Carolina Maria de Jesus

O sentido de Bitita

Bitita’s sense.

RESUMO

O estudo da produção literária em Carolina Maria de Jesus e sua relação com a produção da alteridade, a percepção da expressão criativa e as condições socioculturais de um tempo em relação à contemporaneidade são fatores que se determinam e necessitam de aprofundamento ético e estético, as relações objetivas da criação e subjetivas de uma existência que se pronuncia na própria obra entremeio à narrativa memorial, as políticas públicas em educação devem alcançar a subjetividade da artista e sua definitiva inclusão na escola e proveito da gestão em educação contrafazendo a cultura do invisível ou do anonimato.

Palavras chave: Carolina Maria de Jesus, políticas públicas, sociedade, alteridade.

ABSTRACT

The study of literary production in Carolina Maria de Jesus and his relationship with the production of otherness, the perception of creative expression and cultural conditions of a time with respect to contemporary are factors that determine and require further ethical and aesthetic relations objective and subjective creation of an existence that takes a position in the work itself inset narrative memorial, public policies on education should reach the subjectivity of the artist and its final inclusion in school and benefit

from management education to infringe on the culture of unseen or anonymity .

Keywords: Carolina Maria de Jesus, public policies, society, otherness.

MEMÓRIA DO VIVER

O homem inventor de signos é ao mesmo tempo o homem cada vez mais agudamente consciente de si mesmo; somente como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si mesmo e_ ele o faz ainda, ele o faz cada vez mais. (Nietzsche, p. 225, 1974)

            A obra de Carolina Maria de Jesus se estabelece como resultado da memória crítica de uma realidade. A feitura da obra literária estabelece conexões de uma subjetividade carregada pelo sujeito singular a uma objetividade existencial, porquanto reelabora em seu território de saber os processos que a realizam. A margem e fronteira entre o saber viver e o universo criativo de alguém que caminhou o mundo em busca de poder vivê-lo plenamente faz de Carolina Maria de Jesus uma destas entidades humanas que ultrapassam o ideacionismo de Estado de Direito, ação de valores culturais e responsabilidade vital. O trabalhar com os rescaldos de uma modernidade seccionada na exclusão, determinaram as situações que a levaram da riqueza narrativa à miséria social.

            Diferente de uma situação plasmada numa linguagem estabilizada, oficial, Carolina Maria de Jesus           nos faz referir ao desejo de uma linguagem adjacente ao saber-fazer, uma relação possível cuja literatura ultrapassa o limite entre realidade desejada e ações estéticas compartilhadas na ação do trabalho. É nesse sentido que a literatura de uma mulher cujas proposições são reificadas na escrita é que proposita conhecer as distâncias entre esses paradigmas: estética literária e expressão de vida na produção de sua alteridade.

            De seus livros publicados: Quarto de Despejo, Casa de Alvenaria, Antologia Pessoal, Pedaços da Fome, Meu Estranho Diário, Provérbios (sem editora) realizados em uma vida complexa: Quarto de Despejo que surpreende com a metáfora de um lugar que não está no uso civilizado e também ainda não pertence ao lixo, como a Ágora que não é o templo e não é a rua, e Diário de Bitita que é a retomada da pessoa que foi e/ou que poderia ter sido afetivamente, no apelido e na razão merecedora do afeto fator de construção do sujeito personagem/narrador.

            A representação artística nessas obras parece supor um saber fazer literário e o conhecimento de um tempo. As injunções de Carolina a respeito da existência em sua humanidade desejável se estabelecem em diferentes níveis e é através desses paradigmas de uma presença miserável e, no entanto, rica e atualizada que recorremos a entender quais são essas configurações possíveis entre as margens do saber e suas fronteiras com a realidade.

            A arte neste sentido é um dos processos mais dolorosos da existência humana já que o artista também transgride a personagem num diário que a exclui. Quando, portanto, busca inscrever a existência que não coaduna com as condições sociais que a provêm. A obra se estabelece na permanência, na continuidade representativa, pode-se pensar. O religioso está intrínseco à criação objetiva da arte no sentido antropológico de se restaurar no presente a continuidade de uma existência que só pode ser mantida pelo gesto de uma artisticidade que vai em busca de uma representatividade que suporta a existência. É como um veículo que a arte literária estabelece um território que é demarcado entre sonho e realidade, desejo e possibilidade existencial. Um confesso que oportuna repensarmos a atividade da escrita e sua necessidade cultural.

            A arte introduz o sujeito no espaço alterado do conhecimento, não é aquilo que vê, mas o que aquilo é, não exatamente, mas por conseqüência de sua presença no tempo dinâmico que o faz atingido de significados. E é onde resulta sua manifestação, sua identificação com a vida. “As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando a beira do rio, perto dos lixos, os homens desempregados substiruiram os corvos.” (Jesus, p. 48). A obra literária se faz como parte da elaboração de existencialidade de Carolina Maria de Jesus, e se apresenta em não se apresentar, isto é, a arte oferece a quantidade significativa que a identifica quanto percebe, como uma promessa de realidade. 

            O Quarto de Despejo é o agora, um estado que não tem outra determinação se não em sua          presentidade, no ato fenomênico de estar, de se estabelecer. O pensamento não se extingue na literatura em Carolina, ao final se sustenta por não ser um conceito sobre si mesmo, mas uma narrativa fragmentada, porém reificada de uma existência que necessitou da escritura para demarcar o seu tempo e espaço.

            A coisa obra precisa do outro para reavivar o sentido, dar continuidade entre passado e futuro. A arte a integra com a realidade ao mesmo tempo que a dissuade sobre o infortúnio de uma vida miserável. O outro é a parte necessária para a existência da expressão da escritora.

            O reconhecimento de que há na estrutura certa intercepção que a distingue ou que se aproxime em equivalência das notoriedades de comprovado saber artístico; ou que ainda tenha com ou sem rompimento estético, estilístico, cultural de uma referência que a conduza a certa consagração. Conforme Laraia (2007) a cultura influencia o comportamento social e diversifica enormemente a humanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica.

            A arte evidencia essa síntese no sentido de transpor à forma a percepção do artista presente no seu universo cultural como construtor de signos. O campo da arte se estabelece na conjunção de um capital social que possibilita a continuidade do fazer arte pelo artista. A sua notoriedade ou reconhecimento não esclarece a ação porque pode ser a qualquer momento destituído de sua verdade artística.

            A partir dessa noção de campo, para se compreender uma obra, deve-se compreender inicialmente a produção, o campo da produção, a relação entre o campo em que ela é produzida e o campo em que é recebida (…) (BOURDIEU,1997, p. 13). Investigar, portanto os processos de elaboração da escrita em Carolina Maria de Jesus, os passos conceptivos em que ela se relaciona, o pensar crítico, a sua atividade individual que se dirige a um todo complexo multifacetado do meio social. Como se estabelece essa conexão na modernidade com esse saber e os estames que interligam as culturas diversas, e que definem a posição da escritora Carolina Maria de Jesus.

A REALIDADE DA ESCRITA

            A obra de arte interage com a realidade com formatos sígnicos diversos onde estabelece pela percepção ativa, crítica da realidade. O entremenhar de temas subjuntivos que se determinam a figurar uma intenção cuja finalidade é a proposição perceptiva que ocasiona um prazer estético e que se funda em se pensar a realidade. A história da arte tem oferecido caminhos entrecortados de acontecimentos e manifestações artísticas a pouco percebidas e admitidas como tais. O bem fazer e

por si, tornar-se mentor de sua própria ação, configurar a sua expressividade com dimensões próprias são alguns dos fundamentos a que se pode dizer da existência do artista e de sua arte.

A realidade literária ou uma literatura real num narrador/personagem, ou que se pense num diário de existência visto pela palavra transtorna a construção sintética de que uma obra feita de início, meio e fim estabelece contatos com a realidade equidistante, promove no leitor uma busca não dissociada de seu próprio background, daquilo que vindo do passado faz nascer em si, surgir como que integrado à existência. O sujeito/leitor torna-se receptáculo de um pensar codificado aclara em sua leitura, em sua textualidade retomada para si. O leitor, a ele se reivindica a existência de um autor anônimo, porém presente no ato fenomenológico de compreender, agir, desenvolvendo espaços, formas, movimentos equilíbrio.

            Trata-se de um mito acreditar que a obra de arte sintetiza toda ação humana possível e oferece respostas intermináveis, por outro lado é uma estrutura que deseja significar e não um significado determinado. Necessita do aporte de outros para que continue a engendrar um pensamento que retorne reflexivamente sobre os sujeitos interpretantes.

            Carolina é um assunto de momento, uma vida que não alcançou o Estado de Direito, está entre pensar a existência e infundir nela o ritual da palavra, o significado depositado ou reaproveitado no outro. Na modernidade, as atenções são menores sobre a expressão criativa e crítica, estética da obra de arte como um todo, no entanto parece que há nessa presença menor uma quantidade ilimitada de intencionalidade em se reagrupar o projeto antropológico de uma humanidade não fatiada em poder e trabalho.

            A artisticidade em Carolina Maria de Jesus parece engendrar a unificação de uma sociedade sem divisões, ela emerge para representar o todo o Um, o único no diverso. O trabalho de Carolina Maria de Jesus possui uma estratégia de vida, de sair de um espaço para seinfundir em outro, devido a sua autonomia, o seu trabalho literário é uma opção e não um fim.

“Quando, na sociedade primitiva, o econômico se deixa identificar como campo autônomo e definido, quando a atividade de produção se transforma em trabalho alienado, contabilizado e imposto por aqueles que vão tirar proveito dos frutos desse trabalho, é sinal de que a sociedade não é mais primitiva, tornou-se uma sociedade dividida em dominantes e dominados, em senhores e súditos, e de que parou de exorcizar aquilo que está destinado a matá-la: o poder e o respeito ao poder.” (LEVISTRAUSS, 10, 1974)

            A busca pela sobrevivência tenha sua conotação na palavra, na expressão que requer integração, mas o texto da autora é uma disfunção, sua entrada na economia cultural tem essa proposição metafórica de estar a meio caminho. A relevância da pesquisa sobre o processo da criação de Carolina Maria de Jesus é assunto de importância na literatura da pós-modernidade, compreendendo a fragmentação do sujeito social, as condições existências em relação às metáforas carolinianas, que repercutem na memória de um diário interminável, mas que possibilita compreender os meios utilizados da produção cultural. “A defasagem entre o código social e o código exigido pelas obras apresenta, evidentemente, todas as condições de ser mais reduzida nos períodos clássicos do que nos períodos de ruptura continuada, tal como aquele que nos encontramos hoje.” (BORDIEU, p.77, 2003). E na literatura, no olhar caroliniano está presente essa indeterminação de uma obra que se constrói no fazer.

