Akrasia

Persona

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A pessoa que somos aparece nos traços de nosso caráter, iluminados. 

Uma pessoa émais que uma máscara. E éa cara que apresentamos, o que mais se mostra. 

Acreditamos que somos de um jeito. Mas são as outras personas que dizem o que aparentamos.

A gente se fantasia da gente mesmo, e muitas vezes não somos descobertos. Por mais que tentemos nos inventar melhor, o mundo nos revela a outra face.

Um rosto  também oculta o que pensamos ser.

E nem tudo évisto. Algo fica de fora. 

Aprende-se com o outro a nos tornarmos a personalidade da feição viva.

Quem nos vêreconhece.

Brincamos com a máscara. Damos a ela mais vivacidade ou menos. Fazemos caretas para dar sentido a uma coisa e a outra. Se gostamos ou não. Quando nos fazemos de indiferentes e quando dizemos verdades.

Então mentimos sobre a nossa beleza e bondade ou o contrário. Faz de conta que éassim que sou em família, entre amigos, com a vida social.

Muitas vezes a máscara cai e nos pegamos vexados, envergonhados, tímidos e arrependidos. Outras vezes que entramos em um lugar inventamos a compleição de santidade, de angelical sentimento. Muito disso acontece em cada espaço.

A expressão da cara, a máscara, a pessoa, a persona se repete e se faz diferente. Na escola, no templo, no grupo de amigos, no trabalho, junto aos mais próximos, e com completos desconhecidos nos fazemos outro, alguém aceitável para cada ocasião, para cada momento.

O que somos transcende o tempo, a forma, os territórios por onde me estabeleço com a pessoa múltipla que sou.

Somos a beleza refletida no espelho, carranca, e monstro, estranhos por sermos o tempo todo feitos das relações e interações tão contraditórias. Bruxos, magos, feiticeiros, santificados super-heróis, grandiosos e salvadores, terríveis e bons, corajosos e temerários. 

A normalidade cansa, deseja-se ir além. Portanto brincar de ser quem somos para descobrir que somos a promessa de ser, uma vontade ulterior que não nos pertence e, com certeza, imaginamos seriamente, está com aquele que nos vê, percebe, sente, e poucas vezes se nos compreende. 

O que são partes da história está personificado em sua totalidade humana. Reflexo do que conhecemos, adivinhamos, símbolos de um passado no presente, sinais que recuperamos em nossa constante transformação.

Prego

Há muito significado no prego. Talvez estejam lá à venda, ou que saiu do estoque. Algum antigo mercador no pregão diário está por aí a ajuntar os pregos da vida e a revendê-los. Prego quer dizer um bife parecido com a sola de sapatos, que usa pregos, pequenas tachas, duro e difícil de consumir. Quando estiver exausto, cansado, quando enfim, no prego, poderá entender. Prego de empregar isso e aquilo para o trabalho, fazer pregas na costura, de pregar mesmo, e apregoar, de pregar naquele sentido transcendental, no pendurar tem prego e outros empregos podemos dar àquilo que é estar cansado. O prego sustenta em um querer fazer sem fazê-lo de preguiça.

Sustenta porque comendo aquilo tudo é possível sobreviver. Ele sustenta a família, o carro, sustenta o banco e os juros; são ou não sustentáveis tais condições das bolsas, inclusive alguém sustenta a bolsa no sentido de carregar pendurado. 

E pendurado tem mais coisa ainda: veja que pendurado é o sujeito que está no prego e é insustentável; quer-se dizer que aquele cara tem altas dívidas e acabou cedendo ao banco depositário fiel aquilo que acreditava suster, mas que incondicionalmente o deixou endividado. Endividado!

Impossível de dividir, ou mal dividido, ou mal resolvido, sem grana, sem meios – impossível de realizar a operação da divisão -, sem resolução cabível.

Aliás cabo, pedaço de terra, mar à costa, cumprimento que atinge um objetivo evidente, no caso água do mar, o sujeito que dá as ordens imediatas à seu subalterno, aquilo que faz papel de alavanca, faz mover algo dependente de uma ação – no caso o cabo da enxada -, dando cabo ao assunto, capaz de executar, realizar, definir, terminar, um apêndice, que é parte, pedaço de algo que foi dividido, coisa que veio de uma divisão militar por exemplo, e aí vem cabotino, repetitivo, cumpridor de tarefas, refreado, diferente de encabado, que quer dizer preso à uma circunstância, preparado, destituído também de outra possibilidade, que não vai adiante.

