falas

sobra nada de tudo que se vive encostado

achas crispadas de fogueiras dormidas

ali soou um violão e agora arame de roupas

o bambu grunhe e faz flauta

morrer a vida toda desperta aquecida paz de barranco

Corre arroio entre os meus pés

salta o piau ou é tambiú ou saicanga ou cará que não é traíra

no bosque desce o ribeiro forte

faz cachoeira

cobras travessadas feito tricô

por causa da lua elas dançam

Entro no capim

piou o tico-tico

as saracuras convencem de uma vez por toda

e o silêncio grita

chega à lamparina o vozerio baixo de cumprimentos

sobe o café e pão quente

doce de forno

cauda de piano no ouvido

nem pregunta nem resposta

digo à todo mundo que já vou

Distância

E me deu a mão assim mesmo

Caminhamos sobre o tombo,- o previsível.

Caí.

Tive tanta esperança!

Procurei um grito.

Garganta engolida em outra língua.

Pedi.

Alguém, pudesse ser um desconhecido.

Fosse o mesmo desafortunado viandante.

Que ele pudesse rir, apontar ou demonstrar ao menos a falha.

Carregar comigo do chão o buraco em que se vai.

E cuspisse ou xingasse.

Visse em minha desgraça um pouco de sua terna alegria.

E nada.

Ela me ajudou, agradeci.

Ela me ajudou sem espanto.

Um ato.

A fonte imediata de humanidade.

Se passasse ali o que em mim tão vivo resplandece

Visse o estatelado.

Ousasse ao menos um escárnio.

Nada além das figuras de linguagem apropriada

Sentidos prontos para o momento

Atentos e compassivos

Quase esticados

Chamariam ajuda, atentariam ao osso quebrado.

Então, despertei.

Mal comigo mesmo.

Entristecido.

Com dor por dentro.

Dor de alma levada.

E fui a me levantar desatento das cobertas frias.

Um homem sem eco é aquele que está longe de casa.

pmnt

Prego

Há muito significado no prego. Talvez estejam lá à venda, ou que saiu do estoque. Algum antigo mercador no pregão diário está por aí a ajuntar os pregos da vida e a revendê-los. Prego quer dizer um bife parecido com a sola de sapatos, que usa pregos, pequenas tachas, duro e difícil de consumir. Quando estiver exausto, cansado, quando enfim, no prego, poderá entender. Prego de empregar isso e aquilo para o trabalho, fazer pregas na costura, de pregar mesmo, e apregoar, de pregar naquele sentido transcendental, no pendurar tem prego e outros empregos podemos dar àquilo que é estar cansado. O prego sustenta em um querer fazer sem fazê-lo de preguiça.

Sustenta porque comendo aquilo tudo é possível sobreviver. Ele sustenta a família, o carro, sustenta o banco e os juros; são ou não sustentáveis tais condições das bolsas, inclusive alguém sustenta a bolsa no sentido de carregar pendurado. 

E pendurado tem mais coisa ainda: veja que pendurado é o sujeito que está no prego e é insustentável; quer-se dizer que aquele cara tem altas dívidas e acabou cedendo ao banco depositário fiel aquilo que acreditava suster, mas que incondicionalmente o deixou endividado. Endividado!

Impossível de dividir, ou mal dividido, ou mal resolvido, sem grana, sem meios – impossível de realizar a operação da divisão -, sem resolução cabível.

Aliás cabo, pedaço de terra, mar à costa, cumprimento que atinge um objetivo evidente, no caso água do mar, o sujeito que dá as ordens imediatas à seu subalterno, aquilo que faz papel de alavanca, faz mover algo dependente de uma ação – no caso o cabo da enxada -, dando cabo ao assunto, capaz de executar, realizar, definir, terminar, um apêndice, que é parte, pedaço de algo que foi dividido, coisa que veio de uma divisão militar por exemplo, e aí vem cabotino, repetitivo, cumpridor de tarefas, refreado, diferente de encabado, que quer dizer preso à uma circunstância, preparado, destituído também de outra possibilidade, que não vai adiante.