            A partir do pensamento em Carolina Maria de Jesus, e as pontes possíveis em Bordieu, Giddens, bem como Jung, Campbell e evidentemente Nietzsche, e do reconhecimento do espaço, do pensar literário em Bachelard (1991), esse artigo deseja ilustrar parte do processo de criação artística em se definindo, pela linguagem e estrutura textual, o território, o campo da expressão literária, e a representatividade simbólica. Literatura do autor/personagem/narrador que constrói o seu texto a partir da tessitura de uma existencialidade estabelecida no hábito, na ancoragem de um saber terreno que não deseja se reduzir. “Os objetos da terra nos devolvem o eco de nossa promessa de energia. O trabalho da matéria, assim que lhe devolvemos todo o seu onirismo, desperta em nós um narcisismo de nossa coragem.” (BACHELARD,1991, p.07)

            A obra de arte se estabelece como resultado da memória coletiva que incide sobre o sujeito singular quando reelabora em seu território de saber os processos que a realizam. A margem e fronteira entre o saber viver e o universo criativo de alguém que caminhou o mundo em busca de poder vivê-lo plenamente faz de Carolina Maria de Jesus uma destas entidades humanas que ultrapassam o ideacionismo de Estado de Direito, ação de valores culturais e responsabilidade vital.

            O trabalhar, e as situações que levaram a riqueza à miséria nos fazem referir ao desejo de uma linguagem adjacente ao saber-fazer, uma relação possível cuja literatura ultrapassa o limite entre realidade desejada e ações estéticas compartilhadas na ação do trabalho. É nesse sentido que a literatura de uma mulher cujas proposições são reificadas na escrita é que proposita conhecer as distâncias entre esses paradigmas: estética literária e expressão de vida. São dois livros realizados em uma vida complexa: Quarto de Despejo e Diário de Bitita.

            A representação artística nessas obras parece supor um saber fazer literário e o conhecimento de um tempo. As injunções de Carolina a respeito da existência em sua humanidade desejável se estabelecem em diferentes níveis de uma vida múltipla. É através desses paradigmas de uma presença miserável e, no entanto, atualizada que recorremos a entender quais são essas fronteiras possíveis entre as margens do saber e suas fronteiras com a realidade. A arte neste sentido é um dos processos mais dolorosos da existência humana quando busca inscrever a existência que não coaduna com as condições sociais que a provêm.

            A obra se estabelece na permanência, na continuidade representativa, pode-se pensar. O religioso está intrínseco à criação objetiva da arte no sentido antropológico de se restaurar no presente a continuidade de uma existência que só pode ser mantida pelo gesto de uma artisticidade que busca uma representatividade que suporta a existência. É como um veículo que a arte literária estabelece um território que é demarcado entre sonho e realidade, desejo e possibilidade existencial. Um confesso que oportuna repensarmos a atividade da escrita e sua necessidade cultural.

            A arte introduz o sujeito no espaço alterado do conhecimento, não é aquilo que vê, mas o que aquilo é, não exatamente, mas por conseqüência de sua presença que o faz atingido de significados onde resulta sua manifestação, sua identificação com a vida.

 A obra literária se faz como parte da elaboração de existencialidade, e se apresenta em não se apresentar, isto é, a arte oferece ao sujeito a quantidade significativa que o identifica quanto percebe, como uma promessa de realidade. A diversidade de ações do homem no espaço do conhecimento é um constante elaborar e reelaborar. 

            O pensamento não se extingue na literatura em Carolina, ao final se sustenta por não ser um conceito sobre si mesmo, mas uma narrativa fragmentada, porém reificada de uma existência que necessitou da escritura para demarcar o seu tempo e espaço.

A coisa obra precisa do outro para reavivar o sentido, dar continuidade entre passado e

futuro. A arte a integra com a realidade ao mesmo tempo que a dissuade sobre o infortúnio de uma vida miserável. O outro é a parte necessária para a existência da expressão artística literária.

            O reconhecimento de que há na estrutura certa intercepção que a distingue ou que se aproxime em equivalência das notoriedades de comprovado saber artístico; ou que ainda tenha com ou sem rompimento estético, estilístico, cultural de uma referência que a conduza a certa consagração. Conforme Laraia (2007) a cultura influencia o comportamento social e diversifica enormemente a humanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica. A arte evidencia essa síntese no sentido de transpor à forma a percepção do artista presente no seu universo cultural como construtor de signos.

            O campo da arte se estabelece na conjunção de um capital social que possibilita a continuidade do fazer arte pelo artista. A sua notoriedade ou reconhecimento não esclarece a ação porque pode ser a qualquer momento destituído de sua verdade artística. “A partir dessa noção de campo, para se compreender uma obra, deve-se compreender inicialmente a produção, o campo da produção, a relação entre o campo em que ela é produzida e o campo em que é recebida (…)” (BOURDIEU, 1997, p. 13). Carolina Maria de Jesus é uma personalidade, sua atitude frente à vida determinou sua condição de escritora, um lugar onde se volta a partir de 16 anos e não se pode ter carteira de motorista, onde a divisão de riquezas é menor que Serra Leoa, onde a literatura é tida apenas como sinônimo de perda de tempo, e que o ficcional e real são contradições, metáforas forjadas no cinismo ou ironia determinam para esta pesquisa não somente o conhecimento de interpretação de seus “Diários” como a percepção mais ativa de uma sociedade que coloca a inteligência no desvão cultural e sua representatividade acadêmica.

            O seu primeiro livro, Quarto de despejo, atingiu a cifra de dez mil exemplares na primeira edição,um número extraordinário, e sua trajetória colocou diretamente em questão o campo consagrado da literatura hegemônica. Meihy e Levine (1994), chamaram a atenção para esse aspecto. Porém, questionamentos de outra natureza poderiam ser igualmente formulados no âmbito da literatura brasileira, mas a temática da produção literária de Carolina Maria de Jesus ainda não foi suficientemente discutida, pois muitos estudiosos ignoraram o fenômeno Carolina.

            Ao reconstituir os contextos sócio-históricos em que Carolina se moveu a criatividade da tessitura textual se afinam com o que, a obra se faz como construção de um imaginário enriquecido pela realidade circundante e que esta é fonte de suas inserções intelectuais, se faz também como negação da sua condição.

            Um diário, simultaneamente como estrutura de um discurso romanceado e/ou de uma literatura impregnada do real ou difusa, portanto, faz inferir sobre os processos de construção da literatura escrita na miséria social, a se realiza enquanto  reconhecimento da poética construída no íntimo de uma psique dessacralizada pelas instâncias que a assoberbam. “O mundo da vida cotidiana proclama-se a si mesmo e quando quero contestar essa proclamação tenho que fazer um deliberado esforço, nada fácil. A transição da atitude natural para a atitude teórica do filósofo ou do cientista, ilustra este ponto.” (BERGER, 1985, p.36). O cotidiano deixa de ser irrisório quando sonhado, subjetivado na crítica de realidade através da criação artística, como exemplo e fundamento.

            Sistemas sociais complexos ou não o que se procura conhecer é o momento histórico e as condições possíveis em Carolina Maria de Jesus na construção literária, onde estaria remetida a sua obra entre imaginário e realidade, a memória em um livro que não se concebe como memorial devido às circunstâncias que a remetem entre presente e passado e as possibilidades inerentes ao território de sua criação.

            Os elementos constitutivos indicam a precariedade de um mundo real representado, e que por outro lado são capazes de gerar os seus próprios e particulares modos de expressão.     As trocas simbólicas possíveis na construção textual obrigam a uma reflexão sobre o tempo histórico e as relações com a contemporaneidade, portanto, estudar a crítica literária em Antonio Cândido (1992) no que se refere à sistema literário, o processo de formação literatura, construção textual nacional.

“Carolina Maria de Jesus é uma escritora que vive entre o devaneio e a realidade, mas imprime em sua literatura um sentido que se refere ao um desejo de caminho, a uma finalidade existencial que não pode ser localizada no ambiente onde vive. A co nstrução de sua personagem “eu mesma” remete a se pensar na impossibilidadeda vida externa não aceita e não completamente vívida ou filtrada pela vias internas da sua criação. O drama é que o presente se insinua no passado. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória, haveria a possibilidade de um modus vivendi quase normal, a seu jeito (…)” (CANDIDO, p.81, 1992).

            A busca de uma realidade não completada com o olhar senão pela imaginação e pelo trato da escritora em buscar referências sobre o experienciado e o inusitado em sua vida, a faz invisível apesar da densidade social, histórica e da narrativa literária.

“ É evidente que os textos poéticos de Carolina refletem aspectos dessa cultura, mas sua vivência ultrapassa a exclusividade de qualquer compromisso com a causa negra. Nesse ponto, sua experiência poética foi paralela à posição de Augusto dos Anjos e contraste perfeito de Solano Trindade, ambos negros”

(MEIHY, 1995, p. 25).

            A noção de sistema literário desenvolvido e aplicado por Antonio Candido, para explicar o processo de formação da literatura brasileira, continua atual e muito contribuiu na compreensão de como se organizou e se construiu uma tradição literária no Brasil do século XIX. Ao valorizar um esquema comunicativo mais completo, que não isolava o autor em sua produção, colocando-o em diálogo com outros autores, adeptos da mesma tendência, com uma produção literária “mais ou menos consciente” de seu papel, e também inserindo os leitores que passavam a ocupar um lugar de destaque como receptores privilegiados dessa obras, Candido propõe o conceito de “literatura propriamente dita” que se pretende utilizar para a análise da obra de Carolina Maria de Jesus. Para os estudos literários brasileiros, a referência de Carolina Maria de Jesus, a sua riqueza se faz necessária ao aprofundamento da pesquisa para se conhecer o grau de maturidade no seu processo de criação literária estabelecendo uma relação com a repercussão e continuidade da sua obra literária.

CONSIDERAÇÕES

            A realização da escrita em Carolina Maria de Jesus e sua relação com a crítica social, e sua autopoiesis. Esse conceito de autopoises traz inúmeras vantagens para se analisar a sua construção literária dentro do equilíbrio entre o social com a necessidade de afirmação identitária em confronto com o literário.

            A importância de um estudo aprofundado de uma autora cujas ações de vida realizam a literatura em condições ímpares se faz como necessidade de se instalar no corpo acadêmico o pensar e o fazer da arte e sua representação de uma realidade cultural. Nesse sentido, Carolina Maria de Jesus oferece em quantidade e qualidade de uma literatura que se encontra marginalizada pelos cânones da boa escrita e da significação espelhada. 

            A valorização da singularidade de uma personalidade que se faz presente com toda a foraça de uma existência complexa e o direito de liberdade da criação, da autoria, da estética literária. Qual é afinal, a concepção de autor na contemporaneidade? Como se delinea essa presentidade criativa e definida pela palavra estruturada da língua? E onde está este saber fazer que encanta e realiza o pensar, promove reflexivamente um tempo uma ordem, o querer ser socialmente integrado.

