Entro de saída

Jacutinga no quintal

À janela aberta

o vulto caminha dentro da tarde

eu vejo o que lá não está

e é por isso que está lá o não visto

o que não se encontra é bem razoável

E se há horizontes após a fornalha das horas

eu o toco junto à parede

Sinto capaz de entender que não construo nada

encerrado nos quatros espaços distantes

-as linhas que demarcam o território da existência

Pego com as mãos o ar feito pipoca

mastigo o vazio preenchido de si mesmo

Como uma tela que o filme cansa de rodar e resolve existir naturalmente

não imagino nada em absoluto

como a inventar o tempo escondido entre as árvores

Dorme a balançar na rede o seu pesado corpo inexistente

o jardim detrás tem a profundidade que o infinito não ousa manifestar

no gramado estrelado de céu noturno

as sete sangrias se fecham

o dente-de-leão solta seus para-quedas

cai uma folha

chamada a impossível

única e pesada como um tombo

desce vertiginosa e se estatela na pedra da calçada

Ninguém entre o acaso sintomático dessa espiral

pediu que se jogasse

e veio repentino estrago desnudando o dia

ouço o baque como um estalo

aviso da aroeira

Peço licença para olhar

Sei que a nudez noturna não tem sombra

O jacarandá mimoso caminha

A vizinhança de olhos duros

pregados no açoite das vontades interditas

Um rabo de vista sussurra sobre o muro

o limoeiro joga o seu perfume e fogem os fantasmas

Entro em meio aos galhos

ouço o espírito

a coruja risca o alto e o baixo corre

ri como que chutasse algum sentido

A serra-serra entupida de trepadeiras chacoalha as preguiças

enterradas no tronco

o jacu me olha com desfeita

É longo isso tudo e perto demais que dá medo

vi asas de anjos e também estrelas vagando

rasga o vento as pronúncias

as ditas falas

sobra nada de tudo que se vive encostado

achas crispadas de fogueiras dormidas

ali soou um violão e agora arame de roupas

o bambu grunhe e faz flauta

morrer a vida toda desperta aquecida paz de barranco

Corre arroio entre os meus pés

salta o piau ou é tambiú ou saicanga ou cará que não é traíra

no bosque desce o ribeiro forte

faz cachoeira

cobras travessadas feito tricô

por causa da lua elas dançam

Entro no capim

piou o tico-tico

as saracuras convencem de uma vez por toda

e o silêncio grita

chega à lamparina o vozerio baixo de cumprimentos

sobe o café e pão quente

doce de forno

cauda de piano no ouvido

nem pregunta nem resposta

digo à todo mundo que já vou

Deixe uma resposta