Adiantar, ante a todos os problemas, o melhor é seguir. Quer dizer, ao andar no tempo, fazer a vida, ver o dia novamente, atentar ao dia, seguir passo-a-passo, tomar caminho, confiar, ser esperto, oportunista, tomar lugar, reavaliar as condições com rapidez, ‘meritoso’; está adiantado, superior, acima das condições propositadas, faminto, expedito, laborioso. 

Labora, segue até ficar no bora, isto é, vermelho, cansado, exausto. Elabora, gasta energia, transpira e se coa em realizar essa lida. 

Por isso lídimos são os que que por lidarem tanto, realizam a lide. O que faz ou é resultante da lida, por isso se dá liderança aos que lideram. Aos que sabem trabalhar a situação de produzir algo, a mercadoria.

Seja idéia ou produto material. A coisa mercadoria tem muito a ver com transações monetárias. Os assuntos mercadológicos. Escambo, troca, a mediação, uma espécie de política de mercadores de tralhas que vendem vidas. E morrem a quererem ser o tempo e jamais lídimos por não cavarem de suas próprias mãos a vida, mas a morte a má sorte dos desvalidos, nós.

E nós é isso mesmo, vários nós na corda como que um contínuo, uma tripa. Uma coisa sobretudo amarrada, enlaçada em si mesma que faz o coração, a dizer das tripas, o coração. A vida humana feita disso, de uma mercadoria enosada que podemos lidar para destrinçar.

Esse nós que é feito do nó, do arrocho que nos unem e nos despedaça.

Aí é o seguinte: lareira, lar, labareda, lábaro.Labor (trabalho), energia gasta para um fim adiantado em si mesmo para ser dividido a todos o alimento que a cabo conseguiu laboriosamente porque o fogo interior, a centelha conhecida entrega de semideus, oferenda roubada, a luz o esclareceu e o fez  melhor.Tornou-se caminho a ser iluminado a aquecer pessoas que pregoaram esse desejo de luminescência.

Bom é um negócio de ‘lumen’, você entende.

E negócio nada mais é que negar o mais importante (que nem mesmo precisa de luz (fialho) ou filho de luz, ou centelha), o ócio e isso é algo incrível no espreguiçamento. Mas negar tem uma raiz ao negro, ao africano.Tenho a impressão que negativo carrega a beleza de não fazer que parece ser ‘pregável’ ao sentido mais ilustrativo possível de que a desobediência é o ato da liberdade garantida, e negar-se é ao menos, no mínimo paz, descanso, alegria que não se tira de ninguém, mesmo na submissão aos que não param, negociam, fazem tratos e tratados, doutrinam a quietude e o bem estar a um eterno movimento imposto.

O ócio mostra um reconhecimento de si ao que não mais necessita realizar.Vender o descanso, o estado natural de vida dormitada, sonhada, desejada, de entregue a si mesmo é a negociação.

Como que tudo estando em movimento exigisse a todos, os que estejam assim, por serem assim jogado à roda de Shiva, ao tempo dançarino na roda viva se metessem a querer alcançar os deuses para lhes tomar as distâncias, os futuros para o enriquecimento de quem os manda.Mão a dar-nos porrada.

Vendem o mais precioso rico que somos, o que realmente temos – porque nos perdemos no tempo guiados ao indefinido -, a felicidade de não fazer.

E se deita ao tempo que indefinidamente segue na carruagem ao lugar do jamais feito e conhecido, que nos dá a surpresa da vida.Despregados dos infelizes, libertinos em nossos prazeres, jogados além e na certeza da nulidade do açoite.Um instante de nossa eternidade chacoleja à brida de Krishna.

Sem nos pôr nada às ancas, sem nos escancarar, porque longe de tudo está o que não é presente.

O imediato insustentável só existe na abstração.

É desse despejo de tralhas que se ajuntam e se amaldiçoa os deuses, elas todas feitas das canções da labuta. A materialização do não-ser, do não-trabalho em se perder o tempo.

Do intervalo do trabalho querem que trabalhemos pregando obrigações, ética da obediência, de subserviência. Querem nos encantar com o lixo de suas histórias à subsunção, em nos coisificar à venda do tempo a nos despejar para pregar a vida na tábua de suas fortunas.

