Alice – Fernando Cardoso na Galeria Ybakatu

Eu queria ter um pouco mais de entendimento da vida, de chegar ao médico a essas horas da tarde e pagar o carro que me levou até ele sem nenhum pesar, de arrumar as coisas no seu lugar e de deixar mesmo que haja fios grossos de chuva, manter a janela aberta e ajustar em carretéis essas pratas de tafetá, essas transparências líquidas de prata sem ter em mim nenhum desafeto, sem que haja dúvidas, que acertasse da primeira vez um traço no ar, fizesse um crochê, apertasse nas mãos a naveta e a jogasse entre essas ondas estáveis, verticais que dançam, e pudesse tecer esses desenhos tão puros como o biés que dobra em duas partes o tecido e o protege contra um desfilamento, fizesse dessas transparências o tricoline sem manchas de fábrica, sem colas, leve. Pudesse assim, tipo enfiar a cara nessas tramas e aparecer do outro lado com a minha cara de paisagem, de desmedida horizontalidade. 

E alguém visse de passagem e dissesse que estava tramado, solto entre linhas, despachado no desenho do que sou formado, água de chuva virado, recorte, desvios de linha mínima, de sombra dobrado. Esse rápido de teias, traços levado, essa conspiração que possuem os que vêem e querem desvendar.

Logo hoje, ante passeios no setor de recuperação humana, logo hoje que uso venda nos olhos ante a claridade que a estupidez em marcha insiste apontar que há um louco na esquina, hoje que logo acaba eu me retiro desse torpor, a clínica distante, o dinheiro faltante, as ajudas elementares de parentes, as corriqueiras variações de temperamento da gente fria e servil, eu me defronto comigo, sem sedimentos, cabra-cega. E se põe a surpresa de encontro.

A galeria traz esse circuito de Fernando Cardoso. Em minha mais vasta ignorância em artes visuais, do alto mais rebaixado de toda a insensatez fico quase estático, meio bambu, fibroso e cheio de nós. Vou dizer, deipois de tanta enrolação vou dizer sem gritos o que me toca.

Os desretratos, sabe. Parece que é uma foto que se esconde atrás de uma trama de alegria de viver. Algo de ser.

Vou falar. Depois eu me digo que já disse, e que nem recupero o dito que a imagem, mais que escritura entrama palavras não ditas. Os elementos, essas categorias que a gente tem de dizer que existem porque pensamos que existem. O papel do tipo jogado, não sei contar. Suporte dessa liquidez séria e de estado de alma perene. Não que seja estático, ao contrário, não mesmo, nada disso. As figuras de Fernando Cardoso parecem que embalam ele mesmo, tem esse andar parado, sabe. Tem esse dizer não dito que diz estou fazendo isso agora, e sinto isso, e isso é um significado que vai ganhar sentido, vou andar por aí, descansar por aqui, vou ser eu mesmo hoje, agora, nesse instante fluido de tudo e de nada que é assim.

Ele usa a aquarela como que massa fina, bem leve, como que nada, e dá essa sensação que sai dali para algum lugar, vai conversar com a gente. Acho que é isso, a impressão que o artista sai da imagem, e a gente fica com a cara dele como que fosse também sair wander por aí. Em seguida esses riscos certos que não são certinhos, mas não tremem, não desfocam, nem vascilam.

Algo vai acontecer. Ele usa disso, da trama secreta de Ariadne que move o tesão, o pedaço cortado de lã que faz o fio e leva o príncipe Teseu a buscar a memórica fictícia de um amor derrotado de Minos, vai por labirintos acabar com essa retórica, – e com essas palavras que caem no desvão -, eliminar o Minos-tauro, o Minotauro das incertezas.

Sabe, eu vi, – e a gente vê demais, vê que é V que é delta, que é levante de intenções.

E ainda por cima a lua, que é a gata, que é Diana, Basta, o arco que se aponta ao distante. Símbolo que não é. Materialidade de um ritual que abraça os sentimentos, essas formas, essas passagens que o artista faz.

