A morte do ator

A rubrica diz que eles se vestem da roupa comum, que andam perambulando sem motivo, que buscam alguma razão e nada faz sentido. Falam rápido, depois lento, inventam vozes caricaturais, comem as palavras de boca cheia, despejam o pote, mastigam o bife, marcam os gestos e lutam por uma miserável luz, um som que preencha o vazio, o corpo deitado atrás da rotunda de fundo.

– Janilson você está errado. 

– Não estou.

– O menino podia melhorar, sei lá. 

– Melhorar.

– Sim, melhorar.

– Ele estava doente?

– Não é isso. É a vida dele, ninguém tem direito.

– E ele tem direito de entrar aqui, nesse lugar com aquela voz ruim, emoção grudada na garganta, sem pés nem mãos, dançando um passo para lá e para cá buscando o chão, enfiando a porra da mão sabe lá onde. 

– Engraçado você, parece que nunca começou nada.

– Não mesmo, não sou ator. Se fosse não participaria de uma companhia de improvisação como garantia segura de pleno analfabetismo.

– Você está defendendo o autor.

– Confunde. O ator é o autor encontrado. Autor não é quem autor-iza. A obra de teatro é um arcabouço com múltiplas determinações, agora, trabalho coletivo que mesmo só pode se o que é com o que tem, nada. Manipulados, essa gente de cena faz uma estética repetitiva. Já vi isso na rua, naquela terra velha que usa a juventude para um desejo secundário, de negócio, de uma fama, de um estado político, de um cargo, de qualquer bosta menos de ser ator. 

– Eles não têm culpa, eles não sabem disso. O que fez foi horrível. 

– Estamos livres daquilo.

– Não diga isso, qualaquer um merece a vida, mesmo uma vida ruim, idiota, merece viver, de ter o seu tempo, o seu momento.

– Um momento é eternidade. Público algum, na sua quietude inteligente de público não necessita suportar tal absurdo e ainda, por hábito ao mal, se acostumar e ainda aplaudir esses tipo conduzentes e conduzido.

– Mas isso é de uma crueldade sem fim.

– Com fim Dinaura, crueldade com fim, estamos livres desse idiota.

– Onde ele está?

– Fica quieta, o cortineiro.

– Boa noite.

– Boa noite para você também.

– Boa noite, esteja bem quanto puder.

– Ator é artista e ele nem chegou ainda ao grau de pessoa, menos ainda humana.

– Não fale assim. Conta, onde está o menino.

– Eu ofereci a ele aquele instante de emancipação da existência.

– Onde?

– Não grite.

– Grito quanto quizer, é uma vida, seja como uma barata, mas é.

– Você não entende.

– O quê?

– Não fale nada.

– O quê?

– O contra-regras com o iluminador.

– Oi.

– Tudo em cima.

– Está certo.

– Você acha que isso é suportável, isso atinge a dignidade do teatro.

– Não precisa cochichar desse jeito, assim, não precisa falar baixo.

– Fala quanto queira, trate de me dizer Janilson, por favor, onde você pôs aquela criatura.

– Deve estar, deixa eu ver, pelo tempo, ainda está bem.

– Então o salve.

– Para quê? Os pais, a família e a comunidade vão ficar felizes com sua ausência eterna.

– Merda!

– Merda-merda.

– Janilson.

– Dinaura.

– Quer dizer onde está o coiso do molequinho?

– Já te falei, ele está, espera.

– Espera o quê.

– O maquinista está ajustando.

– Não me venha com essa Janilson.

– O sonoplasta vai pôr a trilha.

– Não me puxe.

– Puxo sim.

– Não sei dançar.

– Você não é atriz?

– Não sei mais.

– Viu, agora está bem.

– Onde ele está?

– O contra-regra. O cortineiro veio?

– Responda ao sinal.

– Essa mesma ladainha irritante.

– Faça o sinal para ele.

– Depois que a luz volta eu ergo as mãos.

– Está certo.

– É assim a vida.

– Não me venha com essa, pode ter um menino morrendo aqui agora e a culpa é sua.

– Ele não sabe ler, não conhece dramaturgia, faz um teatrão de prima-dona na frente, no procênio.

– É a frente ampla, foda-se Janilson. Esquerda baixa, três quartos, a luz em mim.

– Onde?

– Sai do ponto de luz, e não amarrote o meu paletó.

– Onde? Eu perguntei!

– Voz de carroça, voz de movimento salteado, constante bater. Voz de travas de ferro. 

– Onde?

– O que quer saber?

– Disse onde.

– Vá para lá.

– Onde, cacete!

– Segunda perna, vai à direita, atrás do ciclorama.

– No refeitório de fundo.

– Impossível.

– O que é impossível?

– Deram o sinal.

– Você acha que é assim? Soa o terceiro e se prepara? Idiota.

– Acho.

– Ator.

