Carolina Maria de Jesus

O sentido de Bitita

Bitita’s sense.

RESUMO

O estudo da produção literária em Carolina Maria de Jesus e sua relação com a produção da alteridade, a percepção da expressão criativa e as condições socioculturais de um tempo em relação à contemporaneidade são fatores que se determinam e necessitam de aprofundamento ético e estético, as relações objetivas da criação e subjetivas de uma existência que se pronuncia na própria obra entremeio à narrativa memorial, as políticas públicas em educação devem alcançar a subjetividade da artista e sua definitiva inclusão na escola e proveito da gestão em educação contrafazendo a cultura do invisível ou do anonimato.

Palavras chave: Carolina Maria de Jesus, políticas públicas, sociedade, alteridade.

ABSTRACT

The study of literary production in Carolina Maria de Jesus and his relationship with the production of otherness, the perception of creative expression and cultural conditions of a time with respect to contemporary are factors that determine and require further ethical and aesthetic relations objective and subjective creation of an existence that takes a position in the work itself inset narrative memorial, public policies on education should reach the subjectivity of the artist and its final inclusion in school and benefit

from management education to infringe on the culture of unseen or anonymity .

Keywords: Carolina Maria de Jesus, public policies, society, otherness.

MEMÓRIA DO VIVER

O homem inventor de signos é ao mesmo tempo o homem cada vez mais agudamente consciente de si mesmo; somente como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si mesmo e_ ele o faz ainda, ele o faz cada vez mais. (Nietzsche, p. 225, 1974)

            A obra de Carolina Maria de Jesus se estabelece como resultado da memória crítica de uma realidade. A feitura da obra literária estabelece conexões de uma subjetividade carregada pelo sujeito singular a uma objetividade existencial, porquanto reelabora em seu território de saber os processos que a realizam. A margem e fronteira entre o saber viver e o universo criativo de alguém que caminhou o mundo em busca de poder vivê-lo plenamente faz de Carolina Maria de Jesus uma destas entidades humanas que ultrapassam o ideacionismo de Estado de Direito, ação de valores culturais e responsabilidade vital. O trabalhar com os rescaldos de uma modernidade seccionada na exclusão, determinaram as situações que a levaram da riqueza narrativa à miséria social.

            Diferente de uma situação plasmada numa linguagem estabilizada, oficial, Carolina Maria de Jesus           nos faz referir ao desejo de uma linguagem adjacente ao saber-fazer, uma relação possível cuja literatura ultrapassa o limite entre realidade desejada e ações estéticas compartilhadas na ação do trabalho. É nesse sentido que a literatura de uma mulher cujas proposições são reificadas na escrita é que proposita conhecer as distâncias entre esses paradigmas: estética literária e expressão de vida na produção de sua alteridade.

            De seus livros publicados: Quarto de Despejo, Casa de Alvenaria, Antologia Pessoal, Pedaços da Fome, Meu Estranho Diário, Provérbios (sem editora) realizados em uma vida complexa: Quarto de Despejo que surpreende com a metáfora de um lugar que não está no uso civilizado e também ainda não pertence ao lixo, como a Ágora que não é o templo e não é a rua, e Diário de Bitita que é a retomada da pessoa que foi e/ou que poderia ter sido afetivamente, no apelido e na razão merecedora do afeto fator de construção do sujeito personagem/narrador.

            A representação artística nessas obras parece supor um saber fazer literário e o conhecimento de um tempo. As injunções de Carolina a respeito da existência em sua humanidade desejável se estabelecem em diferentes níveis e é através desses paradigmas de uma presença miserável e, no entanto, rica e atualizada que recorremos a entender quais são essas configurações possíveis entre as margens do saber e suas fronteiras com a realidade.

            A arte neste sentido é um dos processos mais dolorosos da existência humana já que o artista também transgride a personagem num diário que a exclui. Quando, portanto, busca inscrever a existência que não coaduna com as condições sociais que a provêm. A obra se estabelece na permanência, na continuidade representativa, pode-se pensar. O religioso está intrínseco à criação objetiva da arte no sentido antropológico de se restaurar no presente a continuidade de uma existência que só pode ser mantida pelo gesto de uma artisticidade que vai em busca de uma representatividade que suporta a existência. É como um veículo que a arte literária estabelece um território que é demarcado entre sonho e realidade, desejo e possibilidade existencial. Um confesso que oportuna repensarmos a atividade da escrita e sua necessidade cultural.