Atenta-se aos deuses esses coitados, do coito da sobrecarga, da mais valia, do pedaço em pedaço tornando o lazer a visita às lojas, onde assistimos boquiabertos as nossas perdas. Ali estão vistosos o descanso morto.

Coisados, coisificados, um treco a tareco qualquer se desgastam para sermos tais coisas.

‘Coisos’ ‘coisentos’ se cosem às meias do tempo ao cozer os dedos na panela de pressão das coisas mesmas, e que negamos, desobedecemos em nossa negritude de completa liberdade aos amos. Sem amos somos e menos pregáveis podemos ser nesse cozido da vida.

Meu pai era negro da cor da sombra escura com esmaltes laqueados e de riso amoroso que poucos tiveram, de bondade encantadora. Ele nunca soube disso. Nós não, éramos pregados no éter, coisa diáfana, transparente, leites escorridos, coalhada e vômito. Naturalmente filhos de um vizinho ou algum vendedor de verduras ou sei lá. Minha mãe era sardenta como areia e sal no vidro. Ela adorava fazer coisas erradas que certamente fazia por vingança. Vamos ao cinema? Hoje não dá. Pulava o muro alto da vizinhança e resolvia o filme.

Meu pai sempre, desde sempre amou seus filhos postiços. Ponto. Ele nunca nos surrava, nunca nos batia a cabeça à porta, nem jogava garfos em nossa garganta na hora do jantar quando perguntava sobre o boletim escolar. E nos levava ao jogo, ao parque de diversões e lia trechos magníficos de um cancioneiro popular com rima torta. Era algo além do comum. Era tipo, um tipo que me foge, tipo pai, é isso. Ele foi e sempre será o cara da minha vida, meu pai. Sensacional. A minha mãe, bem ela diferente, andava feito clara de ovo. Não se podia discordar. Nós dizíamos sim, sim, sim. Nos lavava no álcool com água morna, queria nos tirar qualquer possibilidade da tísica, do sarampo. Ela escovava a pele até o vermelhão. A gente a adorava porque cantava canções amáveis. E, sério, amava papai. Cuidava dele, fazia os seus gostos. Ele, como disse antes, às vezes deixava estar e ela corria à rua pelada. Ele ia ao seu encontro daquele jeito rápido e pertinaz, a enrolava em uma coberta e a trazia amorosamente para casa. Cuidava dela como de um bibelo, com doçura e paciência. Quando ficou idosa e lembrava apenas do passado ele a ajudava, trocava fraldas, lia horas sem fim ao seu lado as histórias que amava. E se foi. Ele, de súbito quando voltava da várzea.

Pregado ao amor, ao desespero de amar e viver o nosso grupo se amontoava. E a vida de ser rebatido, de ferir a cabeça para enterrar o ferro por qualquer razão crescia no bairro até chegar ao fim do mundo. São deveres cravados, direitos enfiados no veio. E quem vive de direitos pouco se sabe se a nós os deveres se fazem no prego.

Estado que nos come a fazer pregas de nossa idade. Pró régio, prévio e dito de um rei que nos invade o tempo. E a tirar, em fitas de laço duro, prego, a vida no chicote da comparação estúpida que faz a doutrina, o direito no esquerdo que lhes dá a mesma medida da batida, em ferir a possibilidade de alegria.

Só rimos do cinismo, da piada má. Identificamos toda essa parafernália na idiotia de risos porque nos vemos, os que são retirados da carruagem de Vishnu.

Ainda que siga a arte, a criatividade absurda e intempestiva de Krishna, nós, os Arjunas somos arremessados no turbilhão da guerra. Matamos os nossos irmãos, aqueles que são chamados nós mesmos.

Queria ter sido como meu pai. Eu me esforcei para isso. Lutei contra o couro rígido da pena e do medo. Ninguém ousou dizer: ele não é filho dele. Todos o viam com o respeito e seriedade de um homem preso na cruz de toda uma vida amada.

As frases inatas

Retornamos sobre nós mesmos a descobrir que o distante é perto, e o que colhemos pelos caminhos são lindas meias-verdades. O quanto pode ser pequeno o que possuímos, sentados sobre nós mesmos, sentados sobre o fardo comum descobrimos que caminhamos o universo imenso mas o que temos de tão pequeno é a beleza puljente das verdades verdadeiras.