            Várias áreas do saber podem se beneficiar da produção criativa de uma autora cuja independência e determinação realiza a obra de arte. Contrapostos ao agrupamento gramatical está a obra, e a sua emergência transpõe as dificuldades de Carolina Maria de Jesus de ser ela mesma em sua humanidade brasileira. As políticas públicas em educação e sua gestão necessitam de um olhar mais aprofundado a respeito da expressividade cultural e o melhor entendimento sobre a produção artística e crítica social para permitir que Carolina Maria de Jesus possa ser referência de saber, de

arte e cultura na universidade brasileira com maior distinção.

            O motivo deste artigo integra esse fenômeno humano de pertencimento e de consideração pela expressão viva da independência criadora. Desejamos contribuir com os estudiosos dessa expressividade da criação oferecendo alguns livros como ponteamento posssível de pesquisa. Como mediador de um tempo que se esvai na ação criativa, recuperar a posição territorial desse saber literário através de aprofundamento no texto da autora em se buscar as condições históricas e culturais de momento no espaço de vida e sua relação com a realidade. De forma que procedimentos analíticos e históricos somam-se para o desenvolvimento dessa metodologia que deseja interpretar no espaço e tempo a criação literária e suas conexões com a modernidade.

REFERENCIA BIBLIOGRAFICA

BACHELARD, Gaston. Poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

____________. A Terra e os devaneios da vontade.São Paulo: Martins Fontes, 1991

BOURDIEU P. et alii. O amor pela arte– os museus de arte na europa e seu público, Editora da Universidade de São Paulo: Zouk, 2003

CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade.São Paulo: Ouro Sobre Azul, 2008.

_______________. Formação da literatura brasileira( momentos decisivos). Belo

Horizonte: Itatiaia, 1981.

_______________ . Brigada Ligeira e outros escritos.São Paulo: Unesp, 1992.

LARAIA, Roque. Cultura, um conceito antropológico. RJ: Zahar, 2007

OBRAS DE CAROLINA MARIA DE JESUS:

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada.8 ed., São Paulo:

Ática, 2005

____________. Casa de alvenaria: diário de uma exfavelada.São Paulo: Livraria Francisco

Alves, 1961

____________. Pedaços da fome.São Paulo: Editora Áquila Ltda, 1963

____________. Provérbios.São Paulo: s/editora, S/D.

____________. Journal de Bitita. Paris: A. M. Métailié, 1982

____________. Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

____________. Meu estranho diário. São Paulo: Xamã, 1996.

____________. Antologia pessoal. Meihy (Org.)Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995

A RESPEITO DE CAROLINA MARIA DE JESUS:

MEIHY, José Carlos Sebe & LEVINE, Robert. Cinderela negra. A saga

de Carolina Maria de Jesus.Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994.

Norbert Elias em Winston Parva

Norbert Elia, about Winston Parva and connections with Zeno of Elea

A corrida de Aquiles com a lebre, uma tautologia perdida e reencontrada na ação conjugada entre dualidades: dentro e fora, cheio e vazio, finais e iniciais, marcas de um tempo em um espaço. 

Zenão de Eleia utiliza-se de uma armadilha, ao definir que o início é por si mesmo o fim, e assim, um final em si, causa um significado ao que seja a disputa, e a conquista de uma meta em seu ponto de chegada. 

A oportunidade é a lei cujo sentido seja de que a ação se basta, a intenção move o resultado, deixando prévio que a propriedade de conquista se realiza antecipadamente a qualquer outra tentativa de outrem. 

Se as marcas de tempo são definidas no espaço, entende-se que o processo de apropriação de um lugar estruturado e finito possui uma forma de apresentação e pertencimento.

Norbert Elias possibilita entender que os chegaram primeiro – e da primeira e única vez, tal qual se configura a lenda – se antepõem aos que vieram ao depois. O que está em jogo é a condição revelada do poder. 

Para a aristocracia ateniense, o sentido de ser gente está relacionado à formação guerreira e à política, o poder, os que não obram – nobre –, diferenciam-se dos que são para a obra – pobre – o que define um caminho de separação, de divisão de um para outro grupo a estabelecer a ordem hierárquica do poder em suas marcas representativas, da dualidade entre poder e submissão. 

Referencia antiga dessa hierarquização da sociedade está no que obra (opera) e se constitui no operário, que realiza o trabalho (tripolium), pobre (para a obra), e escravo (cravado). O mesmo termo do inglês “slave“ (de eslavo (os que trabalham na lavoura, na lavra), também chamado de mujique, servos da gleba. 

O poder em Winston Parva surge do mito dos que chegaram primeiro, da posse da terra, do território compartido na geografia .

Essa apresentação circunstancial ao texto de Elias faz com que possamos entender a ordem desse discurso em sua organização relacionada ao nome Winston Parva. O lugar existente que não se faz lugar de existência real.

Para entender que Parva é um nome latino que tem a sua representação muito evidenciada no que seja estúpido, sem entendimento claro, indefinido, sem vontade própria, incapacitado, impossibilitado e destituído de inteligência. A palavra anglo-saxônica Winston representa  o bem-estar em ser pedra, o marco de pedra feliz, a pedra vencedora, a âncora de pedra em sua alegria, e melhor, a alegria em ser pedra ou pedra alegre (joyful stone).  

O nome, portanto, como um trapp antecipa o texto propriamente, mostrando que as condições reais das situações de poder são demarcações simbólicas de uma posse de valores como que superiores aos demais, e, parece que Elias mostra claramente que se trata de algo que não suporta um sentido, algo parvo, algo que pode se pensar existir como que pudesse a pedra sorrir, a pedra ter senso, capaz de tino, de então sentir e se manifestar. De que, por fim, a situação esparvada  se mantém inerte, na sua mesma posição de pedra. 

Winston Parva mostra a corrida impossível entre Aquiles e a tartaruga, expressa que um mundo sem vencedores só poderá existir na demarcação simbólica do que sejam os vencedores que, possam então, receber o prêmio por tais conquistas – também simbólicas, porém válidas na sociedade. 

Ao primeiro passo, como se percebe, o vencedor, explica a tautologia de Zenão de Eléia.

Elias demonstra que o simbólico, o que pode ser entendido em um mundo racionalista, de um pensar estabilizado que os que chegaram antes estão hierarquicamente superiores aos que chegaram depois. É um lógica também geográfica da demarcação da terra, da propriedade privada, da propriedade social compartida, do espaço definido a um modo de existir e conviver não ainda assimilado para os novos, para os chegantes. Assim também se demarcava a terra a ser colonizada com o símbolo da pedra, da estela com o selo real.

Ninguém mais terá direito depois que disse: é meu.

A pronúncia da palavra que se faz viva, carne, que se realiza e manifesta-se no entendimento do outro, daqueles que estão, nesse sentido, submetido ao que em primeiro se manifestou.

Outra relação, demonstrada por Elias é o sentido do tempo enquanto antiguidade vivenciada, e que por isso, não conhecida dos que chegam é o apanágio, ou melhor a cultura desenvolvida, o conhecimento local como garantia, e mais, que tudo, no sentido mais conhecido a maioridade desse tempo, as duas ou mais gerações de práticas e experiências que se demonstram superiores. Nesse texto ainda, Elias nos leva à tradição elíptica do saber. Os maiores, os que viveram uma vida, os chamados idosos – decrepitude -, como força e poder revelados nas suas marcas, nas rugas, no tempo dilacerado. Trata-se de uma antropologia do ser social, em suas posições definidas no tempo, consideradas como valor intrínseco.

Na antiga Grécia o conselho dos anciãos, o respeito ao antigo, a devoção à memória do passado e sua representatividade está, subliminarmente presente no texto no sentido de continuumde tradição em sua validade, a respeitabilidade na hierarquia de poder a partir da construção cultural e sócio-histórica da realidade.

O estigma, a marca, o símbolo, enfim definiria o que está longe ao que está perto. Os que vieram de lá aos que são daqui. Outra interessante problematização integrada subliminarmente se trata da xenofobia, do estranho, do diferente, do que não pode ser aceito.  Como explica que na sociedade atual se interpõem conceitos para justificar dada situação a fim de submetê-la a outra. Explicita-se preconceito, desapego, indiferença, proteção contra o que não está estabelecido ou conhecido, ao diferente e ao que não pode ser reconhecido. 

A estigmatização se completa quando o grupo estigmatizado se tornar completamente estigmatizador também, quando então se apropriar de seu estigma. Essa condição é necessária para que a relação de poder tenha ampla ação de um sobre outro. Definindo portanto, os limites sociais, de território de ação e geográfico de suas manifestações, compreendendo sempre que estas expressões estejam dentro do que foi-lhes impostos como estigma.

Exige grandes mecanismos de controle para que o estigma não se perca. A imagem de si, de identidade de grupo é uma forma visível enquanto simbólica de sua representação singular. Mesmo na perda econômica a posição de poder continua no imaginário sociocultural definindo-se como casta de valores imprescritíveis no tempo.

O grupo estigmatizado se lhe adensa a vida e se apresenta em todas as suas manifestações, inclusive as que tenham a intenção de exterminar o estigma.

O mediador da sociedade moderna seria a justiça enquanto espaço de reivindicações contra a situação diferenciada. Como o setor de poder de justiça se estabelece na legalidade, torna-se necessário que as mudanças aconteçam ao mesmo tempo no espaço sociocultural, legal e em sua aplicabilidade de justiça.

Nesse sentido a luta estendida abriga grandes diferenças compartidas em pedaços mínimos que não se ajustam a uma totalidade real da situação estigmatizante. O que demanda outros modos de percepção e conhecimentos para se avançar a um equilíbrio social com justiça.

Em um mundo grupal, de valores definidos, o diferente é repelido. Nessa antropologia social entende-se que a exibição do líder converge a seus membros, e o contrário também se lhe dá. 

A humilhação pública do diferente, do que se faz estranhado na entranha grupal organizada impossibilita no imediato a sua continuidade, define-se a separação em uma ordem de poder cultural.

Não são, por isso mesmo, apenas as regras morais separatistas que implicam a uma permanência a um modo grupal e social. O costume, a moralidade, exigindo que constituam-se como valores representativos,  são possibilitados a partir dos mecanismos de controle, através dos aparatos de poder em constante movimento.

O estigma, as marcas da exclusão, da vergonha pública torna-se também um valor visto no ângulo de sacrifício personal ou pessoal. Os denegridos e denegrados, expulsos de uma ordem grupal, de um grupo organizado como o militar, a marca do escravo, de quem deve, de quem roubou, ou de quem esteve na prisão com suas tatuagens demonstra a reunião de valor da própria situação excludente. 

Na psicologia social comunitária, em formação de grupos, a reação dos que se colocam acima se faz justificada na medida que o outro grupo luta em não ser estigmatizado, realizando exatamente o estigma. O grupo estigmatizante, impinge categorias negativas que necessitam de aceitação.

O grupo o grupo eleito “ensina” ao estigmatizado o que devem fazer para que haja a reação comprobatória de quanto merecem a exclusão. É um demonstrativo composto que emerge da resposta, ação confirmativa do grupo dominado. 

