Mar, montanha, casa


Possivelmente viemos das águas e nos debatemos até o centro das montanhas.

O oceano foi aberto, e a estrada nos levou à terra. A quentura do mar obrigou que déssemos fora antes de sopa, caldo.

Ainda temos marcas daquele tempo longínquo. Na orelha o desenho antigo de guelras, pescoço com junções cartilaginosas, a pele entre os dedos se estica, as mãos ainda possuem resquícios de  nadadeiras, a forma que temos, muito ainda nos remete à distância de planeta das águas.

E das profundezas ou do raso a subir sempre mais alto até o ápice da montanha, vai ver que fomos nós, o grupo junto que é o mesmo que viver em separado em quantidade.

E das montanhas para serras, campos,  planícies à beira de rios.

A humanidade moveu a montanha. Ninguém vive sem reminiscência, sem memória, poucos podem usufruir da qualidade do sentimento que faz o pensamento em conceitos. O primitivo da caverna com teto e calor do fogo sagrado produziu a necessidade de manter o lare

A descoberta do fogo é mais antiga do que se possa imaginar. Veio do céu, do vulcão. Vivemos junto ao fogo porque descobrimos que podíamos dominá-lo e garantir  a digestão necessária.

A fonte da identidade  construída na casa. 

E surgiu a pessoa. 

Carregou a montanha enfumaçada e fez a casa. Lá está o vulcão memorial na sua chaminé. 

A mesma devoção ao divino eterno e interno de sua existência. ele referenciou o fogão. 

O primeiro laboratório onde provou o mundo de fora transmudado do lar, o mundo real e espiritual ao mesmo tempo.

É como se deu,  a montanha explodiu. Acabou com sua caverna derramando a lava do passado,  o fogo da vida. 

E todos fugiram do fulgor quente. O bando se dividiu em muitos pedaços. E cada um atiçou a fogueira de fé. E se fizeram imitadores desse sagrado lugar. 

Imagem do passado, imitação do espaço, da forma, semelhança, síntesis, os pequenos deuses estilizaram a antiga morada. 

Com a explosão do grande fogo da montanha, deus ocupou todos os lugares.

É necessário saber comer, saber viver.

Casa com cara de montanha, com jeito de vulcão, com entrada de caverna, com lugares para proteção, quarto grande, canto da fogueira, espaço da lareira, luz aquecida de sua memória e sentimento, inteligência acrescida de sentidos. Ritual do viver, os deuses da montanha percorrem os recantos do lar. 

A luz que corre o céu, aparece na peneira noturna, faíscas penduradas do eterno. Com o fogo da fé sacrificava a escuridão. Luminosidade, presença sagrada, corpo divino, movimento do céu na terra, dentro da casa. O alimento quente, banhado ao corpo divino. O próprio deus presente que nutria a esperança, o amanhã creditado ao brilho divino. 

Alimentados do próprio deus luminiscente, purificados nos tornamos filhos de deus. Filhos jovens de uma civilização ainda recente, pequenos deuses em formação.

A grande casa  do templo é a imitação sintética da montanha que prolifera deuses e mistérios. Assim como o grande falo prolifera a semelhança pelo semem sagrado de sua semente viva, criadora. O poder divino é a construção divina do homem no lare, no lar, na lareira, na labareda, no labor. No calor que é o fogo divino que vive no homem, o filho da montanha. O templo eleva sua haste e e em seu bojo vive a semelhança. Ao fogo fala-se, somos seres falantes, procriadores, semeadores da experiência, plantamos em nós o conhecimento, portanto fala-se.

A humanidade luta pela semente, pela semelhança em um dia ser ejetado deste mundo ao mundo pleno de deus e tornar-se deus, tornar-se divino. A grande estrada da palavra representada pela fé. 

O mundo de fora era o mundo dos deuses. Para cada substância foi feito um ritual. 

E para cada ritual uma linguagem, um caminho demarcado. 

Os deuses viviam em torno do homem oferecendo a quem compreendesse os mistérios, o significado que mais aproximava de suas necessidades. Mas quem compreende o inominável? O extrativista caminhou pela vegetação levando consigo os seus. A tribo cresceu na medida das necessidades de reivindicar para o futuro o bem imediato da vida. Entendeu os deuses das estações e o oferecimento, e os rituais da vida foram acrescentados. Quanto mais unidos na igualdade da linguagem, maior a garantia de sobrevivência. 