Pegou a mais bela pasta e se encaminhou para a reunião de apresentação de seu projeto. Notou naquele momento que havia trocado, que na pasta estava o rabisco maluco de um plano. Mas era tarde, aquela mulher séria, carrancuda com um lápis vermelho nas mãos, pronta para marcar o que não interessava olhou com a cara de espanto.

Era o fracasso, o tempo jogado no lixo. O que podia fazer era ser polido, levantar-se, fazer alguma menção de desculpas, algo como: entrei no gabinete errado. 

No momento em que se precipitava a dar no pé, no exato instante em que se apoio na cadeira para fazer o giro triunfal de perdi, mas ainda tenho equilíbrio. Foi que bateu a canela na base da escrivaninha e o copo de água que fora servido em um cálice jatado caiu. 

O horror de ver que ia virar uma tragédia sem precedentes fez a inércia e saltou e pegou o copo. Parece que mais que esquecer foi o desequilíbrio obrigatório para alcançar a taça antes que espatifasse. 

Piorou, pensou por alguns segundos antes de se erguer. Ainda mais, muito mais foi descoberto que a gerente com aquela cara de aço inoxidável estava descalça, que do lado da cadeira de rodinhas tinha um cachorro do tipo dinamarquês que olhou para cara dele abrindo a boca. 

Tonto, ergueu-se com cautela e bateu suavemente o rosto na quina que fez cair o óculos que tentou segurar que derrubou o copo e que, por fim, segurou pelas pernas. O mais chato, eu acho foi que buscou sentar e a cadeira de rodinhas rolou e desabou. Dessa vez pensou. O azar deve ser isso. Nem terminou de concluir sua análise do caos o bicho veio em sua direção, gigante, malhado, franzido, e lambeu a sua cara. Morri, perdi a oportunidade da minha vida, estraguei tudo e agora serei devorado por esse monstro.

Viu o rosto da moça surgir por cima do tampão. Ela o olhava com um jeito tão absurdo que não mais sabia o que dizer, pensar.

Gostei, vi que já são amigos. E é isso mesmo que eu preciso. Adorei que não me trouxe um projeto tradicional. Com o jeito que você estava, até imaginei o óbvio, mas vi que tem mais que esqueleto polido aqui, tem vida. Começa amanhã, vamos mostrar o atelier que é aqui do lado. 

Saiu de trás da mesa com uma sapatilha, chutou os cacos de vidro, passou do seu lado como se nada estive acontecido e acontecendo com os novos amigos enrolados no carpete. Por fim levantou-se, e o mundo inteiro destroçado se ajeitou, e mesmo não se importou com a marca que a água deixou da barriga ao s joelhos, e cumprindo o desígnio de um amigo cão, o abraçou ternamente antes de entrar no mundo real de seus sonhos.

Se a vida fosse um laboratório nós teríamos experiências, provado os nossos mistérios e os feito uma realidade consistente com testes realizados.[1]  

A experiência adquirida, como se diz, provém dos acontecimentos fortuitos, dos achados, de encontros, e, em geral acontecem nos lugares mais inauditos, fora de questão a nos provocar a vibração interna que, como um vulcão faz possamos dar os nossos  gritos de eureka[2].Para não passar por uma situação tal como se conta do autor do grito, a minha sugestão é se utilizar de papéis de anotação, aproveitar um meio tempo livre e rabiscar, marcar  o que vem à cabeça.

O cérebro adora vadiar como diz Clementina de Jesus. Quer ficar tranquilo, mas está o tempo todo alerta, mobilizando imagens, provocando gostos, vontades, levando a gente para a confeitaria, para um passeio, para deixar para depois o compromisso que temos. 

Para educar o cérebro, nada melhor que fazer com ele o que ele faz com a gente: bagunçar a vida cerebral, tirar do sério – que para ele é festa -, e pode ser mesmo criação de fantasmas, de insegurança, baixo autoestima ou o seu contrário como se deu com Mozart que vivia radiante, festivo, estonteante e esquecia de comer, de tomar água, de se proteger obrigando a amigos implorarem para que fosse descansar, e a sua Constança, esposa tão amada o ajudasse-a comer.[3]

A Pedagogia do Sensível possibilita que o imaginário seja incrementado em um sistema de relações entre saberes, sejam qual forem, a promover a percepção, reconhecer os índices que se apresentam a serem interpretadas e representadas em seu referencial através do qual pôde capturar, e mesmo conceber significados, a um estado crítico[4], em que se manifestam como sentidos, e a produzirem um mapa estruturado do circuito que realizou, estruturando de forma interna, subjetiva, do que planifica e possa projetar ao mundo exterior como recompensa humana a serem colocados nas relações, válidos ou não, retomados à sua maneira, o conhecimento.