Elias também explica como os diferenciais de poder, extremamente grandes, acabam por realizar uma exclusão sem grandes dificuldades, ou sem grandes problemas da sociedade estabelecida. Veja-se o que diz Torqueville quando viu – e provavelmente viu o Chefe Seattle -, a caminhar em direção à reserva indígena do Kansas: Eles caminham em silêncio, cabeças baixas, apesar de armas em punho, não se agitam, cumprem com valor e sentimento a vontade da lei. 

A materialização do estigma e da exclusividade dos estabelecidos os põe “outsiders”- foras da lei -, e novamente internamente também – mesmo na presenças -, se reconhecem como “os de fora” e por isso a identidade é não pertencerem. Estão de fora.  

Por isso, com certeza, não compreenderiam a regra tautológica de Zenão de Eleia, acusariam que de acordo com suas próprias premissas, com suas relações o sentido que desejarem no conjunto de seus interesses e vantagens regradas.

O estigma nasce da manutenção e fixação de uma só verdade para uma realidade suficientemente válida. Trata-se de uma fantasia, de crença onde a incerteza não é suportável.

A materialização também pode ser vista na testa de Caim, a marca da corrupção do homem. Essa marca mostra-se viva aos olhos divinos dos que foram expulso do paraíso, aos que foram postos fora.

O secreto escondido do marionete manipulado por fios invisíveis, no final do texto se define em um lugar cuja coesão dura e densa como a pedra se realiza na estupidez da crença de independência, da individualidade bastante em si mesma, da qual vestidos de certa alegria em suas posições no universo social, de certos valores creditados, apresentam-se no teatro da vida, e em Winston Parva.

Sejam quais sejam: em relação a um tempo, a uma forma, a determinado conteúdo, a um modo de ser, a estruturas niveladas da sociedade em que vivem.

My suggests: Try read the book Vigotsky’s Thoughts Introduction

Introdução ao pensamento de Vigotsky – jun/2019.

Édipo

Passeio de eterno retorno

TEXTO REVISADO E ADENSADO

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Conheça através do link abaixo:

Esse texto sofreu grandes alterações. Talvez queira conhecer o que realmente foi adensado, o que foi modificado.

https://www.livrariacultura.com.br/p/ebooks/educacao/pedagogia/edipo-passeio-de-eterno-retorno-2012411262

E assim, de tudo que se apresenta e se apropria tem como referência a partida, o encontro, o final. O conto, a história que não pode ser transfigurada sem seguir a ordem cultural que oferece imediato entendimento. O início, o meio e o fim, e nisso há um telos. Aonde termina, permanece o final. A história segue, e obrigatoriamente se aguarda durante as paradas da leitura, o levante de significados que a custo – o esforço brutal do entendimento se aplica -, a tomar de si o senso. Isso se dá porque no em-si como arcabouço redivivo da cultura se plasma os fantasmas, arquétipos, estruturas agrupadas de uma espécie de panóptico invertido, a brecha por onde escorre alguma lava do vulcão da caverna luminosa. Tudo se vê pela frincha arcaica da existência. Aquele todo antigo parece dizer, sai fora, anda, morre.

O bicho mal pisa fora do estábulo de suas próprias-verdades resfria-se, enrijece, a acompanhar a ordem das coisas, submerso e submetido à insanidade obediente da vontade comunitária. Esta ordem mandante e exigente que o obriga. Bem longe de qualquer espontaneidade (a que vive no devenir eterno), segue a progressão numeral das hierarquias, reificado e subsumido ao sumidouro de qualquer entendimento que não seja sindicalizado, agrupado em sua função, na forma coisificada das indicações. Vai, anda. São caminhos a percorrer. A gesta aponta a conflagração das uniformidades oniscientes   de suas homogeneidades garantidas por lei.

 E, por então, volta à sua caverna, o lugar parece dizer que quer ser paradigma de libertação. A partir dela, a teologia omni-ciente, vai fora e vê o infindável. Sabe, o infinito visto, aquele que aparece ao apontar o céu. Volta seus passos à velha sombra. Entra na caverna como um fantasma, o estrangeiro, desobediente, renegado e é morto e devorado. Libertar o mal de suas correntes, abrir o castelo de Cérbero, bater um papo com Silbion, (o mesmo que beijar Thethis) e entregá-los à gramática no território-técnico dos comuns. Achar isso lindo, pedagógico, significa loucura. Aquele que se banhou ao sol imagina a si mesmo único, luz-própria da individualidade. De dentro dessa caverna pensante, tudo é possível. Por isso, acredita na simplicidade gentil de Candido. 

Sabe as medidas, que as paralelas se encontram no sem-fim, que se pode encontrar lá, atravessar os lados do em-si-mesmo e fazer a comunhão celestial da eterna geometria, o xis da questão. Mas feito em tantos pedacinhos, aqueles miúdos separados que se une na materialidade, na corporeidade. Mercadoria do acaso, do Redentor, das peripécias do inalcançável. O distante além de tudo, bem depois da última possibilidade da visão recai sobre si mesmo. Descobre tarde o herói da inteligência matemática que continua na caverna, no platô de Platão – no último andar de sua tragédia. Nesse sobrado construído a fogo e explosões de  suburbanidade  galáctica.

Lembra que desde o início, como num conto, retorna à caverna e é mastigado integralmente por sua simplicidade. O simples deseja, mais que tudo, mais que a eternidade, – pequeno e medíocre deus de si -, voltar sobre si mesmo. Viver na comunhão baixa do rodapé de suas verdades, as suas   únicas verdades  

Se a arte pudesse ser explicada como o encontro do espectador com a Esfinge[1] que faz perguntas metafóricas a serem decifradas e respondidas, entenderíamos a subjetividade por dentro e por fora. Faríamos a elipse hermenêutica, aquela exegese que ajunta sombras do fenômeno, do inexplicável. E se responde, – ainda isso -, à enigmática pergunta: qual o sentido da presença em sua ausência adivinhada. Fica saboroso dizer que a Vida é Sonho, que somos empurrados pelo éter. As cordas que abrem estradas no céu. É o Logos matemático, abstrato. E se materializa na fórmula e garante a mecânica de todos os astros de uma só vez. 

O céu é vagabound   atravessa fronteiras, viaja espelhando todos os acontecimentos. É igual à gente de início, meio e fim. Imitação do sonho, da vida. Mimeses, cópias de formulários, melhorias do existente. E se diz que é impecável, imita direito, copia, decora. Aquela racionalidade que faz do avião o retorno ao passarinho, do foguete ao   fallum  do disco-voador ao prato que voa ao céu estelar a partir da janela da vizinha. Alguém fotografa, e alguém vê couves-de-bruxelas descendo das nuvens como devem ser os marcianos.   Nunca, jamais o contrário da mais baixa   mimeses   das pequenas certezas teleológicas. Por isso a Ética possui geometria. Aliás bela e inefável forma incalculável.

Tudo isso para dizer que saímos por aí, vivemos e partimos para algum lugar, possivelmente diferente das crenças. É o conto, o romance, a história narrada, a vivida. Vivem no infinito diário da presença humana, seguindo seus passos.

Reescrevo o escrito, dilacero o que já foi para voltar a essa caverna em busca de correntes, pronto a ser estripado e levado aos dentes dos olhos que leem. É assim, o céu tem sua curvatura, e às vezes se escorrega no tobogã do tempo para recomeçar. Trato da tragédia. Você vai descobrir quem passa por isso porque passou Édipo.

A subjetividade não se constrói apenas da experiência racional de jogos de linguagem, note que a presença do Absurdo – transfigurado na Esfinge -, um ente que devora quem não consegue colher dos significados os sentidos, devolver a sua significação, resposta em palavras como garantia de vida. Uma espécie de passaporte existencial em que são validadas as competências, permissão para continuar o trajeto existencial.

Há nessa história, até o momento de encontro de Édipo com a Esfinge e sua passagem, o condicionante que difere o monstro, ou a absurdidade revelada, percebida do terror, com a memória emotiva a produzir as sensações que levam às determinações do pensamento e à resposta. Nota-se que Sófocles põe a metáfora, o enigma na boca da Esfinge como um valor significativo. A pergunta dividida em três partes, o que anda com quatro patas; o que caminha com dois pés; e o que segue com três?

 Se fosse desenvolver a relação quatro por dois e três no sentido geométrico teríamos a referência platônica das formas que constituem as idéias a partir de modelos empíricos:

  1. Quadrado;
  2. Círculo;
  3. Triângulo.

Elementos constitutivos do conhecimento geométrico, a forma abstrata bem subjetivada na vida dos habitantes da Grécia antiga como um símbolo. Portanto, presente na vida da maioria dos que assistiram à função teatral. De outra maneira poderemos considerar a relação numérica com a etimologia. O quadrado esconde a união de infinitos triângulos, a considerar que a gênese dessa estrutura compreende os três pontos da vida que, segundo Trimegistus[2]sobre a ascensão do pensamento, ‘o que está acima, está abaixo’, a meio caminho, a unidade do três, a possibilidade, o próprio existir, caminhar através do conhecimento e de sua possibilidade, de sua ética.

O círculo a convergência de dois pontos que se unem no infinito dinamizaria os paralelos de uma reta, o terceiro, que no movimento do espaço no tempo (como o movimento sinódico dos astros percebido por Tales de Mileto) formaria o círculo, ou ainda, que o movimento iniciado a partir de um ponto absoluto no tempo/espaço corresponderia ao encontro desse ponto consigo mesmo. A cobra morde sua cauda, o círculo se forma na ação do homem, o único ente que vai ao mundo e volta sobre si mesmo. A perseverança, que se vai ao perímetro, vai às voltas com severa disciplina e iça, traz para si o que o faz único, porque circula.

Essa interpretação, apenas como ilustrativo do que podemos agregar e realizar. Retorno ao pensamento platônico e à mística antiga nos diz que, conhecendo os princípios, isto é, os conceitos, se pode encontrar respostas, alcançar e ultrapassar o desconhecido. Sabendo de onde vem poderá seguir, pisar sobre o que há de vir.

Na infância, responde Édipo, o homem anda com quatro patas– ainda se forma a ser homem, em seguida com dois pés porque se reconhece como tal, e por fim, apoia-se na tecnologia, no conhecimento que veio de sua experiência existencial, usa a bengala e segue sua trajetória com esses três pontos, as condições necessárias para seguir. 

Seria possível crer, (a incerteza iluminada de caverna apropriada) que o autor trágico de Édipo acredita que o fim do homem, o seu único motivo teleológico é se embrenhar no algoritmo tecnológico como que um apêndice de sua jornada. Sófocles acredita na complementariedade, o uno suja-se na technné, artificialidade que conduz ou sustenta a organicidade, decerto de uma caverna ainda sombria onde vive   ad aeternum  esses acorrentados burocratas do saber à bela veleidade lógica do conhecimento aplicado ao simples orgânico. Por isso, – vai ver -, Pascal põe o coração na mente, o jorro da dúvida, a única verdade do que seria unicidade emoção-pensamento.