            A arte introduz o sujeito no espaço alterado do conhecimento, não é aquilo que vê, mas o que aquilo é, não exatamente, mas por conseqüência de sua presença no tempo dinâmico que o faz atingido de significados. E é onde resulta sua manifestação, sua identificação com a vida. “As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando a beira do rio, perto dos lixos, os homens desempregados substiruiram os corvos.” (Jesus, p. 48). A obra literária se faz como parte da elaboração de existencialidade de Carolina Maria de Jesus, e se apresenta em não se apresentar, isto é, a arte oferece a quantidade significativa que a identifica quanto percebe, como uma promessa de realidade. 

            O Quarto de Despejo é o agora, um estado que não tem outra determinação se não em sua          presentidade, no ato fenomênico de estar, de se estabelecer. O pensamento não se extingue na literatura em Carolina, ao final se sustenta por não ser um conceito sobre si mesmo, mas uma narrativa fragmentada, porém reificada de uma existência que necessitou da escritura para demarcar o seu tempo e espaço.

            A coisa obra precisa do outro para reavivar o sentido, dar continuidade entre passado e futuro. A arte a integra com a realidade ao mesmo tempo que a dissuade sobre o infortúnio de uma vida miserável. O outro é a parte necessária para a existência da expressão da escritora.

            O reconhecimento de que há na estrutura certa intercepção que a distingue ou que se aproxime em equivalência das notoriedades de comprovado saber artístico; ou que ainda tenha com ou sem rompimento estético, estilístico, cultural de uma referência que a conduza a certa consagração. Conforme Laraia (2007) a cultura influencia o comportamento social e diversifica enormemente a humanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica.

            A arte evidencia essa síntese no sentido de transpor à forma a percepção do artista presente no seu universo cultural como construtor de signos. O campo da arte se estabelece na conjunção de um capital social que possibilita a continuidade do fazer arte pelo artista. A sua notoriedade ou reconhecimento não esclarece a ação porque pode ser a qualquer momento destituído de sua verdade artística.

            A partir dessa noção de campo, para se compreender uma obra, deve-se compreender inicialmente a produção, o campo da produção, a relação entre o campo em que ela é produzida e o campo em que é recebida (…) (BOURDIEU,1997, p. 13). Investigar, portanto os processos de elaboração da escrita em Carolina Maria de Jesus, os passos conceptivos em que ela se relaciona, o pensar crítico, a sua atividade individual que se dirige a um todo complexo multifacetado do meio social. Como se estabelece essa conexão na modernidade com esse saber e os estames que interligam as culturas diversas, e que definem a posição da escritora Carolina Maria de Jesus.

A REALIDADE DA ESCRITA

            A obra de arte interage com a realidade com formatos sígnicos diversos onde estabelece pela percepção ativa, crítica da realidade. O entremenhar de temas subjuntivos que se determinam a figurar uma intenção cuja finalidade é a proposição perceptiva que ocasiona um prazer estético e que se funda em se pensar a realidade. A história da arte tem oferecido caminhos entrecortados de acontecimentos e manifestações artísticas a pouco percebidas e admitidas como tais. O bem fazer e

por si, tornar-se mentor de sua própria ação, configurar a sua expressividade com dimensões próprias são alguns dos fundamentos a que se pode dizer da existência do artista e de sua arte.

A realidade literária ou uma literatura real num narrador/personagem, ou que se pense num diário de existência visto pela palavra transtorna a construção sintética de que uma obra feita de início, meio e fim estabelece contatos com a realidade equidistante, promove no leitor uma busca não dissociada de seu próprio background, daquilo que vindo do passado faz nascer em si, surgir como que integrado à existência. O sujeito/leitor torna-se receptáculo de um pensar codificado aclara em sua leitura, em sua textualidade retomada para si. O leitor, a ele se reivindica a existência de um autor anônimo, porém presente no ato fenomenológico de compreender, agir, desenvolvendo espaços, formas, movimentos equilíbrio.