[1]Os livos de Nassim Nicholas Taleb trata disso, de um conformismo treinado desde que despertamos. Vemos os eventos acontecerem com a certeza de que está na cara, e nem imaginamos que há probalidades que se relacionam, Segundo o autor, entre 90% e 10%.  

[2]O grito de Eureca veio da descoberta  da relação massa de um metal, no caso ouro em relação ao volume de água. A grande descoberta veio no momento em que Arquimedes tomava o seu banho. E conta a historia que saiu da banheira para a rua gritando descobri, eureca (Grg.).  Tamanho foi a sua surpresa.

2 Stendhal escreveu um dos mais belos livros, “A Vida de Mozart”, e há um outro, que bem traduz esse encantamento, “A Viagem de Mozart a Praga” de 

4. A crítica é como uma onda que chega ao seu ápice, que sem como retornar, sabe-se que se esparge, desambígua-se das águas volúveis do pensamento, do que a levou ser onda. E a planear ao plano de sua trajetória, em toda sua extensão de tamanho, forma, peso, em todas as suas dimensões e força a se direcionar, levado, precipitado, em sua manifestação,  em sua inteireza de onda do mar que quebra qualquer outra possibilidade a ser conhecimento projetado, de saber à terra. 

Rio verde de olhos claros

E se espera que conversem as palavras, e desçam o rio para encontrar outras, em ondas de devaneio. pmnt

Conheço isso aqui na peneira. Do lado de lá tinha um poço. Caiu muita gente no poço, ninguém morreu.

As pessoas sabiam que tinha o tal poço, mas ninguém se dava conta.

Em cima do morro, onde a tarde vai embora, o Volnei colocou uma antena de rádio. Isso era no tempo meio antigo. Ninguém sabe com quem falava, vivia no câmbio, falava e dizia câmbio.

E daquele lado, onde o sol nasce havia uma costureira que salvou muita gente com espinhela caída.

Micalina Gruse costurava o corpo, pegava um pano branco e à distância. 

As vacas girolandas vinham mamar essa água num raso perto da fonte. A Carmelinha aparecia para buscar ao meio do final de tarde. Ela trazia um embornal quarado com um litro de café tapado no sabugo, um pano branco com nós, um lanche amarrado, uma linha enrolada no osso, um atio com espigas verde e livros. Deitava ao lado da pedra e jogava a linha no rio, fazia a espera, enfiava o osso na terra, mordia lenta as roscas, emborcava o café frio, e lia solta no ar que nem pandorga.

– Car, Car!

– Quieta! Carmelinha gritava baixo com a voz raspada e vibrante

– Car, você está aqui!

– Na casa da mãe que não.

Vez e outra, a gente via, ela se esticava lépida e trazia um peixe rindo que só, embrulhava em folhas de taioba e voltava às palavras. Quando o lampião da varanda acendia, ela chamava as criações que vinham batendo os cincerros, batia o vestido, ajuntava as tralhas e seguia para casa. No inverno, no tempo das geadas Carmelinha ajudava no corte do capim para o gado, mas não deixava de descer para junto do rio, do alagado. Passava das horas, a gente sabia que ela estava lá do jeito dela porque havia ao lado da pedra alta um braseiro que ela cuidava.

Um dia vi um morcego, o tal Naldo que se aproximou dela como quem viu nada.

Eu primeiro me espantei, depois vi o canhestro subir a serra. Ela lhe deu de rabo de tatu e ergueu a garrucha. Nunca mais apareceu. Parava na rua e dizia ‘boas tardes dona Carmela’, ela nem erguia os olhos. 