Mas Sófocles parece ainda indicar que infância, adultêz   e velhice é o destino de todo homem, independentemente de sua direção. O conjunto consagrado do três. Não há planejado   thelos , o início, o meio e o fim não acontecem. E o que se dá está nos pés inchados   aedipos   de um longo caminhar no constante seguir. Sustentado por mãos de oráculo, o indefinível antepassado, a entranha do DNA, na mutação genética ele, Édipo, aparece de cabeça para baixo, amarrados a esse início indistinto em que somos levados a aprender. Em vários contos, histórias   órphicas  e populares Édipo no alto do monte Citerão ou jogado ao profundo mar de Corinto.

Ele descobre a resposta da Esfinge. E lá vai ele, meio cambaio, um tanto desequilibrado, anda. Aprendizado a cada passo na consecução trágica de nossas sombras, vivas almas da caverna, carregamos em nós o seu espelhamento, a mimeses perfeita, a mente que da vida semente. Por mais luz que haja, enquanto mais se procure iluminar o ente-coisa humana Diógenes não terá a resposta. Voltará a ser enlatado à sua barrica cognoscente, a doxa   das plenas dúvidas, de luz e sombra. E assim se faz o Rei Édipo, penetra a sua espada no próprio pai original, casa com a gênese, com sua caverna, Jocasta. E cega-se para não mais acreditar no lado da luz, morre caminhando entre sombras tal qual ele mesmo, ignoradas. A caverna que se ilumina? Encontro consigo mesmo, enfim?

O modo de virar o bagaço para fora, expelir da casca de Rhea. Para fora caminham os entes malignos, dúbias almas que grassam perdidas a fixar, como nas lógicas, as respostas mínimas, pequenas luzes que pousam sobre ramos de incandescentes árvores, episthemés. Ramagem das verdades sobre a árvore da vida, a verdade. E não se aceita opinião, age-se tal qual Zeus. 

Mata-se o pai, a fonte de eterna criação, Cronos. Encerrado na caverna do tempo, emasculado, Zeus engana seu pai escondido atrás de uma pedra. Cronos engole a rocha, a pedra como símbolo da construção sucessiva do templo. Pedra angular, o simbólico alicerce que se estabelece sobre o tempo cronológico para o tempo humano, a casa, a caverna de pernas da vida humana.

O novo tempo somente realizado por Zeus. Copula com a mãe Rhea, Deméter. Nasce a filha Perséphone dividida na profundeza da caverna subterrânea, a viver no atelier de Hephestus e subir à superfície da terra em quatro estações. A perfeita quadratura do círculo solar, terra dividida.

Proclus diz algo como que a ordem da soberania decisiva dos deuses se realiza na continuidade do reino intelectual divinos. 

O caminho da Pedra Filosofal alquímica em que se encerra o tempo, e o liberta para a transmutação. A pedra, pai. Igneo – luz da pedra, o início da saída da caverna. Realizar o princípio, o início de todos os tempos, transformar a luz prometeica em pedra, pedra de ouro. Presença magna, materializada divindade dourada, solar, eterno conhecimento (sonho da ciência), a vida em sonho.

Prometeu feito ciência e técnica unidas, a mesma coisa conjugada. Como está na explicação de Jacob Boehme[3] que é a razão pela qual Deus tolera que o homem ensine, e é ele mesmo o diabo. Cada desejo, que surge da pedra e da luz do choque de sua ignição, faísca do entendimento provém de seu próprio fogo e se faz em si mesmo entendimento. E assim de um mistério se vai ao outro. Ser a própria caverna, atravessar a luz de si mesmo, a dignidade que possuem os caminham porque reconhecem que se nasce, vive e morre, os três pontos desse enigma triangular por onde sonda, no panótipo eterno, Deus. 

E retomando à Esfinge (Enigma-Quimera), Édipo conhece a resposta. Sabe muito bem que para viver nesse mundo deve caminhar com segurança e desenvoltura. Édipo com o trágico defeito de ter os pés feridos, furados, inchados, andava claudicante, coxo, estranho, desconjuntado. Homem livre dos pés amarrados.

Édipo tem essa inflamação existencial, adiposidade trágica. Ele foi enfiado, escondido na mini caverna, em um cofre e jogado à profundeza do mar ou exposto no alto da montanha. Acima e abaixo surge novamente. Édipo mal anda, cicatrizes profundas de seu passado. Nasceu feito Zeus-homem que matou o pai e casou com a mãe e criou o novo tempo. São histórias de Édipo contadas e recontadas que aparecem e desaparecem como mistério.

Anda mal, mal percebe para onde vai, mas é muito capaz. Nele não há medo, pavor do desconhecido, ele sabe antes mesmo de se darem os acontecimentos. Um monstro à sua frente a ameaçá-lo. Se não responder corretamente a pergunta, a Efígie o devora. Ele responde corretamente da maneira mais ordinária, a mais pedagogicamente estudada, aplica o método do conto, o início, o meio e o fim. Édipo não vê direito, sabe que aquilo ali é uma coisa de outro mundo, desceu de algum prato jogado pela janela. Então, como posso dizer, Édipo volta à caverna das pessoas simples. Vai pé-ante-pé, com todo cuidado para não ferir a sua   repetibilidade , digo, suscetibilidade, a sua mísera cópia. Naquele momento,- Édipo é um mestre -, ele ensina como tragicamente aprendeu: todos no mesmo nível.

Anda mal e vê pouco. Não reconhece que aquilo à sua frente é a simplicidade, digo, o monstro que há de devorá-lo.

Imagina, no caso de Édipo, ele construiu o próprio tempo, o tempo de retorno sobre si mesmo. Temos um Édipo-Rei e um Édipo em Colona, o primeiro não anda bem e faz todo o tipo de bobagem porque não consegue entender as coisas simples da vida: papai, mamãe, filhinho, e amor, e carinho, e isso e aquilo. Essas coisas, para quem encara o Enigma, o Incerto, são para ele insignificâncias, ele não consegue, por mais que queira, entender essas relações.

Por isso balança de um lado a outro, possui uma raiva singular, engole a paciência com o silêncio que possui Cérbero à porta dos infernos. Eczemas, dores de barriga, uma angústia, treme quando lhe dirigem a fala. Quando não escancara a falar e mostrar outras passagens por outras Quimeras no deserto desolado das quantidades uniformizadas, partidárias, viventes aglutinados em grupos, terríveis inseguros que se transformam em temerários – por mimeses se transformam em corajosos e ganham medalha de heróis. É só ler a Ilíada, vai ver o adolescente enlouquecido.

Mas voltemos ao nosso Édipo desconfiguradoda psicanálise.  O prazer pós-hedonista do sexo e desejo eterno, o que impulsa, ou repulsa os humanos a cometerem o crime da vida, sinto muito, não pertence a Sófocles e nem ao seu personagem. É diferente, através dos contos, histórias, da tragédia de Édipo vamos descobrindo o que o faz assim tão fora do comum.

Quando nasceu disseram que ele mataria a família e se apossaria das coisas, dos tesouros, das riquezas. Melhor dizendo, ele se tornaria Rei. Mais rápido que puderam, a sua família – gente sofisticada de tanta simplicidade -, o enviaram para as alturas. Uma espécie de nascença novamente. Traspassaram seus pés e o penduraram de cabeça para baixo na montanha mais alta, o lugar onde os simples não alcançam. Amarrado pelos pés, preso no mais alto penhasco do monte Citerão.

Isso obrigou que a criança, durante essa crueldade, visse o mundo de cabeça para baixo. Ele balançava ao vento, frente às tormentas, raios e trovoadas, nos dias mais quentes e os mais frios. Estava lá. A caverna psicológica de Édipo só poderia ver o mundo de ponta cabeça. Tentava entender daquele alto astronômico, o que ninguém pode ver. Aquelas coisas pequenas, almas diminutas caminhando de lado a outro. Édipo entendeu de cara que aquilo não pertencia a seu mundo. Vivia além das alturas comuns em meio à toda probabilidade de morte imediata. 

Resfriado, pele macilenta, corpo estranho, ser esticado, preso àqueles ferros ou envolto naquelas cordas que o enforcariam rapidamente. Era aquilo como o seu cordão de nascimento. Só que ao invés de estar atado ao umbigo, eram os pés. Olhos cansados, vermelhos, cara faminta, alma da noite e do dia, sustentado por alguém que cuidava dele como um ser, absurdo e inato, o desconhecido.

Há outra história. Ele foi preso numa caixa do tipo cofre e jogado às profundezas do mar. Sobre a pressão incomensurável daquelas águas frias, na mini caverna, envolto por esse líquido estranho e torrencial, foi jogado de um lado a outro. Mas alguém o salvou de lá, ele se libertou de suas correntes e nunca mais saiu à completa claridade, ele inventou para si mesmo um jeito de conhecer o seus pensamentos e superar todas as dores e solidão, a luz própria. De dentro desse cofre ele conseguia perceber o que acontecia. Se seria arrastado, se cairia em alguma fossa, resvalaria em uma pedra, se girava, e era capaz de ouvir ruídos estranhos, de seu coração de seu corpo que se alimentava dos seis lados desse cubo.

Como diz Nietsche, que estamos todos enfeixado no sete. Acima, abaixo, lado norte, sul, leste, oeste. E contamos seis lados dos horizontes possíveis do cubo, o sétimo é o próprio Sete[4].

Édipo então renasce. Do alto dos hemisférios nietzschiano à profundeza dos desertos. Por isso cego em sua caverna existencial. Édipo caminhou acompanhado de sua filha Antígona no jardim das Eumenides. Elas que vieram da cava funda dos infernos, porteiras da morte que apaziguam os vivos. A ele, o cego e torto Édipo que retornado ao em-sí, integralmente penetra o terror transformado em bondade, um certo domínio entre acima e abaixo, ganhos e perdas.

O mal não atinge os que não veem, os que caminham com dificuldade, desequilíbrio de olhos e pés. Édipo sempre soube que sua passagem era garantida, a Esfinge seria derrotada. Como São Jorge, Ogum, ele, em toda a sua pura verdade, durante toda a sua existência, exterminou os dragões da maldade.

Ele também sabia que o seu caminhar lento o faria retornar à origem uteral de sua existência. Jamais ignorante, estúpido e mau, Édipo é protegido pelo indecifrável fim de sua partida, o início sombrio. Ainda sabe, que matando o tempo fatídico dos cronometrados impérios da ordem utilitária e funcional seguirá livre.

Elimina Laio, o pai de sua deficiência de passos e olhares, casa com sua mãe, Jocasta, (epicasta) como origem, princípio, gêneses de sua vida fatídica, Édipo faz o caminho contrário, caminha à frente. Paradoxo do retorno. Sabe que nascer, crescer, envelhecer para ele significa passar em vão, passos derrotados, desperto no escuro de seus olhos.

