Tapete das certezas

Tapete

Ao fim o campo humano

devastado

Entre árvores 

a memória

larga seiva das intempéries

remoinho

Imagem de sortilégios

a escrita das sombras aglutinadas

Vejo os sólidos

isósceles ali plantado

terreno dos descampados

frágil textura do passado

não é daqui o que está lá

uma rede falta

cheia de vertigens

onde cortinas fecham

e se debatem as ruas

Lake’s near sea spout dirts

Lakes that take to the sea spout dirt

Thin and tight strings wires same flowing and fluid path

vaporous and incongruous

constance

thin strings and tight wires

cuts into small pieces

fluency

disintegrated vapors

creeps in the air

Memories same path fluent and fluid

vaporous and incongruous

Salive glues that touches skins

vaporisation of speech

foam and clouds

in the tight eyes clair

Break up of the sense

Flows the fluidity of inconsistency incongruity

chains of softness

airy feeling

altered heat and unevenness

the said and the draft

the mouth of the masses of voices

roasted in repeated

insanity

Crushed sky

phi phi hikers

poorly paid working day

fluent wishes

Craves hands at caves

Passions in flashes

grouped benefits

tied in the string of incoherence

and crochet with the incongruity

lagos pegados ao mar jorram sujeiras

fios de cordas finos e apertados mesmo caminho fluente e fluido

vaporoso e incongruente

cordas finas e apertadas fios 

cortados em pedaços miúdos

caminho fluidio fluencia de palavras de águas 

vapores desintegrados

Memórias mesmo caminho fluente e fluido

vaporoso e incongruente

vaporisidade das falas

bafio de espumas e nuvens

no ar apertado

flui a fluidez da inconstância incongruencia

correntes de suavidade

arejado sentimento

calor alterado e desnivelamento

o dito e o calado 

a boca das massas de vozes

assadas aquecidas na repetida

demência

filos fiados caminhantes

mal pagos de jornada 

fluentes desejos

paixões em lampejos

vantagens agrupadas 

amarradas no barbante da incoerência

e se faz crochê com a incongruencia

Mar de vida alena


Mar de vida alena

bate em mim espumas de perdidas almas

vai em mim o que jamais perdido

Vaga silencio

pensar a partida

risco das incertezas

canta o mar

dentro o sal das horas

Jamais olhar para trás

águas em rebuliços areias movidas

profundidades e lidas

embala e traz ao peito

espumas serenas

longe de vidas amenas

Acre e doce viver

A paisagem leva quem a vê.

Estira o arco e lança a si mesmo, a flecha imponderável. Arco e flecha ao mesmo tempo. Semente sem solo em que possa cair e fertilizar.

Acreditar significa ter muito para contar. É como o número que incontável se conta. Conta-se muito para ter o que contar e, de várias maneiras se acredita que cada conta é uma fala que possui o seu lugar.

Atrás de si gira a poeira das horas.

Acre, a inominável deusa, senhora dos horizontes, terra. A planície verdejante, controlada e obediente. Anuncia a sua existência para perde-la.

Acre beleza, dura faina.

Fala, diz que ama, que perdoa, que será bom, que promete, e fará algo espetacular. Diz baixo que está certo, que está convicto. Tudo sai de sua boca. Repete com sofrimento, com alegria a sua dor. Roda constante e estridente. Chacoteia, desequilibra, desanda, guincha e freia.

É o seu clamar, a sua lágrima e vergonha.

E se é sem-fim acreditar como que retirar de si toda a dúvida a ponto de permanecer como figuração da própria crença, se faz dessa crença a identidade de rei. Rei de reino de sua própria numeração, da quantidade ajuntada. Mover as rodas em busca de água, debater o balde em sua triste e inconsolável oração. Auto-piedade programada, ajeitada ao gosto e uso.

Meu nome começa com a lavra, com o que é e não com o que significa, com o que sente o sentido.

A finitude e a infinitude moram juntas no plano acima de qualquer dessemelhança. E se nomeia por desobediência.

Sobe em sua carruagem.

A certeza de que se pode nomear. O carro não é nada sem a roda, sem o lastro que a entorna.

E toma a certeza do rodar. Tempo não faz caminho.

Fosse ao menos girar das rodas, gastar a obra.

A promessa histórica de ser. Possível com a identidade. Com aquele caráter volúvel que vai de passagem com sua carga.

Passos humanos, calos na sola dos pés. E os que o vêem também são a carga. Os carregados. Todos de significados a dar sentidos das coisas ditas, vividas. É uma espécie de reconhecimento se querer a si identificado.