– Ridículo.

– Fica na posição!

– Eu entro.

– Entra aí, certo.

– Dá tempo para repassar.

– Não, vai, vai.

– Vejo que estão felizes esta noite, vejo esse escuro pesado. Pensaram muito antes de virem, aguardam quietos, meio-riso alguma desgraça. Torcem que haja aqui um erro, uma merda qualquer para que se sintam além. Almas sem sentimento, sofrem e amam o carrasco, adoram o sádico, beijam o sofrimento, não se arrependem jamais de ferir – conquanto… O escuro guarda a sua face, a cara arrumada. Mantenham a luz apagada! Eu peço. A luz escondida, a sombra. Um risco de fundo; conseguem entender. E se aproxima, vem a coisa, o trabalho, a forma fria. Essa função. Essa dor sem camarim, sem maquiagem, sem ninguém a seu lado. Devo dizer o que devo dizer. Entra!

(Entra)

– Onde?

– Aqui atrás, alguns passos para trás.

– A luz te ergue do esconderijo, mostra pouco a pouco cada uma de suas partes, os pedaços, as sobras. Onde esteve?

– Estive aqui o tempo todo. Sem luz.

– Não diga besteira, parece que perdeu o ensaio.

– O corpo que vê, a voz que houve nessas palavras.

– Não acredito que se apresenta desse jeito!

– Acredita, esse jeito de falar, essa roupa sem sentido, esse texto que trabalhamos em grupo porque não entendemos nada do que se passa, nem sei, eu mesmo, pouco digo do que poderia, do que seria dito. Talvez, amor, cortei meu coração.

– É pouco.

– Sinto em mim a vergonha desse tablado. Posso matá-lo, inventar que o meu desejo morre em sua boca, que minhas forças, tão poucos me fazem tremer. Veja quanto tremo, mantenho o corpo duro e vibro. Escuta, direi algo com ódio, com desgosto. Posso coçar o corpo para fingir arrependimento, incerteza. Que tal mão no queixo para exprimir triste pensamento? Posso pôr os pés em algum banquinho, eu tenho um no camarim para fotos. Se soubesse quanto é difícil dizer nada. E a alegria que agarro com força. Risada doce.

– Encara essa gente, fale algo de valor. 

– Voltarei para o camarim, encontrarei os medrosos arrogantes com olhares fulminantes, os nossos mentirosos e suas fúrias. A camareira e o camareiro me trarão a corda do enforcamento quando chegar o último instante, naquele ato. Vou rápido, a cortina acompanha aquela trilha copiada com retoques de estúdio, ouvirei o fim de um clássico, uma voz distante, algo assim, um efeito sonoro. Ele faz a dança das cortinas, afinada em toda a sua franja. A luz pousará em minhas costas, finjo desespero, vejo o sinal do contra-regra e olho para trás imediatamente e paraliso o eu olhar enquanto o pano se fecha para o último momento, o ilustrativo do último ato. O que acha?

– Teria de dizer: a tormenta passa, o vento leva as nuvens e o edredom perfumado de céu, desenho de estrela cai sobre mim. Diz, céu: Esqueça. 

– Tive um branco.

– É o texto, o que devia dizer.

– Não estou preparado. Sei nada disso não.

– Esqueça, voce deveria dizer: Esqueça os canhões o roubo noturno do larápios, o uniforme frio dos iguais, homogênio comum. Seguiria a dizer, deixa lembrar – não é meu esse pedaço.

– Morre infortúnio, diabo de vida besta, ordem na cabresta, chifre de cabra, remoinho de luz, desejos. Sai da vida, miserável.

– Não, não era isso. Era: sai da lida confortável, sobe no carro, vaga na espuma das verdades. Crueldade das horas que não passam, não marca a carne a idade. Ouve!

– Aqui vem o silêncio, nenhuma palavra. Depois eu digo: eles já terminaram a chacina. Sente a guerra, o cheiro dos corpos mortos. O fedor dos fracos.

– Não diga isso aos obedientes. Dóceis corações ultrajados, marcados.

– Assim é. Ninguém no teatro da vida, os atores esperando os filhos mortos, os personagens de vidas futuras. Tudo por eles, armas e munições, a fábrica e o comércio e no meio o governo dos honestos.

– Honestos?

– Sim, atores honestos!

– Eu morrerei antes que o amanhã se torne a manhã, noite. Amanhã estarei deitado na coxia.

– Estará vestido ou nu, estará lá como sempre, olhando o vazio dos iconoclastas. Desses que destroem o sagrado, os profanos aplaudirão você.

– A única verdade, o erro.

– Agora dá para repassar?

– Vem o terceiro sinal?

– Vem.

– Onde?

– Baixa o pano.

– Atrás da cortina, frente à cena.

– Onde? Na franja?

– Vamos entrar e agradecer.

– Vamos.

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