O porteiro implacável transformado em pura bondade das Eumenides[5]é ele mesmo redivivo descendo ao profundo trágico ético-moral de seu destino. O mais doce destino, entre bem e mal está no jardim, no bosque de sua vida. Lá os dias são pacíficos sem as humanidades presas de seus sortilégios, de suas ranhuras. O simples mata, o simples acorda cedo e espera o retorno para devorar o desconhecido, o grandioso. Por mais que se esforce em explicar como pensa, como se sente, a simplicidade o estraçalha.

Édipo, a singularidade independente, sem correntes, torturas e prisões. O desejo de entender aquilo que fala, que esperneia e grita, que trai. Para Édipo não há falsidade no mundo, bandidos, assassinos, acediosos, gente de grupo, que marcha feliz para a morte. Algo muito raso para quem conheceu o mar profundo, e muito baixo para quem vive nas alturas. Não acredita em monstros, nem em muros e menos em portais, conhece a resposta do Enigma, segue, vai à sua travessia.

Humano sem potência no caminhar, sem perceber o que está dentro e o que está fora. Calma quietude do destino. Emoções, percepções, sensações, aprendizados, pensamentos em conceito, expressões de liberdade não é possível para aqueles que são conformatizados, dominados pela ordem habitual do comum, dos plenos reificados, utilitários, formas de conteúdo geométricos dispostos em uma ordem obediente e sectária, comunitária e radicalmente co-dependente. Por isso o caminho do liberto é a sua prisão, mesmo que leia na cara do outro o seu destino, um outro qualquer encerrado no ‘simples’, na caverna de passos largos e olhos abertos das mais baixas vontades no comunitarismo fascistas de mesquinhos interesses. 

Por eles será morto. Não há entendimento do seguir que é voltar, de partir que é retorno. Sofre, portanto, não por suas escolhas, mas sua condição. Entendeu, mas não pôde compreender o que é a vida dos pequenos seres que via das alturas do Citerão.

Viver consigo mesmo, estar ilhado entre o alto cume e a baixura turbulenta do mar. Auto-em-si. Mundo intocável, feito de monstros, deformidades pegajosas e uivantes. A meio caminho, no Tao segue a vida épica de todos os pés-inchados que mal vêm.

O retorno de Édipo. E parece mais ser isso o que nos diz Sófocles. Ele quer adotar os demônios, ele tenta mostrar a sua face, aceita quem quer que seja. Para ele, todos são merecedores do lugar mais alto da montanha do saber e do conhecimento mais profundo do mar de toda vida. O retorno. A cada passo que, com certa dificuldade vai ao encontro do cotidiano, mais incapaz de perceber do olhar, o mais fingido e cruel, e o mais verdadeiro e amoroso qualquer sentido. Essa é a tragédia de Édipo. Ele sofre por não entender a vida desejada e comum do viver. Como é conhecedor das xaradas celestiais e do submerso dos oceanos, e ninguém o devora. E para voltar à sua caverna, ao   em-si   ele dá seus últimos passos frágeis e sempre claudicantes de homem livre no jardim feito por demônios infernais, ao inverso, de pura bondade e amorosidade, o bosque coroado que reúne as árvores da sabedoria, cego, e liberto.


[1]Como está em Sófocles em Édipo Rei – Édipo em Colona

[2]Trimegistus

[3]Sex Punctua Mystica

[4]Seth – mitologia Egípcia (Persa também).

[5]Proust, M. (1919) À La Recherche Du Temps Perdu, Tome III

À l’ombre des jeunes filles en fleurs, Paris: Gallimard.

O menino feliz

Para Pedro Felipe com seu vôo de alegria flamejante.

Ele queria ser estrela, mas vivia com a vovó que gostava do jardim e que não compreendia muito de céu.

–               Quero ser estrela!

–                É mesmo!

–                Lá no céu entre milhares de outras crianças iguais a mim.

Papai pediu que ficasse sempre perto.

–               Mas eu volto, todo dia, toda hora. 

–               E como fará isso?

–               Uma estrela que voa.

–               Com asas?

–               Estrela passarinho.

–               E super-herói.    

–                Super-herói, estrela e passarinho. Podia voar de vez em quando.

–                Só de vez em quando?

–               Quanto quiser ser pode. 

–               Posso?

–               Claro, mas tem algo que costura e tece, faz bordado e dança, canta e tem segredos, fala de mistérios e inventa que voa.

–               A vovó.

–               Bem, meu querido sabiá, você já entende e sabe voar. Obedeça quando eu chamar. 

O menino feliz sorriu porque é o melhor que meninos felizes podem fazer, e voou para o jardim, foi falar com o vovô. 

–               Por que você quer ser estrela, menino? Perguntou o vovô.

–               Para ser passarinho.

–               Passarinho?

–               Sabiá e voar.

–               Voar.

–               Serei super-herói.

–               Então vai ser se você quer.

O avô tirou a capa do armário e o vestiu de mago.

–               Quer  voar?

–               Eu quero, disse ele de asas novas, feito estrela de sorriso iluminado

A vovó costurava, sentada no banco do jardim.

Ela fez um sinal de mistério. Ele entendeu que não podia correr e gritar, pular e voar.

Era aquela cara que deixa curioso, uma cara daquelas que parece diferente de outras quando conta histórias. Seguindo o olhar da vovó ele entendeu e foi como um mago que anda sem fazer barulho.

Escondido atrás de sua capa ele se aproximou da vovó.

Então ele viu o sabiá carregando palha no bico. 

–               Ela come isso?

–               Querido, os sabiás estão construindo ninho.

–               Mas por que carrega no bico?

–               Os sabiás fazem ninho com o bico. É melhor, mais fácil de carregar, além disso o bico do sabiá ajuda a costurar.

Ele pensou: os sabiás são como a vovó, costuram no jardim.

–               Onde será que estão costurando?

A vovó, paciente, explicou que para saber deve-se ficar a ver aonde voam. 

E ficaram a ver as idas e vindas do passarinho. 

–               O ninho está no manacá.

–               Você sabia que o sabiá sabia assobiar?

O menino ria enquanto a vovó procurava o ninho.

–               Sabiá me ensina a voar.

O jardim ficou quieto. A vovó cochichou:

–               Está ouvindo algo diferente?

–               Sim, plic-plic-plic. O que é?

–               Estão costurando.

Descobriu-se no alto do pé de manacá ainda florido, o ninho do sabiá.

–               Veja, está ali onde costuram.

A vovó chegou perto. Abraçou o menino.

–               Onde?

–               Naquele galho.

Ele ficou muito empolgado e desejou ver de mais perto ainda. A vovó explicou que era muito alto, e estavam trabalhando na construção do ninho. 

–               A concentração dos sabiás no trabalho de fazer ninho costurado. 

–               Ainda mais que se espantariam, poderiam até partir, no momento que vissem um menino.

–               Por quê?

–               Os sabiás temem que sejam capturados e levados presos para uma gaiola.

–               Mas eu não vou prender, quero só ver como fazem o ninho, vó!

–               Sei disso, meu bem, acontece que faz muito tempo que as crianças, e os homens prendiam sabiás em gaiolas. 

–               Aprenderam a ter medo.

–               Sim, ensinou-se o medo. 

–               Devido a isso, não podemos nos aproximar muito, arriscamos que se mudem, que nunca mais façam ninho por aqui, que se transformem em super-heróis no planeta dos sabiás que é o manacá.

–               Bem, isso mesmo.

–               Eles têm medo das pessoas e é por isso que canta daquele jeito cansado e alegre e forte e fraquinho. 

–               É que o canto do sabiá é muito sentimental, ele canta com uma alegria tão grande, depois com aquela voz de saudades. 

O menino feliz deu aquela risada cheia de felicidades.

–               Voz de saudades não existe. Quer dizer, não existia, eu acho. 

–               A gente ouve a canção da tristeza e da alegria. quando o sabiá canta?

–               E saudades… Hein?

–               É bem assim, você falava com o papai, e ele acenou. Depois desejava vê-lo de novo, e ele não estava lá, saiu.

O menino ficou com aquela cara de mago que voa e é passarinho com jeito de estrela brilhante.

–               Cadê o papai, disse com aquela voz.

–               Veja só, essa é a voz de saudades.

O menino abriu as asas rindo.

–               Vó, não vale, você me pegou. Eu vi o papai na cozinha.

O vovô chegou, o papai também e sentaram-se os quatro no grande banco do caramanchão de Alá-manda.

Ficaram estáticos, quietos, ouvindo. Era a canção do fim de tarde.

–               E porque prendem os sabiás? 

Começou o papai:

–               Talvez por isso.

E o vovô continuou:

–               Quem sabe por aquilo.

E conversaram, e riram, tomaram café, e contaram histórias, sentados à mesa do jardim, e provaram o pão quente o leite.

Imitaram o  passarinho, e o menino, de repente, era um sabiá.

–               Sabe de uma coisa? Você é o menino sabiá, o menino que não tem medo de cantar sua alegria.

–               Eu sou assim, o papai deixou, e depois, fiquei mago, super-herói e estrela.

Deu um salto e saiu voando pelo jardim, assobiando.

E o avô o reconheceu quando passou por cima do telhado, quando desceu sobre um galho gordo do pinheiro, e, depois plantou bananeira no ar.  Foi tão incrível que todos lá de baixo não resistiram, gritaram: muito bem, e aplaudiram quando passou rasante sobre a horta.

– É um menino feliz esse meu neto.

Então, com sua risada de passarinho super-herói girou feito parafuso.

Desceu junto à mesa com sua capa de mago flamejante de vento do céu para provar o bolo, dizendo que estava cansado.

– Estava lindo o meu sabiá!

E novamente saiu voando no céu azul e dourado com sua capa de mago.

Enquanto voava, papai correu buscar o binóculos. E cada um olhava o céu imenso com aquele menino feliz com sua capa de mago flamejante de vento e de céu.

Quando a Estrela Vespertina apareceu pousou lentamente perto do manacá.

Voa de novo, disse o papai.

– Não posso, agora sou estrela.

E todos compreenderam.

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Pedro Moreira Nt

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Leia PÃO a história de compartilhar e afetividade.

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Pedro Moreira Nt

Prolixo e Letal

Para Caio Antunes

Velho Estirge de minhas tempestades

Velho Estirge de minhas tempestades cavando a vau, arrastando Odisseu. Se soubesse quanto tece Penélope os traços de sua passagem. Se ao menos houvesse nele o que o Lete lhe entrega de rugido e esquecimento. Não sofreria um instante de sua loucura cômica, nem diria o que disse a Polifemo, nem embalaria Circe em sua memória, e jamais entraria no mundo de Hades de seus pensamentos, nem mesmo entregaria ao toque a sua pele manchada de sangue à Calipso, por ser em si a beleza e o terror de sete anos. E em tudo navega e Minemosine o apresenta exaltado. A fúria que vem da paixão e desejo. Fecha os teus ouvidos, abre os teus olhos e grita. Passa adiante do impossível. Trabalha o mar, arrebenta o óbvio, joga à areia as perdidas horas, os fracassos dos que permanecem, dos que retornam em destroços.