É o numerado, o abstrato que nomeia, materializa significações.

Diz que isso é aquilo, que outra coisa até pode ser. Faz a ferramenta da vida, escrita na forma e na armadilha técnica enchendo o vazios com sua crença do ser desobediente dos planos divinos, além, no além e na lógica das ditas vontades.

O seu nome está fincado além de si. Cravado sob o índice de sua inconstância.

Porém, o número como ordem abstrata se realiza no utópico, exatamente no lugar nenhum, naquele quadrante ante o impossível.

Todos os dias o impossível se apresenta. E a coisa nova vem polida para os seus braços. Usa, faz funcionar, descarta, mói.

A materialidade numeral é sempre única. A outra, a que não veio ainda, vai apontar no fim da estrada. Emergir do oceano das certezas dadas ao vento das dúvidas.

Dentro da carruagem desperta, e se levanta para ver adiante de si, e adiante.

Não há no real nada que possa se dizer: é original e naturalmente igual. As rodas são iguais? Não são.

Acima, abaixo, os lados. Horizontes mais o estepe.

Carro não anda. Quem anda? A verdade presente e numérica. Soluciona o ponto de vista.

Acreditar, a certeza da oração subordinada em que cumpre a qualquer um ser todo mundo.

Diga algo ao campo, peça piedade.

A deformação da palavra esvazia o significado.

Retira os raios quebrados, as hastes gastas, o lastro fendido.

Enquanto funciona e útil aguarda a devida substituição, por isso vai adiante. É todo positivo. E se confirma essa fé, de que o carro anda. Mas nem o homem anda de carro.

Revolve a terra, abre os veios, cava os passos e lança a semente. Fértil viver, o pecado da posse. Sem nome, sem chão, sem alimento nas rodas de seu arado. Indomável desconhecido que a tudo nomeia.

Mas isso acontece porque se opõe. Oposto, como mero numeral identificado. O ente abstrato e substituível, a peça remodelada por qualquer outra numeração. Carro iluminado.

Carro do fogo apaga o instante. Nada retém. O ser arremetido a todas as distâncias.

Parece domínio, conquista nomeada do reino de tantos em um só. E se acredita ser único em grande quantidade. O dirigente de olhos acesos solta sua faísca.

E tem às mãos a sua própria falta, o que mais não lhe pertence, a falha.

A roda desgastada está pendurada e balança. De dentro de si, aquecido por suas dúvidas, enrolado nas incertezas.

Dança tortuosa o leva à decrepitude.

Quem dirige o carro, o estranho desconhecido. É ele quem erra. Ele de uma raça de loucos que faz voltas e voltas sem sair do lugar. E ri, e cospe, e fustiga os cavalos, e brinca com nadas.

Vai à sua frente.

Ele, empregado das contradições.

A viagem continua, sentado entre almofadas.

Acredita. Dá nome aos desejos, pede paz e afia o dardo.

A ferrugem engastada no ronco fúnebre de suas verdades. Confessa que os passos atrás não lhe pertence. O traçado das rodas não possui suas pegadas. Retira de si todo o sentimento, mas está inflado demais.

Murmura um gosto, uma pobre vontade entalado no conforto de sua ironia.

Pede perdão. Foi o acaso, sem querer, nada demais.

Os olhos penetram o indizível. Podia abraçar o mundo com as pernas. Mas é alma rodada, girada.

Não fiz nada, não disse nada.

Finge um compromisso sério. Um sono profundo. Alguma besteira que não lhe diminui em nada. Continua o mesmo.

Incerto, o seu nome.

E divisa Acre para se tornar dono da paisagem e se exclui.