Demarcar os caminhos onde se encontrava no tempo certo o alimento oferecido dos deuses. A conquista do espaço. 

Os caminhos abertos facilitaram alcançar objetivos difíceis, e logo o trânsito em busca da proteção aumentou. Uma proteção divina que era o alimento e a certeza de sobreviver. 

A árvore dava a fruta, poupa e semente. 

A fruta em seu ramo de negócio: coma a poupa e plante a semente. 

Ir para o mundo de fora, juntar o desconhecido, transmudá-lo no fogo interno do lar e o interno do corpo.

O corpo disse: isso é bom, isso é ruim, isso é necessário, isso causa dor, isso é melhor assim. O corpo é o professor da humanidade. A necessidade de entender o entorno e o além do horizonte, o universo fez com que ampliássemos a ferramenta das idéias. 

O nosso cérebro cresceu e abundou nele as imagens dos desejos, as vontades foram projetadas e possibilitou-se a execução tecnológica.

As estratégias foram melhoradas. A técnica desenvolveu.

E tanto os deuses ofereceram, e tanto descobriu o significado na linguagem, que procurou negociar o seu conhecimento divino com outras tribos e confederações de tribus. O ruído dissoluto tornou palavra. O homem aprendeu a ser deus e oferecer seu significado ao desconhecido. 

Aprendeu a hospedar o estrangeiro, experimentar com ele os mistérios. 

Para comer isso, é bom ter isso e aquilo. A universidade foi criada na cozinha.

Como poderia manter aquele conhecimento e mais, usá-lo? O estrangeiro vai embora!

O filho do estrangeiro tinha a sua marca.

O alimento também era prazer, e o sexo proliferava a vida, e o alimento garantia a humanidade. Quanto melhor a estrada que nos liga, mais podemos nos misturar, mistificar e trocar conhecimentos e construir alimentos e reivindicar a vida da vida.

Na fome, o único remédio é o prazer sexual que prolifera famintos que conseguem sobreviver com pouco. Os iguais da fome, vivem da fome através do prazer. A sexualidade na fome especializa o homem a sobreviver na fome. A conquista é limitada e os caminhos curtos.

Mais longe vai quanto mais abundante for sua cultura. Caso contrário vive do retorno sobre si mesmo. A sociedade torna-se unívoca.

As diferenças criam semelhanças. No filho vive o estrangeiro. A humanidade é feita de muitos filhos sem pai. O atavismo do estranho o submete. A forma, o gesto indica sua descendência e sua capacidade de resistir e viver melhor.

O estrangeiro no homem é o homem melhorado. Construir a guerra para descobrir a paz. Porque antes da guerra só existe a tensão. Com aqueles que desconhecem e dos quais não se faz nenhum tratado simbólico, está em guerra.

A conquista da técnica pela força foi o subsídio aprendido pela natureza. Conquista sempre, conquista do espaço, da vida. Sem a guerra não entenderíamos a paz, senão a tensão. 

A diplomacia é tecnologia desenvolvida na arte de negociar. Coma a poupa: eu lhe dou a semente. Conheça que terá a tecnologia.

Mas há um limite nas negociações quando a linguagem escapa do controle, por isso a lei escrita, desenhada na sua forma mais significativa. Mesmo assim é necessário quem a interprete.

A palavra é o caminho que une o conhecido com o significado daquilo que se quer conhecer. Através da palavra somos capazes de criar conhecimento. 

A estrada que negocia o entendimento, a linguagem. 

Antes da palavra o gesto, o gesto imitado, o desenho imitativo, a forma. A palavra é a forma sintética de nossas reminiscências. O único caminho por onde se deve ir.

O trânsito em torno do fogo aumentou. Os caminhos foram especializados, sem o trânsito não há cultura que sustente sua existência. 

O ir e vir possibilita a troca de conhecimentos, especialização, alimento e prazer.

Com a linguagem não foi necessário ir muito longe para se alimentar e ter prazer. 

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