Doença curável

Eliandro –  Sejamos relegados à doença, melhor. 

Otomilda – Não fale assim, você tem que mudar. Eu te ajudei, teu pai quando estava vivo ajudou, a gente é uma família. Você vai sair dessa, tenho certeza. Mude o seu pensamento para um pensamento militar, uniformizado, alegre, algo que dá tiros, algo que elimina a raiz do problema.

Eliandro –  É uma questão de psicologia.

Otomilda – Somos assim, fazer o quê? Nada. É só impressão. Você está de luto, querido.

Eliandro –  Psicologia da dívida.

Otomilda – Pense na psicologia da liberdade, tanto por fazer. Hein?

Eliandro –  E não à psicologia do domínio colonial.

Otomilda – Pare querido, pare. A gente ainda não foi todo explorado Eliandro. Olha o tamanho desse lugar! Ha-ha! Pense. Está no nosso sangue.

Eliandro – O DNA da miséria, da eleição do bandido, da prostituição do trabalho da carne, da estupidez conjuntural em que se escolhe ser, no grupo, individual.

Otomilda – Pois então. Não é assim. Tenha calma. Posso dizer que vai sair daqui logo.

Eliandro – As potências, os grandes estados (com letra maiúscula) possuem o direito de serem colonizadores eternos, por isso essa tecnologia de segunda ordem, da fruta mordida, do roubo.

Otomilda – Come-se o que tem; come-se a própria carne Eli.

Eliandro – Mas nunca o que precisamos comer. Comemos o resto tecnológico, não produzimos nada.

Otomilda – O doutor já vem, vai ficar melhor, vai se tratar. O encalhe nos é oferecido como uma dádiva. 

Eliandro – Não podemos ser nacionais?

Otomilda – Claro que não. Estamos aqui por demora do barco que há de nos levar embora – hahaha. Desculpa, brincadeira.

Eliandro – Eles são e podem ser nacionais com eles mesmos, podem ser patriotas com eles mesmos e para eles mesmos.

Otomilda – Aqui não. Sabe disso. Você não é formado em engenharia do direito? Pois então! É uma crise, precisa parar de estudar um pouco e descansar. Faça economia.

Eliandro – É a economia que ganha com a perda.

Otomilda – Vá comigo para a fazenda e a gente pode andar a cavalo, ver as pessoas que quer ajudar, e tudo o mais. 

Eliandro – Aqui o assaltante não usa outra máscara senão a da economia, uma economia ético-moral que funciona na falta, da mesma maneira de como funciona a economia, que se alimenta da escassez.

Otomilda – É tudo isso muito grande. Cuida da sua ferida. Ela não pode ser o país inteiro Eli! A ausência total e completa e integral de referências, de identidade não vai ser mudada do dia para noite.

Eliandro – A gente faz o movimento obediente para a capitalização do domínio.

Otomilda – Desculpe amor, minha vida, eu não. Eu cuido de mim mesma, da minha horta na fazenda, e pronto. Haha. Já imaginou eu tentando ajudar toda essa gente? Morro, simplesmente morro. Quem faria isso? Haha. Quem, Eli?

Eliandro – Sei. Quando surge alguém que mobilize o não à subsunção: somos populistas. Na falta desse que ousa: somos populistas. E nos alegramos com o show da fome do pensamento livre, intelectual, crítico, que fala. Otomilda, nada vai adiante.

Otomilda – Viu tudo acaba nisso. Tem gente que não sabe ler o manual do moedor de ração, amor! 

Eliandro – A luta contra a fome educacional necessita da carne do conhecimento desaparece com drops que os mutiladores do saber social-comunitário nos oferece.

Otomilda – E quem há de matar essa fome imensa de valores? Quem? A universidade? Por favor, tenha calma.

Eliandro –  E discutimos isso na academia – e em nenhum lugar mais -, discutimos como velhos mecânicos que querem consertar o carburador do motor elétrico e não podemos encontrar a entrada de combustível.

Otomilda – Está vendo Eliandro, uma coisa alimenta outra. É a ecologia do interesse que move o mundo.

Eliandro – Somos liberais, não queremos estado e muito menos nação. Somos da esquerda queremos uma nação vestida à esquerda com estado centralizado da esquerda.

Otomilda – Anda a pensar demais de coisas que não tem porquê.

Eliandro – Experimente-se tratar disso nos países dominantes. Vão apenas perguntar: de onde você é?

Otomilda – E você nunca, entende, nunca responda. Haha. Pode ser que eles acreditem e acabe numa dessas prisões que escravizam gente como nós. Haha.

Eliandro – Eles podem erguer suas bandeiras e defender a sua gente.

Otomilda – Qualquer um pode. O risco é grande, sabe disso.

Eliandro – Para eles, Otomilda, para eles é um direito assistido até mesmo por todos os bancos e todas as transnacionais e com apoio ferrenho para que continuem a agir assim de todas organizações laterais.

Otomilda – Meu Deus, está muito revolucionário ou conservador demais, não sei. O médico já vem e tudo vai ficar ótimo, acredite.

Eliandro – Acredito. O médico vem e me põe a dormir. Isso é cura? 

Otomilda – Claro que não.

Eliandro – É muita estupidez. A toda parte a estupidez.

Otomilda – Sabe, Eliandro, o que interessa a eles é apenas comodities. Nada mais que isso. Hahaha. Falei.

Eliandro – Liberalismo entreguista ou esquerda tapa-olho, essa é a dicotomia. O controle é maior, alimentado com a plena e total ignorância, uma ignorância com pós-doutorado e teses em livros traduzidos para o russo, com movimentos sindicais com as mesmas palavras traduzidas – por falta de outras -, dos anos 20, ou pior ainda, com a mesma simbologia de 1789 quando o movimento de igualdade, liberdade e fraternidade veio desde antes, ou a revolta da rosa vermelha que ainda discute a plena revolução ou em etapas, comendo pelas beiradas.

Otomilda – Olha, posso te dizer que de qualquer maneira estamos à espera de alguma caravela que nos leve a um lugar manso. Haha. Já imaginou a gente saindo daqui e indo para a Europa. Haha. Vai ser divertido.

Eliandro – Aqui não. Não há onde atracar os novos colonizadores.

Otomilda – Eles virão do espaço, Eli. Vai ver.

Eliandro – Já vi.

Otomilda – Eu já chamei a mocinha de uniforme, ela vem e te dá um remédio. Nada de alucinações agora.

(Entra o médico)

Otomilda – Eli, querido, o doutor chegou.

Eliandro – Ele vai me dar adrenalina, não deixe Otomilda, não deixe.

Otomilda – Pare de bobagem, ele não vai fazer isso. Você não é doente terminal que vai usar UTI, e mais a mais, a gente tem dinheiro, pronto. (Eliandro mostra-se nervoso) Acabou, acabou, fica calmo.

(O médico aplica uma injeção)

Otomilda – Ele morreu doutor?

(O médico sinaliza que sim)

Otomilda – Graças a Deus, prefiro que esteja em paz. Assim não dá despesa.

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