Entro de saída

Jacutinga no quintal

À janela aberta

o vulto caminha dentro da tarde

eu vejo o que lá não está

e é por isso que está lá o não visto

o que não se encontra é bem razoável

E se há horizontes após a fornalha das horas

eu o toco junto à parede

Sinto capaz de entender que não construo nada

encerrado nos quatros espaços distantes

-as linhas que demarcam o território da existência

Pego com as mãos o ar feito pipoca

mastigo o vazio preenchido de si mesmo

Como uma tela que o filme cansa de rodar e resolve existir naturalmente

não imagino nada em absoluto

como a inventar o tempo escondido entre as árvores

Dorme a balançar na rede o seu pesado corpo inexistente

o jardim detrás tem a profundidade que o infinito não ousa manifestar

no gramado estrelado de céu noturno

as sete sangrias se fecham

o dente-de-leão solta seus para-quedas

cai uma folha

chamada a impossível

única e pesada como um tombo

desce vertiginosa e se estatela na pedra da calçada

Ninguém entre o acaso sintomático dessa espiral

pediu que se jogasse

e veio repentino estrago desnudando o dia

ouço o baque como um estalo

aviso da aroeira

Peço licença para olhar

Sei que a nudez noturna não tem sombra

O jacarandá mimoso caminha

A vizinhança de olhos duros

pregados no açoite das vontades interditas

Um rabo de vista sussurra sobre o muro

o limoeiro joga o seu perfume e fogem os fantasmas

Entro em meio aos galhos

ouço o espírito

a coruja risca o alto e o baixo corre

ri como que chutasse algum sentido

A serra-serra entupida de trepadeiras chacoalha as preguiças

enterradas no tronco

o jacu me olha com desfeita

É longo isso tudo e perto demais que dá medo

vi asas de anjos e também estrelas vagando

rasga o vento as pronúncias

as ditas falas

sobra nada de tudo que se vive encostado

achas crispadas de fogueiras dormidas

ali soou um violão e agora arame de roupas

o bambu grunhe e faz flauta

morrer a vida toda desperta aquecida paz de barranco

Corre arroio entre os meus pés

salta o piau ou é tambiú ou saicanga ou cará que não é traíra

no bosque desce o ribeiro forte

faz cachoeira

cobras travessadas feito tricô

por causa da lua elas dançam

Entro no capim

piou o tico-tico

as saracuras convencem de uma vez por toda

e o silêncio grita

chega à lamparina o vozerio baixo de cumprimentos

sobe o café e pão quente

doce de forno

cauda de piano no ouvido

nem pregunta nem resposta

digo à todo mundo que já vou

Distância

E me deu a mão assim mesmo

Caminhamos sobre o tombo,- o previsível.

Caí.

Tive tanta esperança!

Procurei um grito.

Garganta engolida em outra língua.

Pedi.

Alguém, pudesse ser um desconhecido.

Fosse o mesmo desafortunado viandante.

Que ele pudesse rir, apontar ou demonstrar ao menos a falha.

Carregar comigo do chão o buraco em que se vai.

E cuspisse ou xingasse.

Visse em minha desgraça um pouco de sua terna alegria.

E nada.

Ela me ajudou, agradeci.

Ela me ajudou sem espanto.

Um ato.

A fonte imediata de humanidade.

Se passasse ali o que em mim tão vivo resplandece

Visse o estatelado.

Ousasse ao menos um escárnio.

Nada além das figuras de linguagem apropriada

Sentidos prontos para o momento

Atentos e compassivos

Quase esticados

Chamariam ajuda, atentariam ao osso quebrado.

Então, despertei.

Mal comigo mesmo.

Entristecido.

Com dor por dentro.

Dor de alma levada.

E fui a me levantar desatento das cobertas frias.

Um homem sem eco é aquele que está longe de casa.

pmnt

As frases inatas

Retornamos sobre nós mesmos a descobrir que o distante é perto, e o que colhemos pelos caminhos são lindas meias-verdades. O quanto pode ser pequeno o que possuímos, sentados sobre nós mesmos, sentados sobre o fardo comum descobrimos que caminhamos o universo imenso mas o que temos de tão pequeno é a beleza puljente das verdades verdadeiras.

Pegou a mais bela pasta e se encaminhou para a reunião de apresentação de seu projeto. Notou naquele momento que havia trocado, que na pasta estava o rabisco maluco de um plano. Mas era tarde, aquela mulher séria, carrancuda com um lápis vermelho nas mãos, pronta para marcar o que não interessava olhou com a cara de espanto.

Era o fracasso, o tempo jogado no lixo. O que podia fazer era ser polido, levantar-se, fazer alguma menção de desculpas, algo como: entrei no gabinete errado. 

No momento em que se precipitava a dar no pé, no exato instante em que se apoio na cadeira para fazer o giro triunfal de perdi, mas ainda tenho equilíbrio. Foi que bateu a canela na base da escrivaninha e o copo de água que fora servido em um cálice jatado caiu. 

O horror de ver que ia virar uma tragédia sem precedentes fez a inércia e saltou e pegou o copo. Parece que mais que esquecer foi o desequilíbrio obrigatório para alcançar a taça antes que espatifasse. 

Piorou, pensou por alguns segundos antes de se erguer. Ainda mais, muito mais foi descoberto que a gerente com aquela cara de aço inoxidável estava descalça, que do lado da cadeira de rodinhas tinha um cachorro do tipo dinamarquês que olhou para cara dele abrindo a boca. 