            Trata-se de um mito acreditar que a obra de arte sintetiza toda ação humana possível e oferece respostas intermináveis, por outro lado é uma estrutura que deseja significar e não um significado determinado. Necessita do aporte de outros para que continue a engendrar um pensamento que retorne reflexivamente sobre os sujeitos interpretantes.

            Carolina é um assunto de momento, uma vida que não alcançou o Estado de Direito, está entre pensar a existência e infundir nela o ritual da palavra, o significado depositado ou reaproveitado no outro. Na modernidade, as atenções são menores sobre a expressão criativa e crítica, estética da obra de arte como um todo, no entanto parece que há nessa presença menor uma quantidade ilimitada de intencionalidade em se reagrupar o projeto antropológico de uma humanidade não fatiada em poder e trabalho.

            A artisticidade em Carolina Maria de Jesus parece engendrar a unificação de uma sociedade sem divisões, ela emerge para representar o todo o Um, o único no diverso. O trabalho de Carolina Maria de Jesus possui uma estratégia de vida, de sair de um espaço para seinfundir em outro, devido a sua autonomia, o seu trabalho literário é uma opção e não um fim.

“Quando, na sociedade primitiva, o econômico se deixa identificar como campo autônomo e definido, quando a atividade de produção se transforma em trabalho alienado, contabilizado e imposto por aqueles que vão tirar proveito dos frutos desse trabalho, é sinal de que a sociedade não é mais primitiva, tornou-se uma sociedade dividida em dominantes e dominados, em senhores e súditos, e de que parou de exorcizar aquilo que está destinado a matá-la: o poder e o respeito ao poder.” (LEVISTRAUSS, 10, 1974)

            A busca pela sobrevivência tenha sua conotação na palavra, na expressão que requer integração, mas o texto da autora é uma disfunção, sua entrada na economia cultural tem essa proposição metafórica de estar a meio caminho. A relevância da pesquisa sobre o processo da criação de Carolina Maria de Jesus é assunto de importância na literatura da pós-modernidade, compreendendo a fragmentação do sujeito social, as condições existências em relação às metáforas carolinianas, que repercutem na memória de um diário interminável, mas que possibilita compreender os meios utilizados da produção cultural. “A defasagem entre o código social e o código exigido pelas obras apresenta, evidentemente, todas as condições de ser mais reduzida nos períodos clássicos do que nos períodos de ruptura continuada, tal como aquele que nos encontramos hoje.” (BORDIEU, p.77, 2003). E na literatura, no olhar caroliniano está presente essa indeterminação de uma obra que se constrói no fazer.

            A partir do pensamento em Carolina Maria de Jesus, e as pontes possíveis em Bordieu, Giddens, bem como Jung, Campbell e evidentemente Nietzsche, e do reconhecimento do espaço, do pensar literário em Bachelard (1991), esse artigo deseja ilustrar parte do processo de criação artística em se definindo, pela linguagem e estrutura textual, o território, o campo da expressão literária, e a representatividade simbólica. Literatura do autor/personagem/narrador que constrói o seu texto a partir da tessitura de uma existencialidade estabelecida no hábito, na ancoragem de um saber terreno que não deseja se reduzir. “Os objetos da terra nos devolvem o eco de nossa promessa de energia. O trabalho da matéria, assim que lhe devolvemos todo o seu onirismo, desperta em nós um narcisismo de nossa coragem.” (BACHELARD,1991, p.07)

            A obra de arte se estabelece como resultado da memória coletiva que incide sobre o sujeito singular quando reelabora em seu território de saber os processos que a realizam. A margem e fronteira entre o saber viver e o universo criativo de alguém que caminhou o mundo em busca de poder vivê-lo plenamente faz de Carolina Maria de Jesus uma destas entidades humanas que ultrapassam o ideacionismo de Estado de Direito, ação de valores culturais e responsabilidade vital.