E ele se deita ao lado da flor de liz aberta, a flor de um azul interno perfumado que é a cor da sétima, do arco-íris, o nome de Jocasta, a violeta. E todos ficamos assim, deitados, enfeitados. Édipo que usa óculos, que anda diferente desses que marcham, dessa correição, desvinculado das coisas rasteiras, o cara jogado, despreocupado com as ninharias. Por isso a psicanálise dança, por causa disso.

Atrás vemos essa mancha laranja, essa cor de embora, de ir bora, vermelho carregado de fim de tarde, de deserto avermelhado, que é o bicho, o Sete no cubo, na caixa de Pandora (uma outra configuração do mito). E a gente foge desse pavor que se sabe jamais a tarde de poeira, de cruel existência, de ser queimado ao sol inclemente, de ficar preso no oceano do ar nessa caixa, de ser amarrado e pendurado. Jamais esse estado de território demarcado encontrará a manhã.

A manhã úmida e perfumada, depois da chuva. As cores arcadas, portal de vida com seus cordões dourados (alma presa no intestino, no umbigo) essa arcada luminosa que se quer atravessar. O ouro desses cordões enlaçados, materialidade da luz solar, da divindade, do além possível.

O óculos com a cor do amanhecer de Ishtar, Esther que nos guia.

É muita poesia para tanta clareza que a imagem diz. Mas eu sou exagerado, sou parte desse vento, dessa chuva.

E cordões, cobras entre-movidas, rabo de cobra, cabeça repousada. O que diz, o dito já diz. É só inverter o comum, inverter o reflexo de Adônis, ao invés de se jogar sobre si, cair na água estar em suspenso, facho luminoso de fogo. Fiquei estagnado procurando um lago, jacintos. Essa sustentação que flutua. Sai de si o que lhe configura.

Deixo o médico para depois, deixo as horas não dormidas no bolso onde vivem as rasuras e vou para o café, para casa, para um lugar que vive ali, bem ali o que está ótimo, está bem lá o que o artista faz.

O caderno vermelho, quase vermelho, fim-de-tarde, e nele o carretel, o fio dourado, e dentro o entrameado que o sustenta, que é assim. Assim, feito dessas estruturas de Ariadne que é abandonada em Ítaca para viver a eternidade com Dionísio enquanto Teseu, esse esgarçado ser feito de lá segue o fio calmo de Egeu, seu pai, segue no mar de suas incongruências a encontrar o seu caminho. E a gente fica no caderno como se fosse escrito o que diz tanto essas palavras não ditas.

Ele conseguiu fazer com que o amanhecer encontrasse o entardecer. O casamento do céu com a terra de Blake, deu certo.

E Alice que faz isso com Lewis Carrol, faz Fernando Cardoso nos atravessar a alma-espelho, seguir como peões desolados desse jogo de xadrez, até a borda, até a salvação do reino, e faz isso rápido, como que saísse dali e atravessasse fronteiras, e as cartas de seu arsenal criativo envocam a rainha, transportam a inteligência que o relógio não suporta, que o gato ri a gosto das coisas da vida, tão presentes nessa atmosfera que diz algo como: sou tão liberto que você que ao ver, – e vemos -, leva-me contigo, e a gente leva isso tudo de calma beleza.

Alguém olha de relance essa bondade imersa de sentimentos, essa atmosfera que a ordem das imagens diz que continua, que segue, que além deles ali, dessas pessoas, também está no vazio o que mais sabemos ver, que nos vemos como personas, como máscaras de dever, de obrigação, de metido a besta, e cai a venda, o tecido do esconderijo dos sofrimentos (tão pomposos, tão ridículos e em si-mesmos) e nos damos de frente com a simplicidade rara, que é assim o simples, a teia, o fio dessa teia, essa imagem equilibrada, a arte de Fernando Cardoso, a intimidade jamais jogada à parede como que nada, mas o arco dessa luz, cordão esticado para essa doce alegria de viver.

Alice

19 de agosto a 13 de setembro de 2019

Galeria Ybakatu

Rua Francisco Rocha, 62 Lj. 06 Batel – Curitiba/PR

Tel: +55 41 32644752

www.ybakatu.com

Fernando Cardoso

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