A casa que o lar abriga

A casa tem todo o lugar desde o caminho que a encontra, e aquele ainda que a deixa, – por onde for que se a leva.

Parece de um canto uma árvore forte de raízes verdadeiras cachoeiras, tão cheia de ramos, de galhos, folhas que esconde a nuvem que carrega aquela lua. 

O sinal de fumaça é lançado da montanha. 

Montamos em nossos cavalos. Lutamos contra os inimigos porque é meio dia, panela no fogo, barriga vazia.

Havia um balanço no jacarandá, o chão roxo no mundo que floriu.

O limoeiro azedou meus sonhos de quintal, queria um jirau, uma casa na árvore.

A lanterna de carbureto dançava no lago, o bagual ouriçava. Alguém chamava quando se caçava rã: vem jantar.

O jardim onde se deita é tão bom quanto pode ser a cama com aquelas molas. Não passam de trampolins para o teto.

No fogão iscas. No corredor se passeia de escovão de ferro.

No telhado tem um ninho de corruíra que não se acredita.

Embaixo da mesa da copa tem um ás de ouros. 

Debaixo do tapete da varanda um recado: levei as chaves.

Entre o braço e o assento do sofá tem um gibi.

Na janela do sótão o seu nome. Não conte, está no vidro.

Na tramela do portão, bem no encaixe e na parte debaixo uma figurinha premiada.

Há um caminho que vai para o rio, passa rente a horta, do lado da gabiroveira tem uma pedra e debaixo aquela carta que me deixou na escola, um dia antes que seus pais mudassem.

Frente a casa o jardim para os que passam. Um olhar distante dos que permanece. A memória dos que movem as ruas na sombra de seus traços a erguer sobre si os lambrequins da última geada, o céu na vidraça, os desenhos molhados, fincam as pedras do tempo a devorar os dedos de impossível esquecimento,  profundos a seguir caminhos.

A gente não esquece aquele dia, e daquela hora que a chuva marcou o céu na janela. Alguém chama e se vai atender, e gira os tacos, e no bater dos passos vai-se à cozinha, senta e lê aquela despedida naquela presença em tantas palavras de dor e de alegrias. Com as mãos dadas atrás da casa, o sapo quieto, o limoeiro perfumado.

Alguém à janela acena e se vai à escola a descer a ladeira do esquecimento. Um instante a mais, um raio e o ronco do carro de boi. Só um momento se pede antes que a corruíra saia do telhado, antes mesmo que se pergunte o que há debaixo daquela pedra, que, sabe-se bem, a carta antiga onde descreve de forma tão animada a sua tristeza, de que vai, que muda de cidade e carrega consigo os nossos dias inteiros de correria e saltos na cama de molas para alcançar o céu de estrela feito lâmpada, que mais não se pode beijar, e que deseja rever, mas leva embora, como o sol que se põe. 

A “pôr-se”, a deixar-se. Então, no salto peregrino que vai de horizonte inesquecível, imprescindível como a isca no fogão, a lanterna de carbureto, e, mais que nada mais.

A gente com a gente na casa da gente, gente se sente mesmo ausente. 

O sapo atrás da casa foi salvo do carro de boi.

O esconderijo é no porão, ninguém sabe que sei que todos sabem que faço desenho da sua cara, da lembrança, do que invento que seja, e do modo que imagino que poderia ser quando vê em mim a ler essas palavras. 

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