            O trabalhar, e as situações que levaram a riqueza à miséria nos fazem referir ao desejo de uma linguagem adjacente ao saber-fazer, uma relação possível cuja literatura ultrapassa o limite entre realidade desejada e ações estéticas compartilhadas na ação do trabalho. É nesse sentido que a literatura de uma mulher cujas proposições são reificadas na escrita é que proposita conhecer as distâncias entre esses paradigmas: estética literária e expressão de vida. São dois livros realizados em uma vida complexa: Quarto de Despejo e Diário de Bitita.

            A representação artística nessas obras parece supor um saber fazer literário e o conhecimento de um tempo. As injunções de Carolina a respeito da existência em sua humanidade desejável se estabelecem em diferentes níveis de uma vida múltipla. É através desses paradigmas de uma presença miserável e, no entanto, atualizada que recorremos a entender quais são essas fronteiras possíveis entre as margens do saber e suas fronteiras com a realidade. A arte neste sentido é um dos processos mais dolorosos da existência humana quando busca inscrever a existência que não coaduna com as condições sociais que a provêm.

            A obra se estabelece na permanência, na continuidade representativa, pode-se pensar. O religioso está intrínseco à criação objetiva da arte no sentido antropológico de se restaurar no presente a continuidade de uma existência que só pode ser mantida pelo gesto de uma artisticidade que busca uma representatividade que suporta a existência. É como um veículo que a arte literária estabelece um território que é demarcado entre sonho e realidade, desejo e possibilidade existencial. Um confesso que oportuna repensarmos a atividade da escrita e sua necessidade cultural.

            A arte introduz o sujeito no espaço alterado do conhecimento, não é aquilo que vê, mas o que aquilo é, não exatamente, mas por conseqüência de sua presença que o faz atingido de significados onde resulta sua manifestação, sua identificação com a vida.

 A obra literária se faz como parte da elaboração de existencialidade, e se apresenta em não se apresentar, isto é, a arte oferece ao sujeito a quantidade significativa que o identifica quanto percebe, como uma promessa de realidade. A diversidade de ações do homem no espaço do conhecimento é um constante elaborar e reelaborar. 

            O pensamento não se extingue na literatura em Carolina, ao final se sustenta por não ser um conceito sobre si mesmo, mas uma narrativa fragmentada, porém reificada de uma existência que necessitou da escritura para demarcar o seu tempo e espaço.

A coisa obra precisa do outro para reavivar o sentido, dar continuidade entre passado e

futuro. A arte a integra com a realidade ao mesmo tempo que a dissuade sobre o infortúnio de uma vida miserável. O outro é a parte necessária para a existência da expressão artística literária.

            O reconhecimento de que há na estrutura certa intercepção que a distingue ou que se aproxime em equivalência das notoriedades de comprovado saber artístico; ou que ainda tenha com ou sem rompimento estético, estilístico, cultural de uma referência que a conduza a certa consagração. Conforme Laraia (2007) a cultura influencia o comportamento social e diversifica enormemente a humanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica. A arte evidencia essa síntese no sentido de transpor à forma a percepção do artista presente no seu universo cultural como construtor de signos.

            O campo da arte se estabelece na conjunção de um capital social que possibilita a continuidade do fazer arte pelo artista. A sua notoriedade ou reconhecimento não esclarece a ação porque pode ser a qualquer momento destituído de sua verdade artística. “A partir dessa noção de campo, para se compreender uma obra, deve-se compreender inicialmente a produção, o campo da produção, a relação entre o campo em que ela é produzida e o campo em que é recebida (…)” (BOURDIEU, 1997, p. 13). Carolina Maria de Jesus é uma personalidade, sua atitude frente à vida determinou sua condição de escritora, um lugar onde se volta a partir de 16 anos e não se pode ter carteira de motorista, onde a divisão de riquezas é menor que Serra Leoa, onde a literatura é tida apenas como sinônimo de perda de tempo, e que o ficcional e real são contradições, metáforas forjadas no cinismo ou ironia determinam para esta pesquisa não somente o conhecimento de interpretação de seus “Diários” como a percepção mais ativa de uma sociedade que coloca a inteligência no desvão cultural e sua representatividade acadêmica.

