Acre e doce viver

A paisagem leva quem a vê.

Estira o arco e lança a si mesmo, a flecha imponderável. Arco e flecha ao mesmo tempo. Semente sem solo em que possa cair e fertilizar.

Acreditar significa ter muito para contar. É como o número que incontável se conta. Conta-se muito para ter o que contar e, de várias maneiras se acredita que cada conta é uma fala que possui o seu lugar.

Atrás de si gira a poeira das horas.

Acre, a inominável deusa, senhora dos horizontes, terra. A planície verdejante, controlada e obediente. Anuncia a sua existência para perde-la.

Acre beleza, dura faina.

Fala, diz que ama, que perdoa, que será bom, que promete, e fará algo espetacular. Diz baixo que está certo, que está convicto. Tudo sai de sua boca. Repete com sofrimento, com alegria a sua dor. Roda constante e estridente. Chacoteia, desequilibra, desanda, guincha e freia.

É o seu clamar, a sua lágrima e vergonha.

E se é sem-fim acreditar como que retirar de si toda a dúvida a ponto de permanecer como figuração da própria crença, se faz dessa crença a identidade de rei. Rei de reino de sua própria numeração, da quantidade ajuntada. Mover as rodas em busca de água, debater o balde em sua triste e inconsolável oração. Auto-piedade programada, ajeitada ao gosto e uso.

Meu nome começa com a lavra, com o que é e não com o que significa, com o que sente o sentido.

A finitude e a infinitude moram juntas no plano acima de qualquer dessemelhança. E se nomeia por desobediência.

Sobe em sua carruagem.

A certeza de que se pode nomear. O carro não é nada sem a roda, sem o lastro que a entorna.

E toma a certeza do rodar. Tempo não faz caminho.

Fosse ao menos girar das rodas, gastar a obra.

A promessa histórica de ser. Possível com a identidade. Com aquele caráter volúvel que vai de passagem com sua carga.

Passos humanos, calos na sola dos pés. E os que o vêem também são a carga. Os carregados. Todos de significados a dar sentidos das coisas ditas, vividas. É uma espécie de reconhecimento se querer a si identificado.

É o numerado, o abstrato que nomeia, materializa significações.

Diz que isso é aquilo, que outra coisa até pode ser. Faz a ferramenta da vida, escrita na forma e na armadilha técnica enchendo o vazios com sua crença do ser desobediente dos planos divinos, além, no além e na lógica das ditas vontades.

O seu nome está fincado além de si. Cravado sob o índice de sua inconstância.

Porém, o número como ordem abstrata se realiza no utópico, exatamente no lugar nenhum, naquele quadrante ante o impossível.

Todos os dias o impossível se apresenta. E a coisa nova vem polida para os seus braços. Usa, faz funcionar, descarta, mói.

A materialidade numeral é sempre única. A outra, a que não veio ainda, vai apontar no fim da estrada. Emergir do oceano das certezas dadas ao vento das dúvidas.

Dentro da carruagem desperta, e se levanta para ver adiante de si, e adiante.

Não há no real nada que possa se dizer: é original e naturalmente igual. As rodas são iguais? Não são.

Acima, abaixo, os lados. Horizontes mais o estepe.

Carro não anda. Quem anda? A verdade presente e numérica. Soluciona o ponto de vista.

Acreditar, a certeza da oração subordinada em que cumpre a qualquer um ser todo mundo.

Diga algo ao campo, peça piedade.

A deformação da palavra esvazia o significado.

Retira os raios quebrados, as hastes gastas, o lastro fendido.

Enquanto funciona e útil aguarda a devida substituição, por isso vai adiante. É todo positivo. E se confirma essa fé, de que o carro anda. Mas nem o homem anda de carro.

Revolve a terra, abre os veios, cava os passos e lança a semente. Fértil viver, o pecado da posse. Sem nome, sem chão, sem alimento nas rodas de seu arado. Indomável desconhecido que a tudo nomeia.

Mas isso acontece porque se opõe. Oposto, como mero numeral identificado. O ente abstrato e substituível, a peça remodelada por qualquer outra numeração. Carro iluminado.

Carro do fogo apaga o instante. Nada retém. O ser arremetido a todas as distâncias.

Parece domínio, conquista nomeada do reino de tantos em um só. E se acredita ser único em grande quantidade. O dirigente de olhos acesos solta sua faísca.

E tem às mãos a sua própria falta, o que mais não lhe pertence, a falha.

A roda desgastada está pendurada e balança. De dentro de si, aquecido por suas dúvidas, enrolado nas incertezas.

Dança tortuosa o leva à decrepitude.

Quem dirige o carro, o estranho desconhecido. É ele quem erra. Ele de uma raça de loucos que faz voltas e voltas sem sair do lugar. E ri, e cospe, e fustiga os cavalos, e brinca com nadas.

Vai à sua frente.

Ele, empregado das contradições.

A viagem continua, sentado entre almofadas.

Acredita. Dá nome aos desejos, pede paz e afia o dardo.

A ferrugem engastada no ronco fúnebre de suas verdades. Confessa que os passos atrás não lhe pertence. O traçado das rodas não possui suas pegadas. Retira de si todo o sentimento, mas está inflado demais.

Murmura um gosto, uma pobre vontade entalado no conforto de sua ironia.

Pede perdão. Foi o acaso, sem querer, nada demais.

Os olhos penetram o indizível. Podia abraçar o mundo com as pernas. Mas é alma rodada, girada.

Não fiz nada, não disse nada.

Finge um compromisso sério. Um sono profundo. Alguma besteira que não lhe diminui em nada. Continua o mesmo.

Incerto, o seu nome.

E divisa Acre para se tornar dono da paisagem e se exclui.

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