Tonto, ergueu-se com cautela e bateu suavemente o rosto na quina que fez cair o óculos que tentou segurar que derrubou o copo e que, por fim, segurou pelas pernas. O mais chato, eu acho foi que buscou sentar e a cadeira de rodinhas rolou e desabou. Dessa vez pensou. O azar deve ser isso. Nem terminou de concluir sua análise do caos o bicho veio em sua direção, gigante, malhado, franzido, e lambeu a sua cara. Morri, perdi a oportunidade da minha vida, estraguei tudo e agora serei devorado por esse monstro.

Viu o rosto da moça surgir por cima do tampão. Ela o olhava com um jeito tão absurdo que não mais sabia o que dizer, pensar.

Gostei, vi que já são amigos. E é isso mesmo que eu preciso. Adorei que não me trouxe um projeto tradicional. Com o jeito que você estava, até imaginei o óbvio, mas vi que tem mais que esqueleto polido aqui, tem vida. Começa amanhã, vamos mostrar o atelier que é aqui do lado. 

Saiu de trás da mesa com uma sapatilha, chutou os cacos de vidro, passou do seu lado como se nada estive acontecido e acontecendo com os novos amigos enrolados no carpete. Por fim levantou-se, e o mundo inteiro destroçado se ajeitou, e mesmo não se importou com a marca que a água deixou da barriga ao s joelhos, e cumprindo o desígnio de um amigo cão, o abraçou ternamente antes de entrar no mundo real de seus sonhos.

Se a vida fosse um laboratório nós teríamos experiências, provado os nossos mistérios e os feito uma realidade consistente com testes realizados.[1]  

A experiência adquirida, como se diz, provém dos acontecimentos fortuitos, dos achados, de encontros, e, em geral acontecem nos lugares mais inauditos, fora de questão a nos provocar a vibração interna que, como um vulcão faz possamos dar os nossos  gritos de eureka[2].Para não passar por uma situação tal como se conta do autor do grito, a minha sugestão é se utilizar de papéis de anotação, aproveitar um meio tempo livre e rabiscar, marcar  o que vem à cabeça.

O cérebro adora vadiar como diz Clementina de Jesus. Quer ficar tranquilo, mas está o tempo todo alerta, mobilizando imagens, provocando gostos, vontades, levando a gente para a confeitaria, para um passeio, para deixar para depois o compromisso que temos. 

Para educar o cérebro, nada melhor que fazer com ele o que ele faz com a gente: bagunçar a vida cerebral, tirar do sério – que para ele é festa -, e pode ser mesmo criação de fantasmas, de insegurança, baixo autoestima ou o seu contrário como se deu com Mozart que vivia radiante, festivo, estonteante e esquecia de comer, de tomar água, de se proteger obrigando a amigos implorarem para que fosse descansar, e a sua Constança, esposa tão amada o ajudasse-a comer.[3]

A Pedagogia do Sensível possibilita que o imaginário seja incrementado em um sistema de relações entre saberes, sejam qual forem, a promover a percepção, reconhecer os índices que se apresentam a serem interpretadas e representadas em seu referencial através do qual pôde capturar, e mesmo conceber significados, a um estado crítico[4], em que se manifestam como sentidos, e a produzirem um mapa estruturado do circuito que realizou, estruturando de forma interna, subjetiva, do que planifica e possa projetar ao mundo exterior como recompensa humana a serem colocados nas relações, válidos ou não, retomados à sua maneira, o conhecimento.


[1]Os livos de Nassim Nicholas Taleb trata disso, de um conformismo treinado desde que despertamos. Vemos os eventos acontecerem com a certeza de que está na cara, e nem imaginamos que há probalidades que se relacionam, Segundo o autor, entre 90% e 10%.  

[2]O grito de Eureca veio da descoberta  da relação massa de um metal, no caso ouro em relação ao volume de água. A grande descoberta veio no momento em que Arquimedes tomava o seu banho. E conta a historia que saiu da banheira para a rua gritando descobri, eureca (Grg.).  Tamanho foi a sua surpresa.

2 Stendhal escreveu um dos mais belos livros, “A Vida de Mozart”, e há um outro, que bem traduz esse encantamento, “A Viagem de Mozart a Praga” de 

4. A crítica é como uma onda que chega ao seu ápice, que sem como retornar, sabe-se que se esparge, desambígua-se das águas volúveis do pensamento, do que a levou ser onda. E a planear ao plano de sua trajetória, em toda sua extensão de tamanho, forma, peso, em todas as suas dimensões e força a se direcionar, levado, precipitado, em sua manifestação,  em sua inteireza de onda do mar que quebra qualquer outra possibilidade a ser conhecimento projetado, de saber à terra.