Vem ao Lete e bebe de sua água, o claustro amigo dos habitantes de si mesmos. É o seu trabalho de escravo, segue a ordem dos desmandos, correnteza abaixo, de si esquecimento, desmedida fonte de eterna perda.

Lete, o rio do esquecimento pode nos levar ao estuário do eterno esquecimento. Esquecer como a dizer que segue no esquecimento. Não lembrar, no logos ou no movimento do rio parece denotar um processo contínuo de impossível vida. Difere do rio Estirge, de morte totalmente explícita como passagem ao outro lado. É todo contrário à loucura da eterna lembrança de Minemosine. 

No caso desse esquecer é diferente. Suavemente vai se esquecendo, retirando de todos nós o significado da vida. Não é gradual porque como rio, se faz fluente. Corrente encadeada do que se perde a todo tempo. Perder sem meta, perder sem concorrer ou competir.

É a perda da consistência do pensar, um pensar que se desmembra que tecnifica, que é de alguma maneira modificada para a repetição, retorna sobre si mesmo. Hábito de fazer e refazer, de atuar até a perda completa do sentido que se possa dar um pensamento retomado.

Não volta, desce o rio Lete, levando consigo os entulhos do conhecimento que atrapalham a técnica, e que constituem o conjunto intrincado da tecnologia.

Repetição é algo randomizado em que o esquecer é a ordem. Esquecer do quê? Da moral, dos valores humanos, das decisões que a palavra doma, que o pensar se materializa, que ajusta a uma unidade, de singularidade que se expressa, de singular de existência social. Não há ética quando o processo do esquecimento se realiza. Desmancha-se nas águas do Lete.

Esse Lete retomado aqui é um Lete diferente do tradicional mítico, ele está mais afortunado, mais ampliado. Suas margens conferem barrancos imensos, e é profundo em sua rasura de saberes, o rio não recupera nada perdido. Constituíído de forma maquinal o Lete segue corporificado os que desaparecem. Ele mói, arrasta, retira da pele do significado o couro dos sentidos possíveis, retira a possibilidade enquanto mudança de trajetória. 

Engole as almas das palavras jamais pronunciadas, constrói ausências em perdições. Por isso é letal, fere a vida, atua no torvelinho da moenda das águas. Não se sabe o que se faz, mas se realiza o tempo todo no caminho da insanidade completa.

O belíssimo e intangível Lete é imemorial. Morre quando nasce e vive no morticínio, uma morte em vida, recomeçada no ato.

O Lete se espraia, arrasa as reminiscências, desagua sobre si mesmo as vidas aquosas, e freme, e se levanta em ondas terríveis onde o mundo ordinário se constitui, em duplicidade. Tira tudo, lava, enxágua a inteireza do singular, desmonta a identidade dos que mergulham nele para seguirem à nudez ultrajante da história jamais contada, dos que desaparecem, dos que somem no sumidouro.

O grande fator amoroso do Lete é justamente provocar o insondável. Tudo nele é de pura verdade letal. De morte grandiloquente e indigna, mas jamais percebida. E depois de molhar, afogar, em seu debater constante, o Lete ainda faz mais, e com mais precisão cirúrgica, tira dos seus nadadores, dos que bóiam em seu leito, não apenas as lembranças de humanidade, retira a incerteza, a dúvida, o questionamento e a vontade que é a cola da integridade. Por isso é amor, naquele sentido exato de quem ama, que se esquece tudo o mais para o amor amado.

Lete maravilhoso que faz com que todos se reproduzam, aumente a prole, aumente os números dos mais belos mortos-vivos, isso quando entram em suas águas, quando são levados à benção que diz, que o passado vivido, as vivências de toda memória está agora nas ondas dessas águas extremas, agulhas doces, mansas e deletérias. Cravando no ser o que é impossível. Mais e mais corpos flutuam na calma sensível do Lete que corrói como ácido açucarado toda a dignidade. E se pode dançar de um lado a outro como se estivesse em uma festa em que tudo o mais não interessa.

Sabe, sinto que é emocionante ver o trabalho de Lete. Ele nos abraça com o calor úmido de sua eterna vaga, distensiona as nossas angústias, retira de nós a ansiedade, e come o medo e todas as mais trágicas incertezas. Podemos mais gostar dele, sentir que logo mais não sentiremos nada, e que tudo que pensamos ser se desata, submerge, desanda em suas águas.

Vamos aos poucos vencendo a vergonha de sermos tantos. Sai de nós aquelas gentes, aquelas coisas falantes, aqueles momentos eletrizantes, as dores que nos cobria a tristeza, o sofrimento, e assim o Lete faz a individuação. Lete lento e constante mata a alegria, porém, que interessante é, nos dá a quietude de sábios, e voltamos de suas profundezas limpos de dúvidas, e nos tornamos integralmente nós mesmos feitos de si-mesmos. E nos manifestamos e nos expressamos com indiferença.

Esquece tudo e vamos, siga o manual: “Let’s go!”

Em prol de Lete que tanto produz em sua constante reprodutibilidade o certo coeso do óbvio, do que é e está à frente, e em todos os lados. O Lete nos faz únicos, focados e definitivos. Pro-lete, a favor de sua única verdade de criador magnífico da individualidade. O

Lete amassou a massa, escavou o íntimo. Sem pensar, sem ponderar e sem mais nada. O lixo das misérias humanas ele acolhe com o carinho necessário, retirando qualquer dubiedade e ninguém nele sofre. Em prol de retirar o lixo, prolixo, para o Lete aplicado no sistema de lavação.

A imundície trágica do interrogar, de perquirir, do buscar Qualquer resposta é completamente filtrada.

A técnica e a tecnologia do Lete é insuperável, a ciência que atua direto no objeto, e toma dela toda a falácia, e completo sofismo, e faz alguém íntegro de vazios, sem erros, obediente, medido, capacitado.

Ele nos banha tirando as arestas, perfeito design de perfil, instrumentais e apostilados, totalmente em pedaços válidos e úteis, de utilidade preenchida com a função inscrita desde o original pecado cravado na testa.

A marca, o desenho da dança, o traço, o risco que planifica a peça que cabe, correta engrenagem.

A prole que será higienizada aguarda o seu momento. Será homogeneizada, uniformizada, numerada e ajustada. Proletário sonho de verdades, realidade de águas do tempo, sem história, sem sociedade, e, sem dúvida, com a benção letal do esquecimento. É realmente prolixo.

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Conheça o autor:

https://read.barnesandnoble.com/book

/frente-ao-espelho/titlepage#1

Um bife:

“Serei um desencanto, um lixo vulgar, aquela  mendiga, aquela pessoa que não ama porque não se possui. Riquíssima, e andarei como na tradição, desviarei das merdas no caminho (anda) ao modo de dama inglesa, desviando do coco, caminhando sobre o fio elétrico no descampado da existência sem esperanças. […]

[…] Mas sou velha como esse vestíbulo. Esse vidro sem alma. Há uma fresta, um buraco no aço (toca o espelho) ausente de todo ausente. Não há crença e alento, mal se vê a lua, o céu, e nem se acredita em estrelas.

O tempo uma distância que cai sobre o passado. Pouco sabe o que são as passagens tristes das nuvens e suas esculturas, não se joga no azul infinito. Piso a terra firme desse mar de vermes que sinto que me devoram.”

Pedro Moreira Nt

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Rio verde de olhos claros

E se espera que conversem as palavras, e desçam o rio para encontrar outras, em ondas de devaneio. pmnt

Conheço isso aqui na peneira. Do lado de lá tinha um poço. Caiu muita gente no poço, ninguém morreu.

As pessoas sabiam que tinha o tal poço, mas ninguém se dava conta.

Em cima do morro, onde a tarde vai embora, o Volnei colocou uma antena de rádio. Isso era no tempo meio antigo. Ninguém sabe com quem falava, vivia no câmbio, falava e dizia câmbio.

E daquele lado, onde o sol nasce havia uma costureira que salvou muita gente com espinhela caída.

Micalina Gruse costurava o corpo, pegava um pano branco e à distância. 

As vacas girolandas vinham mamar essa água num raso perto da fonte. A Carmelinha aparecia para buscar ao meio do final de tarde. Ela trazia um embornal quarado com um litro de café tapado no sabugo, um pano branco com nós, um lanche amarrado, uma linha enrolada no osso, um atio com espigas verde e livros. Deitava ao lado da pedra e jogava a linha no rio, fazia a espera, enfiava o osso na terra, mordia lenta as roscas, emborcava o café frio, e lia solta no ar que nem pandorga.

– Car, Car!

– Quieta! Carmelinha gritava baixo com a voz raspada e vibrante

– Car, você está aqui!

– Na casa da mãe que não.

Vez e outra, a gente via, ela se esticava lépida e trazia um peixe rindo que só, embrulhava em folhas de taioba e voltava às palavras. Quando o lampião da varanda acendia, ela chamava as criações que vinham batendo os cincerros, batia o vestido, ajuntava as tralhas e seguia para casa. No inverno, no tempo das geadas Carmelinha ajudava no corte do capim para o gado, mas não deixava de descer para junto do rio, do alagado. Passava das horas, a gente sabia que ela estava lá do jeito dela porque havia ao lado da pedra alta um braseiro que ela cuidava.

Um dia vi um morcego, o tal Naldo que se aproximou dela como quem viu nada.

Eu primeiro me espantei, depois vi o canhestro subir a serra. Ela lhe deu de rabo de tatu e ergueu a garrucha. Nunca mais apareceu. Parava na rua e dizia ‘boas tardes dona Carmela’, ela nem erguia os olhos. 

Ela foi direto para o Colégio Agrícola e depois fez aqueles estudos demorados por causa de uma bolsa que recebeu. Até viajou para outras línguas nesses troços que Deus faz andar no ar. Voltou de calça e bota fina, vermelho na boca, cabelo amarrado, chapéu de um bico só, camisa de moça feita, e um jaleco enfeitado.

A casa estava arrumada, os cantos da roça limpos, o curral cuidado. O Ernesto se despediu do mundo um ano e meio antes que dona Carmela pusesse os pés em casa. Ela gostava muito dele, aquele pai quieto e mantido na reta. Ia para a cidade e voltava com livros. Nos domingo iam à missa para ouvir o Repolio, chamavam o padre de Seu Repolho, um sujeito enrolado nas palavras e lento na oração.

Diz que chorou muito que o pai se foi. Agora está na casa a cuidar de Meridiana que sofre das pernas e quase nem anda.

Quem cuida da casa é esse lá, lambe o chão do chiqueiro para ficar perto dela. Deu de ler, deu de mandar carta, e de plantar até samambaia nos vasos. Ele é bom, não de pequeno. Quando era guri saltava os córregos e maltratava as criações, saia de seta no bolso e trazia rolinha na aljibeira. Era gritão de voz grossa e barulhento nas minúcias.

Ela não fala com ele, não dirige palavra. A mãe que chama e faz um jeito para ele ver o serviço. Antes de morrer o Ernesto lhe trazia na violinha, ia bem.