Ela foi direto para o Colégio Agrícola e depois fez aqueles estudos demorados por causa de uma bolsa que recebeu. Até viajou para outras línguas nesses troços que Deus faz andar no ar. Voltou de calça e bota fina, vermelho na boca, cabelo amarrado, chapéu de um bico só, camisa de moça feita, e um jaleco enfeitado.

A casa estava arrumada, os cantos da roça limpos, o curral cuidado. O Ernesto se despediu do mundo um ano e meio antes que dona Carmela pusesse os pés em casa. Ela gostava muito dele, aquele pai quieto e mantido na reta. Ia para a cidade e voltava com livros. Nos domingo iam à missa para ouvir o Repolio, chamavam o padre de Seu Repolho, um sujeito enrolado nas palavras e lento na oração.

Diz que chorou muito que o pai se foi. Agora está na casa a cuidar de Meridiana que sofre das pernas e quase nem anda.

Quem cuida da casa é esse lá, lambe o chão do chiqueiro para ficar perto dela. Deu de ler, deu de mandar carta, e de plantar até samambaia nos vasos. Ele é bom, não de pequeno. Quando era guri saltava os córregos e maltratava as criações, saia de seta no bolso e trazia rolinha na aljibeira. Era gritão de voz grossa e barulhento nas minúcias.

Ela não fala com ele, não dirige palavra. A mãe que chama e faz um jeito para ele ver o serviço. Antes de morrer o Ernesto lhe trazia na violinha, ia bem.

Uns cadernos que o velho empunhava debaixo do sovaco para aprender as contas e passar o sentido dos palavreados.

Não ia à escola, cavalgava e corria os matos. Sei bem que perscrutava a menina. Sentava longe como que esquecido. Agora se amarra depois dos quinze anos das escolas. ‘Um baita, a gente conversa e vai’, dizia que aprendeu amansar quieto de não ferir a inteligência do tal. ‘O bicho é mais gente’, dizia o Ernesto arrastando os tacos do tempo. Ia cambaio à venda subia uma meia prosa e voltava na charrete com o Gigante. 

Ernesto não estalava, só pedia ‘me leva Gigante’ e chegava até a cocheira. Demorava, erguia o varal, tirava os arreios e lhe dava um afeto. Era assim.

O moleque apareceu e ele amansou na palavra, na viola e na escrita. Foi pouco. Depois ele mesmo agarrou em ler aquelas coisas amontoadas que a menina deixou antes de ir para a capital, para o estrangeiro, para o fim da curva do vento – como se diz. Usava uns jeitos, imitava os descansos na represa e juntava os peixes, ficava, eu via do alpendre que mais se dava na fogueira e na linha de meio lançada no sandol. Estava um bruto com sinais de alma.

Mas era um bruto. Dona Meridiana o atendia todas as manhãs e lhe dava a marmita quando subia até o milharal, depois, antes das cinco ele descia vagarento e sentava à mesa. Ela ensinou boas palavras e as mãos lavadas, comer de garfo, abandonar a colher, e ir para casa sem parar na venda.

Naldo de nome Agnaldo ficava um tanto mais até a noitinha para tocar a viola com o compadre. A gente ouvia daqui de casa os duetos deles. Depois ia para o lugar das Jacas, uma taipa arrumada com um burro velho e algumas galinhas. Terra limpa com pouca cultura.

O Gerson e Dona Eni faz tempo tinham desistido, trabalhavam de à meia, e queriam o Naldo em casa. Ele não queria capinar a terra dura. Depois da estiagem, quando veio a primeira chuva, ela partiu e o velho Gerson que já era triste de folga acabou quieto. Cuidava do pai, trazia a ele as frutas de época, limpava a casa com uma vassoura de mão e o ajudava deitar e levantar. Fazia a comida antes de caminhar para o sítio.

Ninguém sabia que treinava falar bonito, que lia de voz aberta e cantava afinado para agradar o pai que pouco saía e Seu Ernesto que o cuidava. Sol a sol e capim molhado, o menino deslizava um tempo de horas no lampião para aprender alguma coisa que ninguém explicava.

Quando o Ernesto teve aquele troço e caiu duro na varanda ele sumiu para os matos por dois dias. Sentiu dor e medo por deixar a terra, voltou com olhos duros de frieza pura. Ajuntou de cuidar do pai com toda a força que podia, levava no doutor da cidade, trazia no gosto do tempero.