            O seu primeiro livro, Quarto de despejo, atingiu a cifra de dez mil exemplares na primeira edição,um número extraordinário, e sua trajetória colocou diretamente em questão o campo consagrado da literatura hegemônica. Meihy e Levine (1994), chamaram a atenção para esse aspecto. Porém, questionamentos de outra natureza poderiam ser igualmente formulados no âmbito da literatura brasileira, mas a temática da produção literária de Carolina Maria de Jesus ainda não foi suficientemente discutida, pois muitos estudiosos ignoraram o fenômeno Carolina.

            Ao reconstituir os contextos sócio-históricos em que Carolina se moveu a criatividade da tessitura textual se afinam com o que, a obra se faz como construção de um imaginário enriquecido pela realidade circundante e que esta é fonte de suas inserções intelectuais, se faz também como negação da sua condição.

            Um diário, simultaneamente como estrutura de um discurso romanceado e/ou de uma literatura impregnada do real ou difusa, portanto, faz inferir sobre os processos de construção da literatura escrita na miséria social, a se realiza enquanto  reconhecimento da poética construída no íntimo de uma psique dessacralizada pelas instâncias que a assoberbam. “O mundo da vida cotidiana proclama-se a si mesmo e quando quero contestar essa proclamação tenho que fazer um deliberado esforço, nada fácil. A transição da atitude natural para a atitude teórica do filósofo ou do cientista, ilustra este ponto.” (BERGER, 1985, p.36). O cotidiano deixa de ser irrisório quando sonhado, subjetivado na crítica de realidade através da criação artística, como exemplo e fundamento.

            Sistemas sociais complexos ou não o que se procura conhecer é o momento histórico e as condições possíveis em Carolina Maria de Jesus na construção literária, onde estaria remetida a sua obra entre imaginário e realidade, a memória em um livro que não se concebe como memorial devido às circunstâncias que a remetem entre presente e passado e as possibilidades inerentes ao território de sua criação.

            Os elementos constitutivos indicam a precariedade de um mundo real representado, e que por outro lado são capazes de gerar os seus próprios e particulares modos de expressão.     As trocas simbólicas possíveis na construção textual obrigam a uma reflexão sobre o tempo histórico e as relações com a contemporaneidade, portanto, estudar a crítica literária em Antonio Cândido (1992) no que se refere à sistema literário, o processo de formação literatura, construção textual nacional.

“Carolina Maria de Jesus é uma escritora que vive entre o devaneio e a realidade, mas imprime em sua literatura um sentido que se refere ao um desejo de caminho, a uma finalidade existencial que não pode ser localizada no ambiente onde vive. A co nstrução de sua personagem “eu mesma” remete a se pensar na impossibilidadeda vida externa não aceita e não completamente vívida ou filtrada pela vias internas da sua criação. O drama é que o presente se insinua no passado. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória, haveria a possibilidade de um modus vivendi quase normal, a seu jeito (…)” (CANDIDO, p.81, 1992).

            A busca de uma realidade não completada com o olhar senão pela imaginação e pelo trato da escritora em buscar referências sobre o experienciado e o inusitado em sua vida, a faz invisível apesar da densidade social, histórica e da narrativa literária.

“ É evidente que os textos poéticos de Carolina refletem aspectos dessa cultura, mas sua vivência ultrapassa a exclusividade de qualquer compromisso com a causa negra. Nesse ponto, sua experiência poética foi paralela à posição de Augusto dos Anjos e contraste perfeito de Solano Trindade, ambos negros”

(MEIHY, 1995, p. 25).

            A noção de sistema literário desenvolvido e aplicado por Antonio Candido, para explicar o processo de formação da literatura brasileira, continua atual e muito contribuiu na compreensão de como se organizou e se construiu uma tradição literária no Brasil do século XIX. Ao valorizar um esquema comunicativo mais completo, que não isolava o autor em sua produção, colocando-o em diálogo com outros autores, adeptos da mesma tendência, com uma produção literária “mais ou menos consciente” de seu papel, e também inserindo os leitores que passavam a ocupar um lugar de destaque como receptores privilegiados dessa obras, Candido propõe o conceito de “literatura propriamente dita” que se pretende utilizar para a análise da obra de Carolina Maria de Jesus. Para os estudos literários brasileiros, a referência de Carolina Maria de Jesus, a sua riqueza se faz necessária ao aprofundamento da pesquisa para se conhecer o grau de maturidade no seu processo de criação literária estabelecendo uma relação com a repercussão e continuidade da sua obra literária.