Uns cadernos que o velho empunhava debaixo do sovaco para aprender as contas e passar o sentido dos palavreados.

Não ia à escola, cavalgava e corria os matos. Sei bem que perscrutava a menina. Sentava longe como que esquecido. Agora se amarra depois dos quinze anos das escolas. ‘Um baita, a gente conversa e vai’, dizia que aprendeu amansar quieto de não ferir a inteligência do tal. ‘O bicho é mais gente’, dizia o Ernesto arrastando os tacos do tempo. Ia cambaio à venda subia uma meia prosa e voltava na charrete com o Gigante. 

Ernesto não estalava, só pedia ‘me leva Gigante’ e chegava até a cocheira. Demorava, erguia o varal, tirava os arreios e lhe dava um afeto. Era assim.

O moleque apareceu e ele amansou na palavra, na viola e na escrita. Foi pouco. Depois ele mesmo agarrou em ler aquelas coisas amontoadas que a menina deixou antes de ir para a capital, para o estrangeiro, para o fim da curva do vento – como se diz. Usava uns jeitos, imitava os descansos na represa e juntava os peixes, ficava, eu via do alpendre que mais se dava na fogueira e na linha de meio lançada no sandol. Estava um bruto com sinais de alma.

Mas era um bruto. Dona Meridiana o atendia todas as manhãs e lhe dava a marmita quando subia até o milharal, depois, antes das cinco ele descia vagarento e sentava à mesa. Ela ensinou boas palavras e as mãos lavadas, comer de garfo, abandonar a colher, e ir para casa sem parar na venda.

Naldo de nome Agnaldo ficava um tanto mais até a noitinha para tocar a viola com o compadre. A gente ouvia daqui de casa os duetos deles. Depois ia para o lugar das Jacas, uma taipa arrumada com um burro velho e algumas galinhas. Terra limpa com pouca cultura.

O Gerson e Dona Eni faz tempo tinham desistido, trabalhavam de à meia, e queriam o Naldo em casa. Ele não queria capinar a terra dura. Depois da estiagem, quando veio a primeira chuva, ela partiu e o velho Gerson que já era triste de folga acabou quieto. Cuidava do pai, trazia a ele as frutas de época, limpava a casa com uma vassoura de mão e o ajudava deitar e levantar. Fazia a comida antes de caminhar para o sítio.

Ninguém sabia que treinava falar bonito, que lia de voz aberta e cantava afinado para agradar o pai que pouco saía e Seu Ernesto que o cuidava. Sol a sol e capim molhado, o menino deslizava um tempo de horas no lampião para aprender alguma coisa que ninguém explicava.

Quando o Ernesto teve aquele troço e caiu duro na varanda ele sumiu para os matos por dois dias. Sentiu dor e medo por deixar a terra, voltou com olhos duros de frieza pura. Ajuntou de cuidar do pai com toda a força que podia, levava no doutor da cidade, trazia no gosto do tempero.

O homem ficou melhor e ia mais vezes à venda na Rocinha para conversar. Assim também, se sabe muito, ele vinha rápido para sentar-se à mesa e fazer as orações pra Dona Meridiana. Ela também se aprumou e seguia sempre para o clérigo e conversava com as comadres. ‘Carmelinha vem no fim do mês’, dizia ‘ela escreveu, e o que mais diz nessas letras? Ela tem um desenho de palavras que mal entendo’.  Naldo que mal dormia nas leituras de voz alta, de pegar os cadernos e fazer as contas inventava que a menina demorava pouco, que sentia tanto a falta que daria um jeito de retornar.

Foi que resolveu escrever para Carmelinha dizendo que o pai havia morrido, que a mãe estava bem, que cuidava do rancho, que a ajudava na saída para visitar o vigário, o velhinho permanecia na paróquia e não mais rezava a missa, mas cantava o bingo nas festas, e que se pudesse dizer alguma palavra, responderia.

Contou da mãe e a dor de sua partida, que o Gigante estava no pastinho, muito passado da hora e que passeava junto à cerca chamando no relincho o Seu Ernesto para ir à venda e que, ele mesmo, fez um passeio lento à pé com o bicho de ida e volta à venda dizendo no fim ‘me leve para casa’ e soltando o animal sem carga, ajudando que descansasse e que se divertisse um pouco mais ao fim da vida. Ele balançava as orelhas como se entendesse.

Não veio carta em seu nome, ele leu para a mãe dela as notícias do lugar distante, as orações e os pedidos de paz no coração, e que demorava, mas viria quando pudesse porque tinha trabalho num lugar de língua difícil de dizer. Novamente Naldo escreveu e explicou os aflitos, que o pai dele estava bem, carregava o embornal e muitas vezes jogava dominó na Rocinha. E que a sua mãe aguardava a volta, que tinha cerzido umas roupas para a briga, para manchar na terra, e se ela quisesse, achava, lhe cabia bem.

Atrás da Igreja perto da casa verde onde morava gente estranha, gente de escritório que pouco se conhece ia à uma tal aula noturna uma vez por semana e que já se adiantava e podia seguir para continuar o aprendizado. Explicou que enviava no correio as provas feitas e que por mês recebia as respostas de suas notas. Havia uma chance de virar a mesa e sentar em uma escrivaninha.

Mas não sabia porque gostava de andar, da terra, de cuidar e que não havia trabalho para gente que nem ele, ou ofício de escola que pudesse cumprir. Em que se formaria? Como faria uma coisa dessa? De que jeito? Não podia abandonar um passo atrás do outro na lida diária, de pai, da casa, do terreiro, dos animais, de Dona Meridiana, e da roça que movia com empenho, isso tudo não dizia, fingia que ia dizer algo e usava outro verbo, inventava alguma coisa para acalmar as idéias.

Copiava as poesias de gente de fora, as letras das músicas que cantou com Ernesto. Afinava a viola do homem e movia os braços cada vez mais adiantado. Escrevia cartas vazias para Carmelinha, mostrava um trecho de suas poesias. Brincava de poeta e voltava para os cantos, mês a mês em calmo silêncio. Terminou-se letrado nas coisas das palavras mas não deixou os barrancos.

Ela entrou pisando firme e deu as ordens da casa. Sabia o que fazer. Sabia do tempo deles, das horas marcadas por isso não mexeu em nada no que se diz do jeito, dos modos que a vida trazia o dia. Levou a mãe ao cemitério para as flores ao Ernesto, ajudou a enterrar o Gigante, pagou as demoras a Naldo, e foi molhar o anzol como sempre fazia por um tempo.

Caiou a casa com ajuda do menino Naldo, arrumou o potreiro e vendeu a safra. Ajuntou os ganhos e carregou a mãe embora para um canto do mundo. O sítio ficou na guarda de Naldo que recebia às à-meia e administrava.

Ficou sem esperança, mas cuidava de Seu Gerson como se cuida de passarinho. Vendeu a propriedade para o Marcílio que lhe veio ao canto de olho apresentar a Josefa, uma menina rica de falas grudadas no chiclete. Até foram num baile. Viram uma tela e conversaram um pouco. Ela não gostava porque era rio quieto demais para a sua alegria e o deixou.

Depois dos trinta e poucos, eu já andava meio que na soleira e Marialva dormia mais que balançava na cadeira, passava um tempo na Rocinha e assinava uns papéis que ninguém sabia. Naldo inventava, isso se sabia. Bota polida para entrar em cartório, camisa passada. 

– Quem cuidava? 

Ele mesmo. E se soube que mexia numas terras que o Marcílio dispunha porque era distante e nada valia. ‘Muita pedra, não se cultiva, quase seca, um rego fino é só que passa lá, e tem muito mato, atrapalha a plantação, se quer mesmo eu arrumo’, ele se entediava que o quase sogro o queria bem ou se não, de mal a pior.

Não tinha muito, mas era o suficiente para comprar três vezes o que valia, ofereceu menos, bem menos quando o Marcílio pensava na filha, na vida solta que ele não desejava. ‘Ela muda, acredita rapaz, fica bem, tenta de novo. Ela gosta das suas maneiras, vai ver’, oferecia para que a mocinha não ficasse no passeio, abraçando filho de fazendeiro que morava na cidade e vinha apenas para tirar casquinha dela.

Aquela gente de botina pintada e música ardida de altura arrastava a Josefa, que odiava o nome que ganhou da avó, preferia Jo que dava um jeito chique para diminuir o defeito que achava.

Fez o negócio e procurou Josefa, a Jo. Ela escapou, fingiu desprezo e desgosto, não gostava do campo, queria viver na cidade grande onde se podia ir nas festas e passear.

Ele a levou. Corajoso, homem de pé manchado na terra, mãos pesadas. Entraram, conta-se, num lugar de dança e dançaram, e passaram a noite um lado ao outro por quase um mês. Ele se admirava com uma livraria de usados. Pouca fala, fuçava feito o Campeão que estava no morre-não-morre e zurrava cansado, mexia nos livros amontoados, ajuntava no peso, carregava caixas. 

Ela achava tudo aquilo engraçado, um matuto de quase 1,80 de altura com cara besta no meio das escritas. Ela não concebia, olhava aquele bicho criado com um pouco de pena, mais dela que sempre quis riqueza e jamais sentar em casa. Na verdade a menina braba se invocou. ‘Isso não tem doma’, achava que ele seria sempre aquele lago quieto com uma tristeza abarrotada de não-querer. E ele pensava dela que jamais deixaria de ser assanhada e gostar de festas e festas e luzes e brinquedos de cores.

As aparências enganam, ela possuía a fibra de aço da família de Dona Inês, uma senhora dama que dobrou muito chifre de bode e veio para a terra de unhas pintadas e cavou as fazendas que possuía uma a uma, e casou com Marcílio que fez o mesmo de bota e ferro em brasa. Eram gente louca e de aventura definida, não deixavam cacarecos para trás, carregavam tudo.

E ela, com aquele jeito de apaixonada por uma vida feliz do tipo parque de diversões e baladas caipiras escondia, ou melhor, não mostrava a sua face obscura, os seus pés de raízes de angico e suas mãos feitas de espinhos de paineira, o cérebro carregado de ambições e de terra alagada, alma de profunda caverna carregada de esperanças e gostos requintados, daquele jeito de fazer o pão sovado, do requeijão que pede três horas sem parada de mistura e de enchada afiada para cortar o sereno e pedra-ferro. 

Os olhos de Jo eram iguais ao da jaguatirica de ataque imprevisível, e de ferocidade, porém de pernas altas como o cachorro guará, ativa como o cachorro vinagre e suave como o gavião quando plaina e certeira quando salta sobre a presa e a domina e estraçalha como uma bordadeira de fina delicadeza. 

A Josefa gostava mais dos números e de uma língua que ninguém falava. Era uma doença, uma coisa que se repetia na cabeça dela, que fazia sem parar durante a noite e a obrigava a cuidados para não deslanchar noite adentro e despertar acordada

Olhos de lua no rio verde, claro na noite faiscando os dentres de alegria. A menina pescava, e ele cuidava de nunca ficar triste.