O homem ficou melhor e ia mais vezes à venda na Rocinha para conversar. Assim também, se sabe muito, ele vinha rápido para sentar-se à mesa e fazer as orações pra Dona Meridiana. Ela também se aprumou e seguia sempre para o clérigo e conversava com as comadres. ‘Carmelinha vem no fim do mês’, dizia ‘ela escreveu, e o que mais diz nessas letras? Ela tem um desenho de palavras que mal entendo’.  Naldo que mal dormia nas leituras de voz alta, de pegar os cadernos e fazer as contas inventava que a menina demorava pouco, que sentia tanto a falta que daria um jeito de retornar.

Foi que resolveu escrever para Carmelinha dizendo que o pai havia morrido, que a mãe estava bem, que cuidava do rancho, que a ajudava na saída para visitar o vigário, o velhinho permanecia na paróquia e não mais rezava a missa, mas cantava o bingo nas festas, e que se pudesse dizer alguma palavra, responderia.

Contou da mãe e a dor de sua partida, que o Gigante estava no pastinho, muito passado da hora e que passeava junto à cerca chamando no relincho o Seu Ernesto para ir à venda e que, ele mesmo, fez um passeio lento à pé com o bicho de ida e volta à venda dizendo no fim ‘me leve para casa’ e soltando o animal sem carga, ajudando que descansasse e que se divertisse um pouco mais ao fim da vida. Ele balançava as orelhas como se entendesse.

Não veio carta em seu nome, ele leu para a mãe dela as notícias do lugar distante, as orações e os pedidos de paz no coração, e que demorava, mas viria quando pudesse porque tinha trabalho num lugar de língua difícil de dizer. Novamente Naldo escreveu e explicou os aflitos, que o pai dele estava bem, carregava o embornal e muitas vezes jogava dominó na Rocinha. E que a sua mãe aguardava a volta, que tinha cerzido umas roupas para a briga, para manchar na terra, e se ela quisesse, achava, lhe cabia bem.

Atrás da Igreja perto da casa verde onde morava gente estranha, gente de escritório que pouco se conhece ia à uma tal aula noturna uma vez por semana e que já se adiantava e podia seguir para continuar o aprendizado. Explicou que enviava no correio as provas feitas e que por mês recebia as respostas de suas notas. Havia uma chance de virar a mesa e sentar em uma escrivaninha.

Mas não sabia porque gostava de andar, da terra, de cuidar e que não havia trabalho para gente que nem ele, ou ofício de escola que pudesse cumprir. Em que se formaria? Como faria uma coisa dessa? De que jeito? Não podia abandonar um passo atrás do outro na lida diária, de pai, da casa, do terreiro, dos animais, de Dona Meridiana, e da roça que movia com empenho, isso tudo não dizia, fingia que ia dizer algo e usava outro verbo, inventava alguma coisa para acalmar as idéias.

Copiava as poesias de gente de fora, as letras das músicas que cantou com Ernesto. Afinava a viola do homem e movia os braços cada vez mais adiantado. Escrevia cartas vazias para Carmelinha, mostrava um trecho de suas poesias. Brincava de poeta e voltava para os cantos, mês a mês em calmo silêncio. Terminou-se letrado nas coisas das palavras mas não deixou os barrancos.

Ela entrou pisando firme e deu as ordens da casa. Sabia o que fazer. Sabia do tempo deles, das horas marcadas por isso não mexeu em nada no que se diz do jeito, dos modos que a vida trazia o dia. Levou a mãe ao cemitério para as flores ao Ernesto, ajudou a enterrar o Gigante, pagou as demoras a Naldo, e foi molhar o anzol como sempre fazia por um tempo.

Caiou a casa com ajuda do menino Naldo, arrumou o potreiro e vendeu a safra. Ajuntou os ganhos e carregou a mãe embora para um canto do mundo. O sítio ficou na guarda de Naldo que recebia às à-meia e administrava.

Ficou sem esperança, mas cuidava de Seu Gerson como se cuida de passarinho. Vendeu a propriedade para o Marcílio que lhe veio ao canto de olho apresentar a Josefa, uma menina rica de falas grudadas no chiclete. Até foram num baile. Viram uma tela e conversaram um pouco. Ela não gostava porque era rio quieto demais para a sua alegria e o deixou.