CONSIDERAÇÕES

            A realização da escrita em Carolina Maria de Jesus e sua relação com a crítica social, e sua autopoiesis. Esse conceito de autopoises traz inúmeras vantagens para se analisar a sua construção literária dentro do equilíbrio entre o social com a necessidade de afirmação identitária em confronto com o literário.

            A importância de um estudo aprofundado de uma autora cujas ações de vida realizam a literatura em condições ímpares se faz como necessidade de se instalar no corpo acadêmico o pensar e o fazer da arte e sua representação de uma realidade cultural. Nesse sentido, Carolina Maria de Jesus oferece em quantidade e qualidade de uma literatura que se encontra marginalizada pelos cânones da boa escrita e da significação espelhada. 

            A valorização da singularidade de uma personalidade que se faz presente com toda a foraça de uma existência complexa e o direito de liberdade da criação, da autoria, da estética literária. Qual é afinal, a concepção de autor na contemporaneidade? Como se delinea essa presentidade criativa e definida pela palavra estruturada da língua? E onde está este saber fazer que encanta e realiza o pensar, promove reflexivamente um tempo uma ordem, o querer ser socialmente integrado.

            Várias áreas do saber podem se beneficiar da produção criativa de uma autora cuja independência e determinação realiza a obra de arte. Contrapostos ao agrupamento gramatical está a obra, e a sua emergência transpõe as dificuldades de Carolina Maria de Jesus de ser ela mesma em sua humanidade brasileira. As políticas públicas em educação e sua gestão necessitam de um olhar mais aprofundado a respeito da expressividade cultural e o melhor entendimento sobre a produção artística e crítica social para permitir que Carolina Maria de Jesus possa ser referência de saber, de

arte e cultura na universidade brasileira com maior distinção.

            O motivo deste artigo integra esse fenômeno humano de pertencimento e de consideração pela expressão viva da independência criadora. Desejamos contribuir com os estudiosos dessa expressividade da criação oferecendo alguns livros como ponteamento posssível de pesquisa. Como mediador de um tempo que se esvai na ação criativa, recuperar a posição territorial desse saber literário através de aprofundamento no texto da autora em se buscar as condições históricas e culturais de momento no espaço de vida e sua relação com a realidade. De forma que procedimentos analíticos e históricos somam-se para o desenvolvimento dessa metodologia que deseja interpretar no espaço e tempo a criação literária e suas conexões com a modernidade.

REFERENCIA BIBLIOGRAFICA

BACHELARD, Gaston. Poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

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BOURDIEU P. et alii. O amor pela arte– os museus de arte na europa e seu público, Editora da Universidade de São Paulo: Zouk, 2003

CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade.São Paulo: Ouro Sobre Azul, 2008.

_______________. Formação da literatura brasileira( momentos decisivos). Belo

Horizonte: Itatiaia, 1981.

_______________ . Brigada Ligeira e outros escritos.São Paulo: Unesp, 1992.

LARAIA, Roque. Cultura, um conceito antropológico. RJ: Zahar, 2007

OBRAS DE CAROLINA MARIA DE JESUS:

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada.8 ed., São Paulo:

Ática, 2005

____________. Casa de alvenaria: diário de uma exfavelada.São Paulo: Livraria Francisco

Alves, 1961

____________. Pedaços da fome.São Paulo: Editora Áquila Ltda, 1963

____________. Provérbios.São Paulo: s/editora, S/D.

____________. Journal de Bitita. Paris: A. M. Métailié, 1982

____________. Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

____________. Meu estranho diário. São Paulo: Xamã, 1996.

____________. Antologia pessoal. Meihy (Org.)Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995

A RESPEITO DE CAROLINA MARIA DE JESUS:

MEIHY, José Carlos Sebe & LEVINE, Robert. Cinderela negra. A saga

de Carolina Maria de Jesus.Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994.

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