Iara

do vestido preto

As pessoas de teatro. Gente marcada na pele, as emoções em caldeiradas que conseguem sobrepor o que um autor escreve e fazer nascer a expressão máxima. Sempre me disseram, amigos, ex-amigos, ex-conhecidos, ex-colegas, ex-estranhos além de diretores – técnicos da cena -, professores imensos, em dado momento, escreva para mulheres do teatro, gente como nós. E eu nunca consegui vivamente traduzir o que desejavam. Essa peça, para mim algo bacana (sinto, não tenho outras palavras) reaviva essa perda. Porque é perda de tempo ou de significados – aqueles que jamais foram sentidos (no sentido de sentir), insistir para não ser colonizado outra vez, (não que me sinta um foragido da colonização, ou que não tenha algum tipo de orgulho de nossa história, da vida portuguesa tão cheia de saudades que me invade o coração), mas de outro tipo, – nem desse pop, pós-hodierno -, o que quero expressar é essa notoriedade que tem a quietude dos que odeiam, e dos que amam, dessa autofagia crônica de não aceitar a própria ausência, de meios de entendimento, (e não falo de reconhecimento, nem de respeito que é assunto momentâneo dos que chamam a atenção), mas dessa impossibilidade carnal da alma, de que a textualidade passa pelo escaninho, anda nos anais do congresso entre pares, dessa virulenta e pecaminosa sorte de pisar no banquinho de veludo, gralhar, (veja os prêmios internacionais – de obras internacionais – realizados por nossa nacionalidade ausente), falar por cima do proscênio, subir na franja (e não passar disso, de ser quem abre o espetáculo de terceiros, o estado de fringir, no finge da cortinada) e reclamar que não há público em butacas nenhumas. Eles vão assistir os originais. Por isso é bom escrever para teatro, sabendo sempre que é um arcabouço cênico que se realiza integralmente, completamente na cena literária.

Quando escrevo para teatro penso no que poderia ter sido. Então reavalio e faço entre falas a literatura, ao menos literatura despejada no corpo do desejo.

Iara do vestido preto.
História psicológica de amor vivido, drama do amor desejado que se representa nas roupas que lava. Como se limpasse qualquer sofrimento, qualquer engano ou tristeza, em busca de alegria, as roupas saem de sua cesta que está em sua cabeça.
Como uma lavadeira que vai ao rio, ela limpa a si mesma, cuida de si e do amor. “Iara do vestido preto” (monólogo) que trata de uma situação triplicada, de mulher, em um período passado, do estado em que se encontra ao lavar suas roupas de tempo vivido e retomado, e de sua condição humana. Amor, alegria, dor, sofrimento, sentimento em que se estabelece a relação com as roupas, com o espaço, a natureza do rio, a vida em sua percepção sensível e da interação com o objeto e sua história, a roupa e a pele. Vestir e desvestir-se ante o passado no presente. A transformação entre valores em sua ação no trabalho, um trabalho de lavar, de além de lavar propriamente, retirar as manchas trágicas do que ficou impregnado.

Aparentemente é uma peça muito curta, mas há o dilaceramento do tempo através da arte do artista criador, da obra peça em ser arcabouço das reminiscências de um vivido a ser compartilhado, o rio que passa, a natureza em sua imagem estancada no artista, o tempo das falas não ditas, a expressão da fúria de ser quem se é, na experiência provocada da obra teatral.

Essa fragilidade que se manifesta de bicho humano é quem revela os sentidos que a arte nos propõe. Um mundo feito de leveza carregado no peso da vida, de suas agruras e de sua condição.

Esse link abaixo é apenas para demonstração:

https://www.chapters.indigo.ca/fr-ca/livres/iara-do-vestido-preto/9781370364978-article.html?ikwsec=Books&ikwidx=14

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