Depois dos trinta e poucos, eu já andava meio que na soleira e Marialva dormia mais que balançava na cadeira, passava um tempo na Rocinha e assinava uns papéis que ninguém sabia. Naldo inventava, isso se sabia. Bota polida para entrar em cartório, camisa passada. 

– Quem cuidava? 

Ele mesmo. E se soube que mexia numas terras que o Marcílio dispunha porque era distante e nada valia. ‘Muita pedra, não se cultiva, quase seca, um rego fino é só que passa lá, e tem muito mato, atrapalha a plantação, se quer mesmo eu arrumo’, ele se entediava que o quase sogro o queria bem ou se não, de mal a pior.

Não tinha muito, mas era o suficiente para comprar três vezes o que valia, ofereceu menos, bem menos quando o Marcílio pensava na filha, na vida solta que ele não desejava. ‘Ela muda, acredita rapaz, fica bem, tenta de novo. Ela gosta das suas maneiras, vai ver’, oferecia para que a mocinha não ficasse no passeio, abraçando filho de fazendeiro que morava na cidade e vinha apenas para tirar casquinha dela.

Aquela gente de botina pintada e música ardida de altura arrastava a Josefa, que odiava o nome que ganhou da avó, preferia Jo que dava um jeito chique para diminuir o defeito que achava.

Fez o negócio e procurou Josefa, a Jo. Ela escapou, fingiu desprezo e desgosto, não gostava do campo, queria viver na cidade grande onde se podia ir nas festas e passear.

Ele a levou. Corajoso, homem de pé manchado na terra, mãos pesadas. Entraram, conta-se, num lugar de dança e dançaram, e passaram a noite um lado ao outro por quase um mês. Ele se admirava com uma livraria de usados. Pouca fala, fuçava feito o Campeão que estava no morre-não-morre e zurrava cansado, mexia nos livros amontoados, ajuntava no peso, carregava caixas. 

Ela achava tudo aquilo engraçado, um matuto de quase 1,80 de altura com cara besta no meio das escritas. Ela não concebia, olhava aquele bicho criado com um pouco de pena, mais dela que sempre quis riqueza e jamais sentar em casa. Na verdade a menina braba se invocou. ‘Isso não tem doma’, achava que ele seria sempre aquele lago quieto com uma tristeza abarrotada de não-querer. E ele pensava dela que jamais deixaria de ser assanhada e gostar de festas e festas e luzes e brinquedos de cores.

As aparências enganam, ela possuía a fibra de aço da família de Dona Inês, uma senhora dama que dobrou muito chifre de bode e veio para a terra de unhas pintadas e cavou as fazendas que possuía uma a uma, e casou com Marcílio que fez o mesmo de bota e ferro em brasa. Eram gente louca e de aventura definida, não deixavam cacarecos para trás, carregavam tudo.

E ela, com aquele jeito de apaixonada por uma vida feliz do tipo parque de diversões e baladas caipiras escondia, ou melhor, não mostrava a sua face obscura, os seus pés de raízes de angico e suas mãos feitas de espinhos de paineira, o cérebro carregado de ambições e de terra alagada, alma de profunda caverna carregada de esperanças e gostos requintados, daquele jeito de fazer o pão sovado, do requeijão que pede três horas sem parada de mistura e de enchada afiada para cortar o sereno e pedra-ferro. 

Os olhos de Jo eram iguais ao da jaguatirica de ataque imprevisível, e de ferocidade, porém de pernas altas como o cachorro guará, ativa como o cachorro vinagre e suave como o gavião quando plaina e certeira quando salta sobre a presa e a domina e estraçalha como uma bordadeira de fina delicadeza. 

A Josefa gostava mais dos números e de uma língua que ninguém falava. Era uma doença, uma coisa que se repetia na cabeça dela, que fazia sem parar durante a noite e a obrigava a cuidados para não deslanchar noite adentro e despertar acordada

Olhos de lua no rio verde, claro na noite faiscando os dentres de alegria. A menina pescava, e ele cuidava de nunca ficar triste.