Adiantar, ante a todos os problemas, o melhor é seguir. Quer dizer, ao andar no tempo, fazer a vida, ver o dia novamente, atentar ao dia, seguir passo-a-passo, tomar caminho, confiar, ser esperto, oportunista, tomar lugar, reavaliar as condições com rapidez, ‘meritoso’; está adiantado, superior, acima das condições propositadas, faminto, expedito, laborioso. 

Labora, segue até ficar no bora, isto é, vermelho, cansado, exausto. Elabora, gasta energia, transpira e se coa em realizar essa lida. 

Por isso lídimos são os que que por lidarem tanto, realizam a lide. O que faz ou é resultante da lida, por isso se dá liderança aos que lideram. Aos que sabem trabalhar a situação de produzir algo, a mercadoria.

Seja idéia ou produto material. A coisa mercadoria tem muito a ver com transações monetárias. Os assuntos mercadológicos. Escambo, troca, a mediação, uma espécie de política de mercadores de tralhas que vendem vidas. E morrem a quererem ser o tempo e jamais lídimos por não cavarem de suas próprias mãos a vida, mas a morte a má sorte dos desvalidos, nós.

E nós é isso mesmo, vários nós na corda como que um contínuo, uma tripa. Uma coisa sobretudo amarrada, enlaçada em si mesma que faz o coração, a dizer das tripas, o coração. A vida humana feita disso, de uma mercadoria enosada que podemos lidar para destrinçar.

Esse nós que é feito do nó, do arrocho que nos unem e nos despedaça.

Aí é o seguinte: lareira, lar, labareda, lábaro.Labor (trabalho), energia gasta para um fim adiantado em si mesmo para ser dividido a todos o alimento que a cabo conseguiu laboriosamente porque o fogo interior, a centelha conhecida entrega de semideus, oferenda roubada, a luz o esclareceu e o fez  melhor.Tornou-se caminho a ser iluminado a aquecer pessoas que pregoaram esse desejo de luminescência.

Bom é um negócio de ‘lumen’, você entende.

E negócio nada mais é que negar o mais importante (que nem mesmo precisa de luz (fialho) ou filho de luz, ou centelha), o ócio e isso é algo incrível no espreguiçamento. Mas negar tem uma raiz ao negro, ao africano.Tenho a impressão que negativo carrega a beleza de não fazer que parece ser ‘pregável’ ao sentido mais ilustrativo possível de que a desobediência é o ato da liberdade garantida, e negar-se é ao menos, no mínimo paz, descanso, alegria que não se tira de ninguém, mesmo na submissão aos que não param, negociam, fazem tratos e tratados, doutrinam a quietude e o bem estar a um eterno movimento imposto.

O ócio mostra um reconhecimento de si ao que não mais necessita realizar.Vender o descanso, o estado natural de vida dormitada, sonhada, desejada, de entregue a si mesmo é a negociação.

Como que tudo estando em movimento exigisse a todos, os que estejam assim, por serem assim jogado à roda de Shiva, ao tempo dançarino na roda viva se metessem a querer alcançar os deuses para lhes tomar as distâncias, os futuros para o enriquecimento de quem os manda.Mão a dar-nos porrada.

Vendem o mais precioso rico que somos, o que realmente temos – porque nos perdemos no tempo guiados ao indefinido -, a felicidade de não fazer.

E se deita ao tempo que indefinidamente segue na carruagem ao lugar do jamais feito e conhecido, que nos dá a surpresa da vida.Despregados dos infelizes, libertinos em nossos prazeres, jogados além e na certeza da nulidade do açoite.Um instante de nossa eternidade chacoleja à brida de Krishna.

Sem nos pôr nada às ancas, sem nos escancarar, porque longe de tudo está o que não é presente.

O imediato insustentável só existe na abstração.

É desse despejo de tralhas que se ajuntam e se amaldiçoa os deuses, elas todas feitas das canções da labuta. A materialização do não-ser, do não-trabalho em se perder o tempo.

