Paisagem distante de perto demais

Desenhos em grafite, carvão e aquarelas de Fernando Augusto, artista.

Vi marcas sobre o papel shoel, riscos feitos durante o dia que parece noite, uma noite de entradas profundas. Há entre essas árvores ajuntadas portais de poucas passagens. Longe uma casa se acende em meio à flores, penso assim. O céu quase aparece como uma lava de refresco em duas cores nesses traços que organiza o que o barco perde, parece que se está balançando em um braco, numa pequena praia de desequilíbrio, em uma mesa cansada onde o artista devasta.

O que lhe pega, uma porrada de sentimentos que invade e se perde no porão do desnivelamento. Depois joga esses riscos morosos, uns brancos cálidos que parecem insistir, dizer outra vez, estou aqui, aqui desse lado.

Levaria para casa, mostraria que ainda sinto, que há amor em mim. Que apesar de saber que come bem a estupidez, tenho fome. Enfiaria nos olhos turbados de cotidiano, a todos que viessem para esse discurso. Daria a elas o que escondem no limo de suas cotidianas empreitadas vis. E não me importaria com suas tenazes, a mordida nos lábios de quem aperta os intestinos, a única e real produção sensível fruto da carne, trava da constipação de suas mentes.

Vejam, diria a essas entidades laminares, essa produção do acaso, esse encontro sublevado a qualquer proteção, está aqui o que não está, o que é e o que não existe mais.

Poria na parede e entraria nesses vão que a visão nos dá e oferece arrependimento.

E sou eu quem vê que o artista não se esconde, aparece ali meia sombra, meio borrado estribilho de uma música de vento conhecida, de areias levantadas de força de alma queimada. Fica o carvão, essa tinta que nem sei, e pequeno se vê o imenso. Uma parte é mesmo o todo. Depois, eu não me cansei em me cansar, pude me aproximar de um ritual de olhar e olhar.

O pacote que é a caixa que se desembulha na lágrima. Via por dentro o que acontecia no instate fora dessas imagens carregadas de luz. Voltei a ver as aquarelas, veio uma vontade de praia, de fogo no ar, de energia, não sei quê.

Tão difícil esses escorregadios molhes de brilho, essas misturas que se casam e querem se perder, e, bem sei que são encastelados, que no papel há essa árvore, essa dor que tem o que se usa e mancha e utiliza e ocupa.

Mas é a tristeza risonha, inteira de fibras que seguram essa química, esse irrisório que a cor bate na cara de quem olha.

detalhe

Meio que à toa, tudo vão nas almas vazias, imagino assim que me apego ao que me faz despender da última fímbria dessa árvore que sou também, desse rascunho humano que pede todos dias ser bom, ser melhor e me contentar com pouco que é tanto o mundo cheio que me deságuo.

Posso inventar que não vi. A sensação de que o perdido apareceu. O que vai ser eliminado manda avisar que as sombras ganharam vida e passeiam com os humanos. O lado obscuro achata qualquer variação, arrasa os volumes, esmaga a ordem das coisas, arranha o chão – onde andaria a vontade -, derruba as certezas com seu manto insólito.

A floresta acaba. Extirpada frente aos olhos. Lágrimas leitosas. Inteferências lácteas. Tudo contra a comedida narrativa de relatório, de ata. A alma manchada com a falta, buraco móvel de sentimentos arrestados na marca de passos engolidos pela supressão da luz, da emoção de viver.

Não sei desse cara, vejo apenas a incerteza, coisa correta é represa de amontoados, peso de rio abandonado, essas desenhos, essas escalavradas, essas onomatopéias de pássaros em algum lugar, o pouco de tudo.

Desordem arrumada, entalpia do que ganha a perda, o abandono, única certeza da beleza, a memória grudada nos rebordos dos suportes. Tanto descontentamento em mim que desejo ajuntar o que esqueço rápido.

E se repete o que ali não está repetidas vezes. Uma fornalha de escolas que se foram. E retoma outra maneira, um gesto de escritura que arranha o ar onde a paisagem fica.

Quero me distanciar, me esquecer dessas lembranças, mas elas moram comigo, e as encontro através da janela, daquele vidro, a sombra, a marca escura, e os vãos claros que se tingem não sei como, voltam em mim o lugar onde estive e nunca fui.

Atravesso o bosque aqui perto, as copas, ameaçadas pela feiura da máquina, e ninguém faz delas o que elas são de sonho e alegria, e é assim que revejo o esquecido e aglutino o passado presente, coisa de bem, paz de desenho que me aparece de relampejo para eu me inventar.

Se tivesse dito que anda por um lugar sem esse nome, caminhante de tantos espaços, rabiscos densamentos densos, e além disso, se diz que tem de onde veio em si, como um reconhecimento vivo. O artista Fernando Augusto deu em mim o que havia, faz tempo essa maranha que a política corta, e diz política (legra grande) sem lugar, sem onde estar e aonde partir o que aonde se vai.

Exposição:

A paisagem como Política

Artista:

Fernando Augusto

Galeria Ybakatu

Maio/2019

2 respostas para “Paisagem distante de perto demais”

  1. Pedro, gostei muito do seu texto e da sua disposição em ver e escrever aobre a exposiçao. Também agradeço essa disposição, afinal você respondeu ao meu trabalho com seu trabalho. So isso já é grande. Você escreve poesia e em alguns momentos me emocionou. Obrigado. Fiquei feliz em ler. Contudo achei o texto muito longo e precisa de uma revisão. De qualquer forma vida longa ao texto, aos nossos trabalhos!

    1. Obrigado Fernando. Tem razão que é longo. Mas é que me toquei, fiquei grato com o seu trabalho.

      Farei as modificações, deixarei menos amontoado, quando possível o deixarei no tamanho ideal.

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