Do intervalo do trabalho querem que trabalhemos pregando obrigações, ética da obediência, de subserviência. Querem nos encantar com o lixo de suas histórias à subsunção, em nos coisificar à venda do tempo a nos despejar para pregar a vida na tábua de suas fortunas.

Atenta-se aos deuses esses coitados, do coito da sobrecarga, da mais valia, do pedaço em pedaço tornando o lazer a visita às lojas, onde assistimos boquiabertos as nossas perdas. Ali estão vistosos o descanso morto.

Coisados, coisificados, um treco a tareco qualquer se desgastam para sermos tais coisas.

‘Coisos’ ‘coisentos’ se cosem às meias do tempo ao cozer os dedos na panela de pressão das coisas mesmas, e que negamos, desobedecemos em nossa negritude de completa liberdade aos amos. Sem amos somos e menos pregáveis podemos ser nesse cozido da vida.

Meu pai era negro da cor da sombra escura com esmaltes laqueados e de riso amoroso que poucos tiveram, de bondade encantadora. Ele nunca soube disso. Nós não, éramos pregados no éter, coisa diáfana, transparente, leites escorridos, coalhada e vômito. Naturalmente filhos de um vizinho ou algum vendedor de verduras ou sei lá. Minha mãe era sardenta como areia e sal no vidro. Ela adorava fazer coisas erradas que certamente fazia por vingança. Vamos ao cinema? Hoje não dá. Pulava o muro alto da vizinhança e resolvia o filme.

Meu pai sempre, desde sempre amou seus filhos postiços. Ponto. Ele nunca nos surrava, nunca nos batia a cabeça à porta, nem jogava garfos em nossa garganta na hora do jantar quando perguntava sobre o boletim escolar. E nos levava ao jogo, ao parque de diversões e lia trechos magníficos de um cancioneiro popular com rima torta. Era algo além do comum. Era tipo, um tipo que me foge, tipo pai, é isso. Ele foi e sempre será o cara da minha vida, meu pai. Sensacional. A minha mãe, bem ela diferente, andava feito clara de ovo. Não se podia discordar. Nós dizíamos sim, sim, sim. Nos lavava no álcool com água morna, queria nos tirar qualquer possibilidade da tísica, do sarampo. Ela escovava a pele até o vermelhão. A gente a adorava porque cantava canções amáveis. E, sério, amava papai. Cuidava dele, fazia os seus gostos. Ele, como disse antes, às vezes deixava estar e ela corria à rua pelada. Ele ia ao seu encontro daquele jeito rápido e pertinaz, a enrolava em uma coberta e a trazia amorosamente para casa. Cuidava dela como de um bibelo, com doçura e paciência. Quando ficou idosa e lembrava apenas do passado ele a ajudava, trocava fraldas, lia horas sem fim ao seu lado as histórias que amava. E se foi. Ele, de súbito quando voltava da várzea.

Pregado ao amor, ao desespero de amar e viver o nosso grupo se amontoava. E a vida de ser rebatido, de ferir a cabeça para enterrar o ferro por qualquer razão crescia no bairro até chegar ao fim do mundo. São deveres cravados, direitos enfiados no veio. E quem vive de direitos pouco se sabe se a nós os deveres se fazem no prego.

Estado que nos come a fazer pregas de nossa idade. Pró régio, prévio e dito de um rei que nos invade o tempo. E a tirar, em fitas de laço duro, prego, a vida no chicote da comparação estúpida que faz a doutrina, o direito no esquerdo que lhes dá a mesma medida da batida, em ferir a possibilidade de alegria.

Só rimos do cinismo, da piada má. Identificamos toda essa parafernália na idiotia de risos porque nos vemos, os que são retirados da carruagem de Vishnu.

Ainda que siga a arte, a criatividade absurda e intempestiva de Krishna, nós, os Arjunas somos arremessados no turbilhão da guerra. Matamos os nossos irmãos, aqueles que são chamados nós mesmos.

Queria ter sido como meu pai. Eu me esforcei para isso. Lutei contra o couro rígido da pena e do medo. Ninguém ousou dizer: ele não é filho dele. Todos o viam com o respeito e seriedade de um homem preso na cruz de toda uma vida amada.